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Você está no espaço Descrituras. Aqui encontrará alguns textos publicados, inéditos e outros esboços de minha autoria. Boa leitura.

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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 57*

Filosofia clínica e discurso existencial | Sílex

Boas leituras e releituras!

Aquele abraço,

*hs

Filosofia Clínica Agridoce 56*

*Resenha de Ana Bia para o site: https://proximolivro.net/

A vida é uma dança imprevisível entre o que conhecemos e o que ousamos explorar. “Pérolas Imperfeitas: Apontamentos Sobre as Lógicas do Improvável”, de Hélio Strassburger, não se contenta em ser apenas uma leitura; é um convite a questionar as realidades que nos cercam. Com uma prosa ligeira e provocante, Strassburger oferece um vislumbre das complexidades do cotidiano, os fragmentos de beleza que só emergem na imperfeição.

A obra se faz acompanhar de reflexões que transitam entre o inesperado e o banal, revelando que muitas vezes são as falhas que nos fazem humanos. Em suas páginas, você encontrará a essência das pepitas de sabedoria que surgem na adversidade e nos desafios diários. Ao longo de 142 páginas de puro deleite, Strassburger despiu-se de qualquer formalismo excessivo e, em vez disso, abraçou a autenticidade. A narrativa se torna um espelho, refletindo nossas próprias lógicas do improvável, fazendo você refletir sobre as suas próprias experiências de vida e as lutas pessoais que moldam seu ser.

Os leitores se dividem entre os que se sentem revigorados pelo estilo ousado e direto do autor, e aqueles que, talvez, esperavam algo mais linear. O que é claro é que a prosa de Strassburger provoca reações intensas: muitos se sentem inspirados a embarcar em uma jornada de autodescoberta, enquanto outros criticam a falta de uma estrutura mais convencional. Mas quem precisa de convenções quando a vida, com todas suas reviravoltas, nos ensina a improvisar?

Neste cenário onde a lógica as vezes falha, a obra provoca risos, lágrimas e um profundo pensar crítico. O autor não está só debatendo o improvável; ele deixa a porta escancarada para que você possa entrar e vivenciar a imperfeição como um valor vital. Aqui reside a verdadeira pérola: a aceitação do inusitado como parte da história humana.

Com uma sensibilidade quase poética, Hélio Strassburger se coloca como um maestro das palavras: cada frase e cada aponto são notas que compõem uma melodia de introspecção, trazendo à tona a beleza nas falhas e nas incertezas do ser. Você já parou para pensar nas suas próprias pérolas imperfeitas? Aqueles momentos que, à primeira vista, parecem ser um desastre, mas que, com o tempo, revelam-se extraordinários?

Na cultura contemporânea, repleta de superficialidades, o autor consegue nos cutucar para sairmos da zona de conforto. Ele nos faz lembrar que, por trás de cada imperfeição, podemos encontrar histórias ricas e cheias de vida. Não é apenas uma leitura; é uma experiência transformadora que modela sua visão de mundo e de si mesmo.

Deixe que Pérolas Imperfeitas invada sua mente e seu coração. Esteja pronto para questionar e, quem sabe, reinventar suas próprias lógicas do improvável, pois, em última análise, a beleza reside justamente nas imperfeições. Você está disposto a embarcar nessa viagem de autodescoberta e reflexão? O que você vai fazer com essas novas pérolas adquiridas? A escolha é sua! 🌊✨️

📖 Pérolas Imperfeitas: Apontamentos Sobre as Lógicas do Improvável. Ed. Sulina/Porto Alegre/RS. 2012.

by Hélio Strassburger

🧾 142 páginas

E você? O que acha deste livro? Comente!

