Filosofia clínica e discurso existencial | Sílex
Boas leituras e releituras!
Aquele abraço,
*hs
*Resenha de Ana Bia para o site: https://proximolivro.net/
A vida é uma dança imprevisível
entre o que conhecemos e o que ousamos explorar. “Pérolas Imperfeitas:
Apontamentos Sobre as Lógicas do Improvável”, de Hélio Strassburger, não se
contenta em ser apenas uma leitura; é um convite a questionar as realidades que
nos cercam. Com uma prosa ligeira e provocante, Strassburger oferece um
vislumbre das complexidades do cotidiano, os fragmentos de beleza que só
emergem na imperfeição.
A obra se faz acompanhar de
reflexões que transitam entre o inesperado e o banal, revelando que muitas
vezes são as falhas que nos fazem humanos. Em suas páginas, você encontrará a
essência das pepitas de sabedoria que surgem na adversidade e nos desafios
diários. Ao longo de 142 páginas de puro deleite, Strassburger despiu-se de
qualquer formalismo excessivo e, em vez disso, abraçou a autenticidade. A
narrativa se torna um espelho, refletindo nossas próprias lógicas do
improvável, fazendo você refletir sobre as suas próprias experiências de vida e
as lutas pessoais que moldam seu ser.
Os leitores se dividem entre os
que se sentem revigorados pelo estilo ousado e direto do autor, e aqueles que,
talvez, esperavam algo mais linear. O que é claro é que a prosa de Strassburger
provoca reações intensas: muitos se sentem inspirados a embarcar em uma jornada
de autodescoberta, enquanto outros criticam a falta de uma estrutura mais
convencional. Mas quem precisa de convenções quando a vida, com todas suas
reviravoltas, nos ensina a improvisar?
Neste cenário onde a lógica as
vezes falha, a obra provoca risos, lágrimas e um profundo pensar crítico. O
autor não está só debatendo o improvável; ele deixa a porta escancarada para
que você possa entrar e vivenciar a imperfeição como um valor vital. Aqui
reside a verdadeira pérola: a aceitação do inusitado como parte da história
humana.
Com uma sensibilidade quase
poética, Hélio Strassburger se coloca como um maestro das palavras: cada frase
e cada aponto são notas que compõem uma melodia de introspecção, trazendo à
tona a beleza nas falhas e nas incertezas do ser. Você já parou para pensar nas
suas próprias pérolas imperfeitas? Aqueles momentos que, à primeira vista,
parecem ser um desastre, mas que, com o tempo, revelam-se extraordinários?
Na cultura contemporânea, repleta
de superficialidades, o autor consegue nos cutucar para sairmos da zona de
conforto. Ele nos faz lembrar que, por trás de cada imperfeição, podemos
encontrar histórias ricas e cheias de vida. Não é apenas uma leitura; é uma
experiência transformadora que modela sua visão de mundo e de si mesmo.
Deixe que Pérolas Imperfeitas
invada sua mente e seu coração. Esteja pronto para questionar e, quem sabe,
reinventar suas próprias lógicas do improvável, pois, em última análise, a
beleza reside justamente nas imperfeições. Você está disposto a embarcar nessa
viagem de autodescoberta e reflexão? O que você vai fazer com essas novas
pérolas adquiridas? A escolha é sua! 🌊✨️
📖 Pérolas Imperfeitas: Apontamentos Sobre
as Lógicas do Improvável. Ed. Sulina/Porto Alegre/RS. 2012.
✍ by Hélio Strassburger
🧾 142 páginas
E você? O que acha deste livro?
Comente!
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*Ana Bia
Fora de foco
O filme Desconstruindo Harry
é de 1997. Tem a duração de 1h35min. Escrito, dirigido, representado por Woody
Allen e convidados. A obra se aproxima da nova abordagem terapêutica da
Filosofia Clínica, especialmente com roteiros de autogenia, espacialidade
intelectiva, e outros. No entanto se distancia, quando o fenômeno humano
singular é tratado como algo universal, coisificado, refém de tipologias,
estereótipos, protocolos.
