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domingo, 15 de dezembro de 2024

Filosofia Clínica Agridoce 46*

                    

       
                                      





                                                O baile das loucas 

A obra recheada de talento e sensibilidade, realiza um convite para testemunhar e sentir - ainda que em perspectiva - circunstâncias cujo debate permanece atual: O baile das loucas. França. 2021. 114 min. Escrito, dirigido e atuado por Mélanie Laurent. Disponível no Prime vídeo.

Seu roteiro compartilha uma reflexão crítica sobre a vida em meados do século XIX, onde uma determinada classe social, para manter sua hegemonia, internava no hospício de Salpêtriére, seus desafetos, quem buscava superar a forma de vida de seu tempo ou denunciava as injustiças, desmerecimentos, preconceitos.  

A autora destaca alguns componentes da internação involuntária, ou seja, a proposta de transformar pessoas íntegras e expressivas consigo mesmas em objeto de manipulação e controle pela Psiquiatria, na época representada pela festejado Jean-Martin Charcot e seus cúmplices.

O texto descreve a realidade das mulheres internadas e isoladas da sociedade. As formas como elaboram sua resistência e redes de apoio, em relação a instituição que as torturava à guisa de tratamento - como acontece ainda hoje -. A metodologia para submeter e manipular singularidades - não raras vezes genialidades - exerce seu saber-poder amparada em leis, decretos, normas jurídicas que autorizam determinados profissionais a conter, interditar, oferecer uma cura para algo inexistente:  doença mental. A menos que se traduza doença mental como a resultante das intervenções da própria psiquiatria, como ensinam psiquiatras da antipsiquiatria como: David Cooper, Ronald Laing, Thomas Szasz.    

Existem muitas nuances significativas no roteiro, direção e atuação de Mélanie Laurent, onde seu olhar se coloca em reciprocidade com os destituídos de voz e vez. Um texto de alerta para o que se faz ainda hoje, como sustentação de metodologias que propõe a inclusão para uma narrativa de normalidade excludente. Assim, os disfarces se multiplicam, como a invenção de síndromes e distúrbios, para justificar e legalizar práticas de submissão do fenômeno humano singular as lógicas de rebanho.    

Nesse sentido, a autora aponta, como exemplo de abuso, o caso de um médico assistente de Charcot, o qual simula estar apaixonado por uma interna para satisfazer sua própria sexualidade. As práticas de tortura - à guisa de tratamento - como: hidroterapia (contenção da pessoa nua numa caixa lacrada com gelo), celas escuras e isoladas, camisa de força, choques elétricos, insulínicos, em um lugar onde a palavra do psiquiatra é lei, inclusive com o apoio da sociedade daquele tempo, a qual festeja essas intervenções e maus tratos como a cura para seus males.    

Em outra cena, o doutor Charcot hipnotiza uma paciente, num auditório com estudantes e profissionais, para demonstrar sua metodologia de cura para a histeria feminina, ou seja, pela força de seus agendamentos pessoais e institucionais, consegue submeter algumas internas as suas práticas para fabricação da loucura. Num desses episódios, ao hipnotizar uma paciente, o psiquiatra produz uma crise epiléptica. Ao perceber a jovem caída no chão, com espasmos e se contorcendo, Charcot vira as costas e sai andando.       

As personagens femininas principais: a enfermeira chefe (Mélanie Laurent) e uma interna com habilidades mediúnicas (Lou de Laâge), tem uma interseção positiva através dos dons mediúnicos da interna, a qual consegue ouvir e compartilhar mensagens de sua irmã.  

O filme também demonstra, dentre outros aspectos, a força da ideologia social, a qual, para se manter, é capaz de submeter qualquer um, mesmo da própria família, amigos, colegas, para sustentar a estrutura funcionando a qualquer preço. Assim, questionar ou refletir sobre eventos como a desigualdade social, ou, no caso das mulheres, buscar alguma forma de emancipação de sua expressividade, pode significar, como em nosso caso no Brasil, como descreve a jornalista Daniela Arbex, em sua obra: Holocausto brasileiro, sobre o complexo manicomial de Barbacena/MG, onde foram presos e exterminados mais de 60.000 brasileiros, em condições semelhantes a descrição do filme: O baile das loucas.  

A Casa da Filosofia Clínica trabalha e se associa as propostas para superar a produção da loucura descrita em obras literárias, filmes, crônicas do cotidiano, como um alerta sobre a lógica das instituições totais, e sua oferta de cura para aquilo que não tem cura, por não ser doença! Quase sempre, trata-se de um fenômeno produzido na própria instituição. Com a lógica psiquiátrica e seus cúmplices, as classificações da desrazão encontram sua fonte de inspiração.

Talvez um diálogo inter e transdisciplinar, pudesse esclarecer, qualificar estudos e práticas com pessoas em seus momentos de desconstrução e ressignificação pessoal. Questão de método. As escolas de psiquiatria, com foco numa medicina do corpo - teriam condições de acolher essas reflexões críticas, os ensinamentos dos novos paradigmas, transformando suas verdades em uma lógica aprendiz? Suspeito que não!

Aquele abraço,

hs     

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