#perolas #imperfeitas #apontamentos #logicas #improvavel #helio #strassburger #HelioStrassburger

*Ana Bia

https://proximolivro.net/

domingo, 21 de setembro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 55*

  

                                                         Fora de foco 

O filme Desconstruindo Harry é de 1997. Tem a duração de 1h35min. Escrito, dirigido, representado por Woody Allen e convidados. A obra se aproxima da nova abordagem terapêutica da Filosofia Clínica, especialmente com roteiros de autogenia, espacialidade intelectiva, e outros. No entanto se distancia, quando o fenômeno humano singular é tratado como algo universal, coisificado, refém de tipologias, estereótipos, protocolos.    

Um aspecto vinculado aos deslocamentos intelectivos, se refere a pluralidade de expressões, derivações, para integrar o roteiro, tendo por base uma só matriz descritiva. Em outras palavras, trata-se de textos dentro de um texto, num convite para o leitor/espectador acompanhar a interseção do centro com suas margens. Vivenciar as sensações que se oferecem na história.

No mesmo sentido, um pouco antes de ir ao cinema, autor e obra se confundem em sua redação. Os personagens se mesclam na criatividade dos roteiros. O texto se assemelha a uma autobiografia para as telas.  

O filme convida a superar as cenas iniciais, onde facilmente se poderia cair numa armadilha interpretativa, acreditando saber, de antemão, do que se trata, para onde a obra se dirige. A trama surpreende o tempo todo, onde realidade e ficção se reapresentam para dizer e desdizer quase tudo.   

A escritura do autor se desdobra para encontrar o cinema. As múltiplas estórias em um mesmo roteiro elaboram - com o espectador - um contrato de lógica absurda, próximo do drama kafkiano. Múltiplos papéis existenciais redigem seus originais, onde as franjas e periferias integram uma coisa para ser outra.  

O discurso da personagem ao invadir a casa de Harry Block (Allen): “Você acabou com a minha vida e agora vou me matar aqui, na sua frente, no seu carpete”, o escritor: “você é uma desequilibrada”, ela rebate: “Sim, por isso você me escolheu! (...), quem mais me convenceria a fazer sexo oral no enterro do meu pai?”, a cena prossegue com outros diálogos desencontrados, ameaças, acusações, relação compartilhada pela desestrutura.    

Pouco depois, em nova cena, com a trilha sonora de “garota de Ipanema”, o filme prossegue, agora em nova perspectiva, convidando o espectador a experienciar uma mudança de rota, onde o enredo principal dialoga com suas derivações.        

A obra é contextualizada num ambiente vintage, onde o ator/escritor/roteirista/diretor trabalha em seu apartamento, a meia luz, dedilhando sua Remington, lugar para expressão de suas ideias e criatividade. Um refúgio para sua singularidade.   

Em outro momento Harry Block aparece deitado num divã, com o analista a sua cabeceira. Fato recorrente numa obra de inspiração psicanalítica, apesar das críticas que o autor lhe concede. Ao longo da história surgem nuances da escritura de Woody Allen, com sua digital impressa nas cenas e personagens de sua obra. Muitas vezes se tem a sensação de ver e ouvir sua voz por todo lado.   

A sequência traz o escritor novamente em terapia, dizendo de sua preferência por prostitutas: “não consigo me acertar no amor (...) eu ainda adoro prostitutas, sabe?  você faz o que tem de fazer, paga e elas vão embora. Você não tem que falar de Proust, filmes, e mais nada”.

Quando a terapeuta faz uma intervenção: “O conto que você estava trabalhando” ... Harry relembra: “a câmera está fora de foco. O ator está fora de foco. O Mell está fora de foco”. (...) Quando chega em casa a mulher diz: “você está estranho”, ele: “sim, estou fora de foco”, ela: “você está borrado”, ele: “estou passando por uma coisa que não sei o que é. (...) Não consigo escrever, não vem”.

Na cena seguinte o personagem se apaixona por sua terapeuta. O narrador onipresente: “Para Epstein, finalmente encontrava a mulher ideal, alguém que o compreendia”. Mais uma vez oferecendo uma leitura não-linear, Harry encontra na rua seu outro eu, aquele do momento inicial do filme, onde conversam. “Quem é você?” ele pergunta, o outro responde: “sou quem você criou e agora não me reconhece? (...) eu sou você, um pouco disfarçado.”