Um aspecto vinculado aos deslocamentos
intelectivos, se refere a pluralidade de expressões, derivações, para integrar
o roteiro, tendo por base uma só matriz descritiva. Em outras palavras, trata-se
de textos dentro de um texto, num convite para o leitor/espectador acompanhar a
interseção do centro com suas margens. Vivenciar as sensações que se oferecem
na história.
No mesmo sentido, um pouco antes
de ir ao cinema, autor e obra se confundem em sua redação. Os personagens se
mesclam na criatividade dos roteiros. O texto se assemelha a uma autobiografia para
as telas.
O filme convida a superar as
cenas iniciais, onde facilmente se poderia cair numa armadilha interpretativa,
acreditando saber, de antemão, do que se trata, para onde a obra se dirige. A
trama surpreende o tempo todo, onde realidade e ficção se reapresentam para dizer
e desdizer quase tudo.
A escritura do autor se desdobra
para encontrar o cinema. As múltiplas estórias em um mesmo roteiro elaboram -
com o espectador - um contrato de lógica absurda, próximo do drama kafkiano.
Múltiplos papéis existenciais redigem seus originais, onde as franjas e
periferias integram uma coisa para ser outra.
O discurso da personagem ao invadir
a casa de Harry Block (Allen): “Você acabou com a minha vida e agora vou me
matar aqui, na sua frente, no seu carpete”, o escritor: “você é uma
desequilibrada”, ela rebate: “Sim, por isso você me escolheu! (...), quem mais
me convenceria a fazer sexo oral no enterro do meu pai?”, a cena prossegue com
outros diálogos desencontrados, ameaças, acusações, relação compartilhada pela desestrutura.
Pouco depois, em nova cena, com a
trilha sonora de “garota de Ipanema”, o filme prossegue, agora em nova
perspectiva, convidando o espectador a experienciar uma mudança de rota, onde o
enredo principal dialoga com suas derivações.
A obra é contextualizada num
ambiente vintage, onde o ator/escritor/roteirista/diretor trabalha em
seu apartamento, a meia luz, dedilhando sua Remington, lugar para expressão de suas
ideias e criatividade. Um refúgio para sua singularidade.
Em outro momento Harry Block aparece
deitado num divã, com o analista a sua cabeceira. Fato recorrente numa obra de
inspiração psicanalítica, apesar das críticas que o autor lhe concede. Ao longo
da história surgem nuances da escritura de Woody Allen, com sua digital impressa
nas cenas e personagens de sua obra. Muitas vezes se tem a sensação de ver e
ouvir sua voz por todo lado.
A sequência traz o escritor
novamente em terapia, dizendo de sua preferência por prostitutas: “não consigo
me acertar no amor (...) eu ainda adoro prostitutas, sabe? você faz o que tem de fazer, paga e elas vão
embora. Você não tem que falar de Proust, filmes, e mais nada”.
Quando a terapeuta faz uma
intervenção: “O conto que você estava trabalhando” ... Harry relembra: “a
câmera está fora de foco. O ator está fora de foco. O Mell está fora de foco”.
(...) Quando chega em casa a mulher diz: “você está estranho”, ele: “sim, estou
fora de foco”, ela: “você está borrado”, ele: “estou passando por uma coisa que
não sei o que é. (...) Não consigo escrever, não vem”.
Na cena seguinte o personagem se
apaixona por sua terapeuta. O narrador onipresente: “Para Epstein, finalmente
encontrava a mulher ideal, alguém que o compreendia”. Mais uma vez oferecendo
uma leitura não-linear, Harry encontra na rua seu outro eu, aquele do momento
inicial do filme, onde conversam. “Quem é você?” ele pergunta, o outro responde:
“sou quem você criou e agora não me reconhece? (...) eu sou você, um pouco
disfarçado.”
