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domingo, 8 de junho de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 52*

                                     Um senso de absurdo excepcional

Uma fenomenologia da leitura vincula-se a filosofia clínica em um convívio entre realidade e ficção. As vivências entre uma e outra, descritas nas práticas de leitura e eventos da hora-sessão, conjugam ingredientes de raridade ao borogodó para papéis existenciais como: leitor e filósofo clínico.

Ao pensar com a ajuda de Alberto Manguel, onde este discorre sobre sua relação com Jorge Luis Borges em Buenos Aires, quando aquele ainda era um livreiro do qual este se socorria para acessar as novidades literárias na capital Argentina.

Em seu texto Com Borges, Manguel descreve vivências onde a interseção acontecia através dos livros.

O autor indica: “Para Borges, o âmago da realidade estava nos livros: em ler livros, escrever livros, conversar sobre livros.” (Com Borges, 2022. Pág. 29).

Assim os termos agendados no intelecto servem como uma interlocução onde os envolvidos estabeleçam uma conexão pelas palavras, seus múltiplos sentidos e derivações. Com isso uma adição de pontos de vista, reflexões, sensações, análises, cuidam da construção compartilhada para elaborar aquele algo mais que sempre aparece, de um jeito ou de outro, numa ou outra expressão, como resultante da qualidade das páginas dialogadas, seus recortes existenciais.  

Se a realidade está nos livros, os livros também estão na realidade. Influenciam comportamentos, novas ideias, desconstruções pessoais, reinvenção por suas descrições. Mesmo quando em rascunhos de um sonhador, seus apontamentos sobre o que vê, sente, admira, imagina, acrescentam sabor e cor a uma estética singular.

Manguel compartilha: “Borges era um sonhador entusiasmado e gostava de contar seus sonhos. (...) ‘no mundo do tudo é possível’, ele sentia que podia se libertar dos seus pensamentos e medos, que, completamente livres, criariam suas próprias histórias.” (Com Borges, 2022. Pág. 48).

Uma abordagem aprendiz como a filosofia clínica, vincula-se aos desdobramentos da vida de seu partilhante, experienciando em perspectiva, muito do que se passa em sua malha intelectiva, seja na forma de projetos de vida irrealizados, relação com os outros e consigo mesmo, devaneios, buscas. Nesse sentido não há que se falar numa divisão clara e definitiva entre realidade e irrealidade, pois nos eventos da hora-sessão os conteúdos se desdobram para integrar outra coisa.  

A redução fenomenológica para acolher a pessoa em seus ensaios de expressividade, é uma característica essencial para interagir com sua singularidade, sem os ranços da tipologia e classificação psiquiátrica, hoje em dia disfarçadas de síndromes, espectros, transtornos. Ainda assim produzindo vítimas para a indústria de psicofármacos, transformando pessoas em objeto de cristalização diagnóstica e prognóstica.

Em outras palavras, quem ainda hoje se atreve a sonhar? Ter devaneios, expressar sentimentos a luz do dia? Investir em algo extraordinário ao olhar de multidão dos princípios de verdade? A guilhotina do alienista e coadjuvantes se encontra em cada esquina, muitas vezes na própria casa, acenando com a camisa de força das suas verdades.  

A obra dá pistas: “Em ‘Pierre Menard, autor do Quixote’, ele argumentou que o livro muda de acordo com os atributos do leitor.” (Com Borges, 2022. Pág. 58).

Algo de excepcional acontece quando duas ou mais pessoas se envolvem na leitura e partilha sobre uma obra literária, bem assim no espaço da clínica, onde os eventos possuem o ineditismo das pessoas envolvidas, tendo como bússola a qualidade da interseção.

Existe alguma lucidez em perceber nas brumas de um discurso existencial, uma representação de mundo em vias de ensaio, a qual costuma agendar, do lado a lado da relação, seja de autor para leitor ou partilhante para filósofo, insinuações para construção compartilhada. Um desses momentos de onde não se sai o mesmo, tendo como fonte de inspiração a matéria-prima do que permanece enquanto muda.

Aquele abraço,

*hs

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