Em outro momento, quando sua nova terapeuta, em sessão com o escritor, deixa de lado seu papel existencial para ir à sala ao lado, onde encontra o personagem do divã sendo outro - num raro instante onde Harry Block e Woody Allen são o mesmo -, passam a discutir sua relação, tendo como motivação um relato da terapia. Uma estética para traduzir realidade e ficção como algo ainda sem nome. Em Filosofia Clínica a fenomenologia da hora-sessão se aproxima desse outro lugar onde as pessoas se encontram.   

A seguir, em um novo desdobramento do filme, Harry Block vai ao submundo e encontra o anjo decaído. Um breve embate entre eles: o escritor: “eu sou mais poderoso que você, pois sou um grande pecador e você é um anjo caído (...) Uma vez quase atropelei um crítico literário, desviei no último instante”. O anjo caído: “quer que ligue o ar-condicionado?” Harry: “tem ar-condicionado aqui?” o anjo: “Sim, destrói a camada de ozônio”.

Questionado das razões por estar no inferno e não no céu, o escritor responde pelo anjo: “é melhor mandar aqui do que servir no céu, acho que foi Milton que falou isso”.

Em outra cena, Harry vai receber uma homenagem na universidade onde estudou. Para isso convida uma prostituta para lhe acompanhar, chegando lá é preso, acusado de sequestrar seu filho. Os amigos pagam sua fiança, ele é solto.

Após, chega à homenagem da universidade e pergunta aos colegas: “posso levar mais alguém?”.  Quando respondem: “é claro, o sonho é seu! Todos esperam para homenageá-lo, afinal, você os criou.” Em suas reflexões Harry pensa: “Como pode um cara que não funciona na vida real, funcionar na arte?”. Uma personagem tenta traduzir: “Seus livros parecem um pouco tristes na superfície, por isso eu gosto de desconstruí-los, pois no fundo são felizes.”

Nesse sentido o autor compartilha uma história recheada de estórias, para descrever-se em seus escritos. Uma ficção por onde a realidade transita, revelando aspectos desconhecidos. Ao retornar para sua casa e reencontrar sua Remington, tem a ideia para um romance. Segundo ele: “A nova obra irá oferecer uma descrição de como nossas vidas consistem na forma que escolhemos distorcê-las”. Sua escrita - mais uma vez - salvou sua vida.

Aquele abraço,

*hs   

sábado, 23 de agosto de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 54*


                                               A lógica  Proteus

A mitologia Grega descreve Proteu como um deus marinho com habilidade para assumir múltiplas formas. Seu rol de competências integra versatilidade, adaptabilidade, flexibilidade.

Ao ter uma plasticidade apta a se moldar e conviver com circunstâncias difusas, essa espécie se assemelha ao papel existencial do filósofo clínico, o qual, sem perder de vista sua expressividade é capaz de acolher, visitar, interagir com as lógicas da diferença.

Essa característica pode ser ininteligível, sem um borogodó para acessar uma condição singular. Nossa cultura impregnada das metodologias da tradição, referendadas pela lógica: você sabe com quem está falando? E os acréscimos infindáveis de novas patologias, em busca da sustentação corporativa, aprisionam o fenômeno humano em uma só versão. 

A definição acadêmica acredita ter uma base sólida para suas convicções sobre as pessoas. Assim propõe narrativas para sustentar ideologias sem comprovação objetiva. A estrutura de pensamento, ao ser singular, multifacetada, reivindica uma abordagem em sintonia com seu devir existencial.

A lógica Proteu possui uma relação contraditória com o gesso diagnóstico. Nesse sentido, é fácil entender seu desajuste com agendamentos de para sempre, ou seja, a palavra-lei do alienista e sua sentença de prisão perpétua. A cristalização humana sob a ótica psiquiátrica, passa a ter nomes: síndromes, espectros, autismos, esquizofrenias, ao gosto de uma ideologia disfarçada de medicina, sua proposta? Engessar expressividades num molde socialmente aceito.