Em outro momento, quando sua nova
terapeuta, em sessão com o escritor, deixa de lado seu papel existencial para
ir à sala ao lado, onde encontra o personagem do divã sendo outro - num raro instante
onde Harry Block e Woody Allen são o mesmo -, passam a discutir sua relação, tendo
como motivação um relato da terapia. Uma estética para traduzir realidade e
ficção como algo ainda sem nome. Em Filosofia Clínica a fenomenologia da
hora-sessão se aproxima desse outro lugar onde as pessoas se encontram.
A seguir, em um novo
desdobramento do filme, Harry Block vai ao submundo e encontra o anjo decaído.
Um breve embate entre eles: o escritor: “eu sou mais poderoso que você, pois
sou um grande pecador e você é um anjo caído (...) Uma vez quase atropelei um
crítico literário, desviei no último instante”. O anjo caído: “quer que ligue o
ar-condicionado?” Harry: “tem ar-condicionado aqui?” o anjo: “Sim, destrói a
camada de ozônio”.
Questionado das razões por estar
no inferno e não no céu, o escritor responde pelo anjo: “é melhor mandar aqui
do que servir no céu, acho que foi Milton que falou isso”.
Em outra cena, Harry vai receber
uma homenagem na universidade onde estudou. Para isso convida uma prostituta
para lhe acompanhar, chegando lá é preso, acusado de sequestrar seu filho. Os
amigos pagam sua fiança, ele é solto.
Após, chega à homenagem da
universidade e pergunta aos colegas: “posso levar mais alguém?”. Quando respondem: “é claro, o sonho é seu! Todos
esperam para homenageá-lo, afinal, você os criou.” Em suas reflexões Harry
pensa: “Como pode um cara que não funciona na vida real, funcionar na arte?”.
Uma personagem tenta traduzir: “Seus livros parecem um pouco tristes na
superfície, por isso eu gosto de desconstruí-los, pois no fundo são felizes.”
Nesse sentido o autor compartilha
uma história recheada de estórias, para descrever-se em seus escritos. Uma
ficção por onde a realidade transita, revelando aspectos desconhecidos. Ao retornar para sua casa e reencontrar sua Remington, tem a ideia para um
romance. Segundo ele: “A nova obra irá oferecer uma descrição de como nossas
vidas consistem na forma que escolhemos distorcê-las”. Sua escrita - mais uma
vez - salvou sua vida.
Aquele abraço,
*hs
A mitologia Grega descreve Proteu
como um deus marinho com habilidade para assumir múltiplas formas. Seu rol de
competências integra versatilidade, adaptabilidade, flexibilidade.
Ao ter uma plasticidade apta a se
moldar e conviver com circunstâncias difusas, essa espécie se assemelha ao
papel existencial do filósofo clínico, o qual, sem perder de vista sua
expressividade é capaz de acolher, visitar, interagir com as lógicas da
diferença.
Essa característica pode ser
ininteligível, sem um borogodó para acessar uma condição singular. Nossa
cultura impregnada das metodologias da tradição, referendadas pela lógica: você
sabe com quem está falando? E os acréscimos infindáveis de novas patologias, em busca da sustentação corporativa, aprisionam o fenômeno humano em uma
só versão.
A definição acadêmica acredita
ter uma base sólida para suas convicções sobre as pessoas. Assim propõe narrativas
para sustentar ideologias sem comprovação objetiva. A estrutura de pensamento, ao
ser singular, multifacetada, reivindica uma abordagem em sintonia com seu devir
existencial.
A lógica Proteu possui uma
relação contraditória com o gesso diagnóstico. Nesse sentido, é fácil entender
seu desajuste com agendamentos de para sempre, ou seja, a palavra-lei
do alienista e sua sentença de prisão perpétua. A cristalização humana sob a
ótica psiquiátrica, passa a ter nomes: síndromes, espectros, autismos,
esquizofrenias, ao gosto de uma ideologia disfarçada de medicina, sua proposta? Engessar expressividades num
molde socialmente aceito.
