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sábado, 23 de agosto de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 54*


                                               A lógica  Proteus

A mitologia Grega descreve Proteu como um deus marinho com habilidade para assumir múltiplas formas. Seu rol de competências integra versatilidade, adaptabilidade, flexibilidade.

Ao ter uma plasticidade apta a se moldar e conviver com circunstâncias difusas, essa espécie se assemelha ao papel existencial do filósofo clínico, o qual, sem perder de vista sua expressividade é capaz de acolher, visitar, interagir com as lógicas da diferença.

Essa característica pode ser ininteligível, sem um borogodó para acessar uma condição singular. Nossa cultura impregnada das metodologias da tradição, referendadas pela lógica: você sabe com quem está falando? E os acréscimos infindáveis de novas patologias, em busca da sustentação corporativa, aprisionam o fenômeno humano em uma só versão. 

A definição acadêmica acredita ter uma base sólida para suas convicções sobre as pessoas. Assim propõe narrativas para sustentar ideologias sem comprovação objetiva. A estrutura de pensamento, ao ser singular, multifacetada, reivindica uma abordagem em sintonia com seu devir existencial.

A lógica Proteu possui uma relação contraditória com o gesso diagnóstico. Nesse sentido, é fácil entender seu desajuste com agendamentos de para sempre, ou seja, a palavra-lei do alienista e sua sentença de prisão perpétua. A cristalização humana sob a ótica psiquiátrica, passa a ter nomes: síndromes, espectros, autismos, esquizofrenias, ao gosto de uma ideologia disfarçada de medicina, sua proposta? Engessar expressividades num molde socialmente aceito.

É necessário esclarecer que doenças mentais não existem, são fabricadas por uma estrutura articulada, que inclui universidades, escolas de pós-graduação, hospícios, clínicas de saúde mental. Inventadas para submeter pessoas que apreciam pensar, refletir, analisar, questionar, contraditórias com a hegemonia da burrice a qualquer preço.

A oferta generosa de diagnósticos, prognósticos, é submissa a lógica da indústria de psicofármacos e seus lucros faraônicos, a qual encontra profissionais para desempenhar o papel de caixeiro-viajante para suas drogas.  Suas suposições não aparecem em exames clínicos de laboratório: exame de sangue, urina, eletros..., mas em práticas para sustentar corporativismos e distorções interpretativas. Esse ponto ajuda a entender os agendamentos para a fabricação da loucura.

Ao tratar sujeitos para normalizar condutas, o que aparece, junto a figura do Psiquiatra, é a própria anomalia diante do outro. Assim parece coerente interpretar pessoas em vias de não-ser, como refém de um olhar que vê razão e desrazão em tudo que toca.   

O imenso território subjetivo permanece desconhecido por inteiro, isto é, com a hegemonia das universalizações, classificações que se somam a cada dia, se acredita poder conter a singularidade humana em tipos conformados a um só olhar.

Não é raro, em hospitais psiquiátricos, os profissionais que lá atuam, terem comportamentos semelhantes aos internos com os quais trabalham. Parece inexistir uma reflexão sobre o fato de que ao criar uma promessa de cura ou controle para suas invenções e distorções interpretativas, a Psiquiatria segue amparada por lei, a produzir loucura diante do espelho. Questão de método!

Talvez a proposta de incluir nos cursos de Medicina disciplinas como: Antropologia, Filosofia Clínica, Sociologia, pudesse ajudar a emancipar práticas cuidadoras em lugares onde a fratura exposta da sociedade se manifesta com força, ritmo, singularidade. Tenho dúvidas se a arrogância de gestores e professores dessas escolas, teriam a sensibilidade, humildade, sabedoria, para perceber o alcance limitado de suas técnicas de conversão do fenômeno humano a um devir existencial incabível a um padrão de normalidade. 

Os diálogos inter e transdisciplinares poderiam contribuir com a ressignificação dos limites ideológicos, no entanto, antes de qualquer metodologia, é preciso encontrar profissionais diferenciados em cada área de atuação, abertos a uma investigação compartilhada sobre o que  se tinha até então e os novos paradigmas como a Filosofia Clínica.  Lógica Proteus!

Aquele abraço,

*hs

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