É necessário esclarecer que doenças mentais não existem, são fabricadas por uma estrutura articulada, que inclui universidades, escolas de pós-graduação, hospícios, clínicas de saúde mental. Inventadas para submeter pessoas que apreciam pensar, refletir, analisar, questionar, contraditórias com a hegemonia da burrice a qualquer preço.

A oferta generosa de diagnósticos, prognósticos, é submissa a lógica da indústria de psicofármacos e seus lucros faraônicos, a qual encontra profissionais para desempenhar o papel de caixeiro-viajante para suas drogas.  Suas suposições não aparecem em exames clínicos de laboratório: exame de sangue, urina, eletros..., mas em práticas para sustentar corporativismos e distorções interpretativas. Esse ponto ajuda a entender os agendamentos para a fabricação da loucura.

Ao tratar sujeitos para normalizar condutas, o que aparece, junto a figura do Psiquiatra, é a própria anomalia diante do outro. Assim parece coerente interpretar pessoas em vias de não-ser, como refém de um olhar que vê razão e desrazão em tudo que toca.   

O imenso território subjetivo permanece desconhecido por inteiro, isto é, com a hegemonia das universalizações, classificações que se somam a cada dia, se acredita poder conter a singularidade humana em tipos conformados a um só olhar.

Não é raro, em hospitais psiquiátricos, os profissionais que lá atuam, terem comportamentos semelhantes aos internos com os quais trabalham. Parece inexistir uma reflexão sobre o fato de que ao criar uma promessa de cura ou controle para suas invenções e distorções interpretativas, a Psiquiatria segue amparada por lei, a produzir loucura diante do espelho. Questão de método!

Talvez a proposta de incluir nos cursos de Medicina disciplinas como: Antropologia, Filosofia Clínica, Sociologia, pudesse ajudar a emancipar práticas cuidadoras em lugares onde a fratura exposta da sociedade se manifesta com força, ritmo, singularidade. Tenho dúvidas se a arrogância de gestores e professores dessas escolas, teriam a sensibilidade, humildade, sabedoria, para perceber o alcance limitado de suas técnicas de conversão do fenômeno humano a um devir existencial incabível a um padrão de normalidade. 

Os diálogos inter e transdisciplinares poderiam contribuir com a ressignificação dos limites ideológicos, no entanto, antes de qualquer metodologia, é preciso encontrar profissionais diferenciados em cada área de atuação, abertos a uma investigação compartilhada sobre o que  se tinha até então e os novos paradigmas como a Filosofia Clínica.  Lógica Proteus!

Aquele abraço,

*hs

sábado, 5 de julho de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 53*

 

                                    Um sujeito extraordinário 

O filme: A vida extraordinária de Louis Wain, com direção de Will Sharpe, Reino Unido, 2021, com duração de 1h51min, encontrada no Prime, apresenta um esboço da vida do artista inglês, sua condição excepcional ao pintar gatos com agilidade e maestria.  

Sua estética se reveste de paixão dominante e expressividade, traduzindo o que acha de si mesmo, sua representação de mundo, também oferece outras percepções sobre sua singularidade.

As teorias de base Psi vão encontrar síndromes, transtornos, doença mental no personagem, uma vez que Louis não abre mão de ser quem é, numa sociedade (final do séc. 19 e início do séc. 20) impregnada de ranços interpretativos, onde se acreditava que ser feliz era ser aceito socialmente. Lembrando Aristóteles e Schopenhauer: todo mundo é ninguém!  

Hoje em dia quase nada mudou! Quando vejo ex-alunos em busca de aceitação, tentando oferecer uma mescla de Filosofia Clínica com Psicanálise ou Psicologia, percebo que ainda temos dificuldades com o ser sujeito em cada um. Me parece uma covardia epistemológica a tentativa de acochambrar metodologias excludentes, produzindo um Frankenstein em suas práticas.