É necessário esclarecer que doenças
mentais não existem, são fabricadas por uma estrutura articulada, que
inclui universidades, escolas de pós-graduação, hospícios, clínicas de saúde
mental. Inventadas para submeter pessoas que apreciam pensar, refletir,
analisar, questionar, contraditórias com a hegemonia da burrice a qualquer
preço.
A oferta generosa de diagnósticos,
prognósticos, é submissa a lógica da indústria de psicofármacos e seus lucros faraônicos,
a qual encontra profissionais para desempenhar o papel de caixeiro-viajante
para suas drogas. Suas suposições não
aparecem em exames clínicos de laboratório: exame de sangue, urina, eletros...,
mas em práticas para sustentar corporativismos e distorções interpretativas. Esse
ponto ajuda a entender os agendamentos para a fabricação da loucura.
Ao tratar sujeitos para
normalizar condutas, o que aparece, junto a figura do Psiquiatra, é a própria
anomalia diante do outro. Assim parece coerente interpretar pessoas em vias de
não-ser, como refém de um olhar que vê razão e desrazão em tudo que toca.
O imenso território subjetivo
permanece desconhecido por inteiro, isto é, com a hegemonia das
universalizações, classificações que se somam a cada dia, se acredita poder
conter a singularidade humana em tipos conformados a um só olhar.
Não é raro, em hospitais
psiquiátricos, os profissionais que lá atuam, terem comportamentos
semelhantes aos internos com os quais trabalham. Parece inexistir uma reflexão
sobre o fato de que ao criar uma promessa de cura ou controle para
suas invenções e distorções interpretativas, a Psiquiatria segue amparada por
lei, a produzir loucura diante do espelho. Questão de método!
Talvez a proposta de incluir nos
cursos de Medicina disciplinas como: Antropologia, Filosofia Clínica, Sociologia,
pudesse ajudar a emancipar práticas cuidadoras em lugares onde a fratura
exposta da sociedade se manifesta com força, ritmo, singularidade. Tenho
dúvidas se a arrogância de gestores e professores dessas escolas, teriam a
sensibilidade, humildade, sabedoria, para perceber o alcance limitado de suas
técnicas de conversão do fenômeno humano a um devir existencial incabível a um
padrão de normalidade.
Os diálogos inter e
transdisciplinares poderiam contribuir com a ressignificação dos limites ideológicos,
no entanto, antes de qualquer metodologia, é preciso encontrar profissionais
diferenciados em cada área de atuação, abertos a uma investigação compartilhada sobre o que se tinha até então e os novos paradigmas como a Filosofia Clínica. Lógica Proteus!
Aquele abraço,
*hs
Um sujeito extraordinário
O filme: A vida extraordinária
de Louis Wain, com direção de Will Sharpe, Reino Unido, 2021, com duração
de 1h51min, encontrada no Prime, apresenta um esboço da vida do artista inglês,
sua condição excepcional ao pintar gatos com agilidade e maestria.
Sua estética se reveste de paixão
dominante e expressividade, traduzindo o que acha de si mesmo, sua
representação de mundo, também oferece outras percepções sobre sua
singularidade.
As teorias de base Psi vão
encontrar síndromes, transtornos, doença mental no personagem, uma vez que
Louis não abre mão de ser quem é, numa sociedade (final do séc. 19 e início do
séc. 20) impregnada de ranços interpretativos, onde se acreditava que ser feliz
era ser aceito socialmente. Lembrando Aristóteles e Schopenhauer: todo mundo é
ninguém!
Hoje em dia quase nada mudou! Quando
vejo ex-alunos em busca de aceitação, tentando oferecer uma mescla de Filosofia
Clínica com Psicanálise ou Psicologia, percebo que ainda temos dificuldades com
o ser sujeito em cada um. Me parece uma covardia epistemológica a tentativa de
acochambrar metodologias excludentes, produzindo um Frankenstein em suas
práticas.