Quando isso acontece e algo não dá certo, ainda se tem de ouvir coisas como: ‘essa Filosofia Clínica não funciona, carece de fundamentação...’, dentre outras preciosidades. Na base dessa problemática é possível encontrar estudos de formação frágeis, com escassez de teoria e prática, associados a um candidato apressado para acenar sua ignorância aos quatro ventos.  

Louis Wain pode ser entendido de muitas maneiras, tantas quantas as pessoas em busca de acessar seu jeito de ser, não-ser, em conflito com os princípios de verdade de seu tempo. A nomenclatura de surrealista, embora não o traduza por inteiro, parece ser adequada a sua condição pessoal. Sua expressividade é incabível nos apontamentos da crítica especializada.

Uma busca que se mantém, lado a lado com sua manifestação artística, é a tentativa de decifrar a eletricidade do mundo. Noutras palavras, identificar a motivação para a vida de cada um, uma espécie de mapa subjetivo para encontrar a singularidade.

Outro aspecto significativo na obra é o fato de Louis Wain viver com as irmãs, as quais não o entendem e acreditam que ele tenha alguma forma de loucura ou extravagância. O que ameniza essa situação é o fato do artista bancar economicamente a vida da família com seu trabalho. Aliás esse é um indicativo legal da psiquiatria, ou seja, para alguém ser considerado são, basta ter boas relações com a cadeia produtiva do capitalismo. 

Algo novo acontece quando suas irmãs resolvem contratar uma governanta para a casa. A chegada de Emily Richardson, uma pessoa que compreende seu jeito de ser, logo chama a atenção de Louis. Um amor se instala entre eles, desafiando, mais uma vez, as convenções da época, pois uma relação afetiva entre patrão e empregada era inconcebível.

Louis Wain é execrado pela família, apontado na rua por transgredir costumes. No entanto, nada disso o abala, assumindo sua relação e casando-se com Emily, mudando de casa para viver sua vida nova.  

Nesse período da biografia sua atividade criativa parece atingir seu ponto máximo. Mais tarde algo acontece para desagregar esses momentos, os quais retornam mais adiante, para firmar sua expressividade e paixão dominante na arte de desenhar gatos. Nesse ponto, já no final da vida, tem seu trabalho reconhecido, como uma espécie de prêmio de consolação.

A saga de distanciar pessoas de sua melhor expressão continua. Os dias de hoje (séc. 21) ainda se sustentam na hipocrisia social, recheada de boas intenções. A maioria se associa em rede para significar o fenômeno humano como algo comum. A emancipação de uma habilidade ou competência pessoal, pode custar caro ao sujeito, o qual nem sempre terá condições de superar os obstáculos de seu meio.

Talvez filmes, o teatro, literatura, música, as belas artes - terapia nem pensar, para quem acredita ter tudo o que precisa -, possam oferecer pistas a cada um, insinuando o extraordinário às margens da própria estrutura de pensamento.   

Aquele abraço,

*hs     

domingo, 8 de junho de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 52*

                                     Um senso de absurdo excepcional

Uma fenomenologia da leitura vincula-se a filosofia clínica em um convívio entre realidade e ficção. As vivências entre uma e outra, descritas nas práticas de leitura e eventos da hora-sessão, conjugam ingredientes de raridade ao borogodó para papéis existenciais como: leitor e filósofo clínico.

Ao pensar com a ajuda de Alberto Manguel, onde este discorre sobre sua relação com Jorge Luis Borges em Buenos Aires, quando aquele ainda era um livreiro do qual este se socorria para acessar as novidades literárias na capital Argentina.

Em seu texto Com Borges, Manguel descreve vivências onde a interseção acontecia através dos livros.

O autor indica: “Para Borges, o âmago da realidade estava nos livros: em ler livros, escrever livros, conversar sobre livros.” (Com Borges, 2022. Pág. 29).

Assim os termos agendados no intelecto servem como uma interlocução onde os envolvidos estabeleçam uma conexão pelas palavras, seus múltiplos sentidos e derivações. Com isso uma adição de pontos de vista, reflexões, sensações, análises, cuidam da construção compartilhada para elaborar aquele algo mais que sempre aparece, de um jeito ou de outro, numa ou outra expressão, como resultante da qualidade das páginas dialogadas, seus recortes existenciais.  

Se a realidade está nos livros, os livros também estão na realidade. Influenciam comportamentos, novas ideias, desconstruções pessoais, reinvenção por suas descrições. Mesmo quando em rascunhos de um sonhador, seus apontamentos sobre o que vê, sente, admira, imagina, acrescentam sabor e cor a uma estética singular.

Manguel compartilha: “Borges era um sonhador entusiasmado e gostava de contar seus sonhos. (...) ‘no mundo do tudo é possível’, ele sentia que podia se libertar dos seus pensamentos e medos, que, completamente livres, criariam suas próprias histórias.” (Com Borges, 2022. Pág. 48).

Uma abordagem aprendiz como a filosofia clínica, vincula-se aos desdobramentos da vida de seu partilhante, experienciando em perspectiva, muito do que se passa em sua malha intelectiva, seja na forma de projetos de vida irrealizados, relação com os outros e consigo mesmo, devaneios, buscas. Nesse sentido não há que se falar numa divisão clara e definitiva entre realidade e irrealidade, pois nos eventos da hora-sessão os conteúdos se desdobram para integrar outra coisa.  

A redução fenomenológica para acolher a pessoa em seus ensaios de expressividade, é uma característica essencial para interagir com sua singularidade, sem os ranços da tipologia e classificação psiquiátrica, hoje em dia disfarçadas de síndromes, espectros, transtornos. Ainda assim produzindo vítimas para a indústria de psicofármacos, transformando pessoas em objeto de cristalização diagnóstica e prognóstica.

Em outras palavras, quem ainda hoje se atreve a sonhar? Ter devaneios, expressar sentimentos a luz do dia? Investir em algo extraordinário ao olhar de multidão dos princípios de verdade? A guilhotina do alienista e coadjuvantes se encontra em cada esquina, muitas vezes na própria casa, acenando com a camisa de força das suas verdades.  

A obra dá pistas: “Em ‘Pierre Menard, autor do Quixote’, ele argumentou que o livro muda de acordo com os atributos do leitor.” (Com Borges, 2022. Pág. 58).

Algo de excepcional acontece quando duas ou mais pessoas se envolvem na leitura e partilha sobre uma obra literária, bem assim no espaço da clínica, onde os eventos possuem o ineditismo das pessoas envolvidas, tendo como bússola a qualidade da interseção.

Existe alguma lucidez em perceber nas brumas de um discurso existencial, uma representação de mundo em vias de ensaio, a qual costuma agendar, do lado a lado da relação, seja de autor para leitor ou partilhante para filósofo, insinuações para construção compartilhada. Um desses momentos de onde não se sai o mesmo, tendo como fonte de inspiração a matéria-prima do que permanece enquanto muda.

Aquele abraço,

*hs

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 51*

                                        Autogenia e expressividade 

Em Filosofia Clínica, distante do senso comum intelectual de nossa época, onde ainda se mantém igrejas terapêuticas festejadas pela tradição, o novo paradigma encontra sua interseção com as pessoas da rua, desprezadas, invisíveis, cuja singularidade se vê reconhecida em processos de autogenia transformadora. 

Nos dias de hoje (2025), ainda tem quem não entenda a nova mensagem cuidadora, muitas vezes tentando estabelecer similaridades com aquilo que já existe, desconstruindo as possibilidades de compreender a natureza e o alcance da nova mensagem. Questão de método!  