Quando isso acontece e algo não
dá certo, ainda se tem de ouvir coisas como: ‘essa Filosofia Clínica não
funciona, carece de fundamentação...’, dentre outras preciosidades. Na base
dessa problemática é possível encontrar estudos de formação frágeis, com escassez de teoria e prática, associados a um
candidato apressado para acenar sua ignorância aos quatro ventos.
Louis Wain pode ser entendido de
muitas maneiras, tantas quantas as pessoas em busca de acessar seu jeito de ser,
não-ser, em conflito com os princípios de verdade de seu tempo. A nomenclatura
de surrealista, embora não o traduza por inteiro, parece ser adequada a sua
condição pessoal. Sua expressividade é incabível nos apontamentos da crítica especializada.
Uma busca que se mantém, lado a
lado com sua manifestação artística, é a tentativa de decifrar a eletricidade
do mundo. Noutras palavras, identificar a motivação para a vida de cada um, uma
espécie de mapa subjetivo para encontrar a singularidade.
Outro aspecto significativo na
obra é o fato de Louis Wain viver com as irmãs, as quais não o entendem e
acreditam que ele tenha alguma forma de loucura ou extravagância. O que ameniza
essa situação é o fato do artista bancar economicamente a vida da família com
seu trabalho. Aliás esse é um indicativo legal da psiquiatria, ou seja, para
alguém ser considerado são, basta ter boas relações com a cadeia produtiva do
capitalismo.
Algo novo acontece quando suas
irmãs resolvem contratar uma governanta para a casa. A chegada de Emily
Richardson, uma pessoa que compreende seu jeito de ser, logo chama a atenção de
Louis. Um amor se instala entre eles, desafiando, mais uma vez, as convenções
da época, pois uma relação afetiva entre patrão e empregada era inconcebível.
Louis Wain é execrado pela
família, apontado na rua por transgredir costumes. No entanto, nada disso o abala,
assumindo sua relação e casando-se com Emily, mudando de casa para
viver sua vida nova.
Nesse período da biografia sua
atividade criativa parece atingir seu ponto máximo. Mais tarde algo acontece
para desagregar esses momentos, os quais retornam mais adiante, para firmar sua
expressividade e paixão dominante na arte de desenhar gatos. Nesse ponto, já no
final da vida, tem seu trabalho reconhecido, como uma espécie de prêmio de consolação.
A saga de distanciar pessoas de
sua melhor expressão continua. Os dias de hoje (séc. 21) ainda se sustentam na
hipocrisia social, recheada de boas intenções. A maioria se associa em rede
para significar o fenômeno humano como algo comum. A emancipação de uma habilidade
ou competência pessoal, pode custar caro ao sujeito, o qual nem sempre terá
condições de superar os obstáculos de seu meio.
Talvez filmes, o teatro, literatura, música, as belas artes - terapia nem pensar, para quem acredita
ter tudo o que precisa -, possam oferecer pistas a cada um, insinuando o extraordinário às margens da própria estrutura de pensamento.
Aquele abraço,
*hs
Um senso de absurdo excepcional
Uma fenomenologia da leitura
vincula-se a filosofia clínica em um convívio entre realidade e
ficção. As vivências entre uma e outra, descritas nas práticas de leitura e
eventos da hora-sessão, conjugam ingredientes de raridade ao borogodó para
papéis existenciais como: leitor e filósofo clínico.
Ao pensar com a ajuda de Alberto
Manguel, onde este discorre sobre sua relação com Jorge Luis
Borges em Buenos Aires, quando aquele ainda era um livreiro do qual este se
socorria para acessar as novidades literárias na capital Argentina.
Em seu texto Com Borges,
Manguel descreve vivências onde a interseção acontecia através dos livros.
O autor indica: “Para Borges, o
âmago da realidade estava nos livros: em ler livros, escrever livros, conversar
sobre livros.” (Com Borges, 2022. Pág. 29).