Deleuze aponta: “ (...) é através das palavras, entre as palavras, que se vê e se ouve”. (Crítica e clínica, 2004. Pág. 9).

Talvez a dificuldade em visualizar a novidade em seus dias de novidade, resida no fato de se interpretar sempre a mesma coisa diante de si, ainda quando esta coisa é outra coisa. Assim trata-se de enquadrar um discurso existencial precursor em definições pré-estabelecidas.   

O conceito de autogenia, em Filosofia Clínica, tem a ver com o processo da terapia onde o partilhante, em tempo próprio, elabora sua expressividade em uma dialética singular, onde dentro e fora se integram em múltiplos ensaios de ser, não-ser, vir-a-ser, quase sempre em desacordo com a lógica de suas anterioridades. 

Um devir surpreendente costuma acompanhar as buscas da hora-sessão. Desde o acolhimento preliminar, exames categoriais, estrutura de pensamento e demais procedimentos clínicos, o filósofo se coloca numa disposição aventureira em comum acordo com as possibilidades da interseção.  

Com Gilles Deleuze: “(...) explorar os meios, por trajetos dinâmicos, e traçar o mapa correspondente. Os mapas dos trajetos são essenciais à atividade psíquica.” (Crítica e clínica, 2004. Pág. 73).

A busca por se traçar um mapa correspondente a cada malha intelectiva, tendo como referência a subjetividade partilhante, descreve uma abertura as lógicas do improvável, onde se pode localizar a fenomenologia das construções compartilhadas.  

São tantas as possibilidades interditas nas ações e interações da autogenia, que é possível até tentar classificar seus deslocamentos, contrariando a fonte de inspiração do novo paradigma: a singularidade. Nesse sentido, se destaca a equivocidade da oferta para cristalizar o ser singular, condicionando-o a um gesso interpretativo, como proposta de controle, manipulação, adequação.    

Assim a autogenia contida num cotidiano de atendimentos, tem a ver com os ensaios realizados pela via da interseção terapêutica, onde eventos de múltiplas faces buscam caminhos de integridade ao sujeito partilhante.

Deleuze ensina: “É como se alguns caminhos virtuais se colassem ao caminho real, que assim recebe deles novos traçados, novas trajetórias. Um mapa de virtualidades, traçado pela arte, se superpõe ao mapa real cujos percursos ela transforma.” (Crítica e clínica, 2004. Pág. 79). 

As vivências de consultório - em Filosofia Clínica - tem o privilégio de conviver com expressividades em estado nascente, por onde a pessoa desenvolve características a partir de seu próprio território subjetivo, ou seja, ao conviver com outras possibilidades existenciais, pode ressignificar-se de acordo consigo mesma sendo outra.

Em clínica não há que se falar em situações irreais nas dinâmicas de consultório, o que acontece são interações (roteiros, deslocamentos, reciprocidades, esteticidades, e algo mais) para investigar o ângulo de possíveis da pessoa consigo mesma, com a vida lá fora.    

Em Deleuze: “(...) não é a sintaxe formal ou superficial que regula os equilíbrios da língua, porém uma sintaxe em devir, uma criação de sintaxe que faz nascer a língua estrangeira na língua, uma gramática do desequilíbrio.” (Crítica e Clínica, 2004. Pág. 127).

Então fica definido que não haverá definição, ok? Sei das dificuldades para se navegar em alto mar com as próprias forças, no entanto, quando se aprende tal coisa, mar aberto pode significar novos horizontes, superando as âncoras do velho cais. Trata-se de recolocar as coisas em outra perspectiva, desconstruindo a mordaça institucional, a qual chega atrasada para legalizar novos territórios existenciais.

Com essa estética de acolher o imprevisível em cada um, se apresentam novos tempos, identificados pela multidão de pessoas distante dos holofotes, com uma percepção intuitiva diferenciada, para enxergar na Filosofia Clínica, algo novo em um oásis de acolhimento até então desconhecidos.      