Assim os termos agendados no
intelecto servem como uma interlocução onde os envolvidos
estabeleçam uma conexão pelas palavras, seus múltiplos sentidos e derivações. Com
isso uma adição de pontos de vista, reflexões, sensações, análises, cuidam da
construção compartilhada para elaborar aquele algo mais que sempre aparece, de
um jeito ou de outro, numa ou outra expressão, como resultante da qualidade das
páginas dialogadas, seus recortes existenciais.
Se a realidade está nos livros,
os livros também estão na realidade. Influenciam comportamentos, novas ideias,
desconstruções pessoais, reinvenção por suas descrições. Mesmo quando em
rascunhos de um sonhador, seus apontamentos sobre o que vê, sente, admira,
imagina, acrescentam sabor e cor a uma estética singular.
Manguel compartilha: “Borges era
um sonhador entusiasmado e gostava de contar seus sonhos. (...) ‘no mundo do
tudo é possível’, ele sentia que podia se libertar dos seus pensamentos e
medos, que, completamente livres, criariam suas próprias histórias.” (Com
Borges, 2022. Pág. 48).
Uma abordagem aprendiz como a
filosofia clínica, vincula-se aos desdobramentos da vida de seu partilhante,
experienciando em perspectiva, muito do que se passa em sua malha intelectiva,
seja na forma de projetos de vida irrealizados, relação com os outros e consigo
mesmo, devaneios, buscas. Nesse sentido não há que se falar numa divisão clara
e definitiva entre realidade e irrealidade, pois nos eventos da hora-sessão os
conteúdos se desdobram para integrar outra coisa.
A redução fenomenológica para acolher
a pessoa em seus ensaios de expressividade, é uma característica essencial para
interagir com sua singularidade, sem os ranços da tipologia e classificação
psiquiátrica, hoje em dia disfarçadas de síndromes, espectros, transtornos. Ainda
assim produzindo vítimas para a indústria de psicofármacos, transformando pessoas
em objeto de cristalização diagnóstica e prognóstica.
Em outras palavras, quem ainda
hoje se atreve a sonhar? Ter devaneios, expressar sentimentos a luz do dia?
Investir em algo extraordinário ao olhar de multidão dos princípios de verdade?
A guilhotina do alienista e coadjuvantes se encontra em cada esquina, muitas
vezes na própria casa, acenando com a camisa de força das suas verdades.
A obra dá pistas: “Em ‘Pierre
Menard, autor do Quixote’, ele argumentou que o livro muda de acordo com os
atributos do leitor.” (Com Borges, 2022. Pág. 58).
Algo de excepcional acontece
quando duas ou mais pessoas se envolvem na leitura e partilha sobre uma obra
literária, bem assim no espaço da clínica, onde os eventos possuem o ineditismo das pessoas envolvidas, tendo como bússola a qualidade da interseção.
Existe alguma lucidez em perceber
nas brumas de um discurso existencial, uma representação de mundo em vias de
ensaio, a qual costuma agendar, do lado a lado da relação, seja de autor para
leitor ou partilhante para filósofo, insinuações para construção
compartilhada. Um desses momentos de onde não se sai o mesmo, tendo como fonte
de inspiração a matéria-prima do que permanece enquanto muda.
Aquele abraço,
*hs
Autogenia e expressividade
Em Filosofia Clínica, distante do
senso comum intelectual de nossa época, onde ainda se mantém igrejas
terapêuticas festejadas pela tradição, o novo paradigma encontra sua interseção
com as pessoas da rua, desprezadas, invisíveis, cuja singularidade se vê
reconhecida em processos de autogenia transformadora.
Nos dias de hoje (2025), ainda
tem quem não entenda a nova mensagem cuidadora, muitas vezes tentando estabelecer
similaridades com aquilo que já existe, desconstruindo as possibilidades de
compreender a natureza e o alcance da nova mensagem. Questão de método!
Deleuze aponta: “ (...) é através das
palavras, entre as palavras, que se vê e se ouve”. (Crítica e clínica,
2004. Pág. 9).
Talvez a dificuldade em
visualizar a novidade em seus dias de novidade, resida no fato de se interpretar sempre a mesma coisa diante de si, ainda quando esta coisa
é outra coisa. Assim trata-se de enquadrar um discurso existencial precursor em
definições pré-estabelecidas.
O conceito de autogenia, em Filosofia Clínica, tem a ver com o processo da terapia onde o partilhante, em tempo próprio, elabora sua expressividade em uma dialética singular, onde dentro e fora se integram em múltiplos ensaios de ser, não-ser, vir-a-ser, quase sempre em desacordo com a lógica de suas anterioridades.
Um devir surpreendente costuma
acompanhar as buscas da hora-sessão. Desde o acolhimento preliminar, exames
categoriais, estrutura de pensamento e demais procedimentos clínicos, o
filósofo se coloca numa disposição aventureira em comum acordo com as
possibilidades da interseção.
Com Gilles Deleuze: “(...)
explorar os meios, por trajetos dinâmicos, e traçar o mapa correspondente. Os
mapas dos trajetos são essenciais à atividade psíquica.” (Crítica e clínica,
2004. Pág. 73).
A busca por se traçar um
mapa correspondente a cada malha intelectiva, tendo como referência a
subjetividade partilhante, descreve uma abertura as lógicas do improvável, onde
se pode localizar a fenomenologia das construções compartilhadas.
São tantas as possibilidades
interditas nas ações e interações da autogenia, que é possível até tentar
classificar seus deslocamentos, contrariando a fonte de inspiração do novo
paradigma: a singularidade. Nesse sentido, se destaca a equivocidade da oferta para cristalizar
o ser singular, condicionando-o a um gesso interpretativo, como proposta de
controle, manipulação, adequação.
Assim a autogenia contida num cotidiano de atendimentos, tem a ver com os ensaios realizados pela via
da interseção terapêutica, onde eventos de múltiplas faces buscam caminhos de
integridade ao sujeito partilhante.
Deleuze ensina: “É como se alguns
caminhos virtuais se colassem ao caminho real, que assim recebe deles novos
traçados, novas trajetórias. Um mapa de virtualidades, traçado pela arte, se
superpõe ao mapa real cujos percursos ela transforma.” (Crítica e clínica,
2004. Pág. 79).
As vivências de consultório - em
Filosofia Clínica - tem o privilégio de conviver com expressividades em estado
nascente, por onde a pessoa desenvolve características a partir de seu próprio
território subjetivo, ou seja, ao conviver com outras possibilidades existenciais,
pode ressignificar-se de acordo consigo mesma sendo outra.
Em clínica não há que se falar em
situações irreais nas dinâmicas de consultório, o que acontece são interações (roteiros,
deslocamentos, reciprocidades, esteticidades, e algo mais) para investigar o
ângulo de possíveis da pessoa consigo mesma, com a vida lá fora.
Em Deleuze: “(...) não é a
sintaxe formal ou superficial que regula os equilíbrios da língua, porém uma
sintaxe em devir, uma criação de sintaxe que faz nascer a língua estrangeira na
língua, uma gramática do desequilíbrio.” (Crítica e Clínica, 2004. Pág. 127).
Então fica definido que não
haverá definição, ok? Sei das dificuldades para se navegar em alto mar com as
próprias forças, no entanto, quando se aprende tal coisa, mar aberto pode
significar novos horizontes, superando as âncoras do velho cais. Trata-se de recolocar as
coisas em outra perspectiva, desconstruindo a mordaça institucional, a
qual chega atrasada para legalizar novos territórios existenciais.
Com essa estética de acolher o
imprevisível em cada um, se apresentam novos tempos, identificados
pela multidão de pessoas distante dos holofotes, com uma percepção intuitiva
diferenciada, para enxergar na Filosofia Clínica, algo novo em um oásis de
acolhimento até então desconhecidos.
Aquele abraço,
hs
Extraordinário
O filme Extraordinário, de
2017, com roteiro de Jack Thorne, Steve Conrad e Stephen Chbosky, direção de
Stephen Chbosky, oferece uma leitura sobre as dialéticas do convívio, ou seja,
a inserção de um menino singular em uma escola comum, os agendamentos, as
interseções, desdobramentos.
Auggie Pullman tem um rosto
diferente, em razão de problemas de nascimento. A medicina do corpo aponta a
síndrome de Treacher Collins. Após ter aulas em casa com sua mãe, com 10 anos
de idade o menino ingressa no quinto ano escolar. Nesse momento a obra retrata as
contradições de se buscar apoio em uma escola onde se exercitam o preconceito, a
discriminação, desvalorizando aquilo que não se vê à primeira vista.
A dedicação e o carinho,
envolvimento dos pais, a irmã, o diretor da escola, parecem não bastar. Para se
proteger, Auggie se utiliza de um capacete de astronauta para se proteger,
ensaia regressar ao refúgio de sua casa com as aulas da mãe, fica revoltado com
sua aparência.
Uma leitura a partir do filme -
semelhante a um bom livro - pode adquirir múltiplas facetas, de acordo com as
possibilidades do espectador/leitor em sintonia com a obra. Assim destaca-se a proposta
de um acolhimento compreensivo da singularidade, para superar o espírito de
multidão.
Trata-se de um componente das tipologias, com suas sucessivas versões para dar conta de uma singularidade que se multiplica. As classificações distanciam as pessoas delas mesmas e dos outros. Sua intervenção, com a maquiagem científica, propõe submeter atitudes insubmissas a essa lógica.
Nesse sentido, multiplicam-se
diagnósticos e prognósticos ao fenômeno humano - cada vez mais surpreendente -
ao invés de um estudo aprofundado das especificidades de cada um. Esses enquadramentos, enquanto prosseguirem inventando síndromes, transtornos, doenças
mentais..., seguirão desconhecendo a pessoa além de um visar de superfície.
Enquanto instituições de ensino e
o espírito de multidão continuarem associados as definições da Psiquiatria, o festival
de psicopatologias vai continuar. Possivelmente alguém esteja ganhando
algo com isso. Michel Foucault em seu texto: O nascimento da clínica, elabora
uma reflexão crítica sobre a ideologia (como ocultamento) das práticas da
medicina. O pensador destaca as tipologias de controle, submissão, como
ingredientes para abastecer a indústria da doença.
Em nossos dias, reivindica-se estudos
compartilhados para desenvolver a pesquisa inter e transdisciplinar, para quem
sabe, superar a percepção (soberana) do ato médico, atribuindo a química, a biologia,
o fator determinante para as contradições humanas e seus desdobramentos em somatização.
Todas as pessoas nascem extraordinárias,
até os rituais de civilização. A proposta de conter e adaptar
expressividades, via de regra, oferece seu resultado ótimo: a pessoa acrítica,
incapaz de refletir, analisar, os fundamentos da sociedade onde se encontra. A
partir daí, o sujeito costuma ser tratado como algo a ser domesticado.
Destacam-se a cumplicidade das famílias, igrejas, escolas, clubes, compondo uma
trama recheada de boas intenções.
O filme tem um final esperado,
reverenciando a diversidade, o acolhimento da singularidade de Auggie. A ficção
parece acenar algo ainda sem tradução, distante do dia a dia de quem vê a vida
do outro lado da tela, onde se multiplicam estigmas à guisa de conhecimento.
Cada vez mais a medicina do corpo
se fasta de seu papel existencial cuidador, para se aventurar na fenomenologia
da mente, a qual se esboça em linguagem própria, reivindicando método e
interseção para acessar suas múltiplas versões. Nesse sentido a cultura segue
refém dos agendamentos da Psiquiatria e seus coadjuvantes. Pretextando fazer
ciência, na verdade renova a máxima de Paul Joseph Goebbels - chefe da
propaganda nazista - onde uma mentira repetida mil vezes, se torna verdade.
Aquele abraço,
hs