Aquele abraço,

hs  

sábado, 12 de abril de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 50*

 

                                                       Extraordinário

O filme Extraordinário, de 2017, com roteiro de Jack Thorne, Steve Conrad e Stephen Chbosky, direção de Stephen Chbosky, oferece uma leitura sobre as dialéticas do convívio, ou seja, a inserção de um menino singular em uma escola comum, os agendamentos, as interseções, desdobramentos. 

Auggie Pullman tem um rosto diferente, em razão de problemas de nascimento. A medicina do corpo aponta a síndrome de Treacher Collins. Após ter aulas em casa com sua mãe, com 10 anos de idade o menino ingressa no quinto ano escolar. Nesse momento a obra retrata as contradições de se buscar apoio em uma escola onde se exercitam o preconceito, a discriminação, desvalorizando aquilo que não se vê à primeira vista.

A dedicação e o carinho, envolvimento dos pais, a irmã, o diretor da escola, parecem não bastar. Para se proteger, Auggie se utiliza de um capacete de astronauta para se proteger, ensaia regressar ao refúgio de sua casa com as aulas da mãe, fica revoltado com sua aparência.  

Uma leitura a partir do filme - semelhante a um bom livro - pode adquirir múltiplas facetas, de acordo com as possibilidades do espectador/leitor em sintonia com a obra. Assim destaca-se a proposta de um acolhimento compreensivo da singularidade, para superar o espírito de multidão.

Trata-se de um componente das tipologias, com suas sucessivas versões para dar conta de uma singularidade que se multiplica. As classificações distanciam as pessoas delas mesmas e dos outros. Sua intervenção, com a maquiagem científica, propõe submeter atitudes insubmissas a essa lógica.    

Nesse sentido, multiplicam-se diagnósticos e prognósticos ao fenômeno humano - cada vez mais surpreendente - ao invés de um estudo aprofundado das especificidades de cada um. Esses enquadramentos, enquanto prosseguirem inventando síndromes, transtornos, doenças mentais..., seguirão desconhecendo a pessoa além de um visar de superfície.    

Enquanto instituições de ensino e o espírito de multidão continuarem associados as definições da Psiquiatria, o festival de psicopatologias vai continuar. Possivelmente alguém esteja ganhando algo com isso. Michel Foucault em seu texto: O nascimento da clínica, elabora uma reflexão crítica sobre a ideologia (como ocultamento) das práticas da medicina. O pensador destaca as tipologias de controle, submissão, como ingredientes para abastecer a indústria da doença.  

Em nossos dias, reivindica-se estudos compartilhados para desenvolver a pesquisa inter e transdisciplinar, para quem sabe, superar a percepção (soberana) do ato médico, atribuindo a química, a biologia, o fator determinante para as contradições humanas e seus desdobramentos em somatização.    

Todas as pessoas nascem extraordinárias, até os rituais de civilização. A proposta de conter e adaptar expressividades, via de regra, oferece seu resultado ótimo: a pessoa acrítica, incapaz de refletir, analisar, os fundamentos da sociedade onde se encontra. A partir daí, o sujeito costuma ser tratado como algo a ser domesticado. Destacam-se a cumplicidade das famílias, igrejas, escolas, clubes, compondo uma trama recheada de boas intenções.

O filme tem um final esperado, reverenciando a diversidade, o acolhimento da singularidade de Auggie. A ficção parece acenar algo ainda sem tradução, distante do dia a dia de quem vê a vida do outro lado da tela, onde se multiplicam estigmas à guisa de conhecimento.

Cada vez mais a medicina do corpo se fasta de seu papel existencial cuidador, para se aventurar na fenomenologia da mente, a qual se esboça em linguagem própria, reivindicando método e interseção para acessar suas múltiplas versões. Nesse sentido a cultura segue refém dos agendamentos da Psiquiatria e seus coadjuvantes. Pretextando fazer ciência, na verdade renova a máxima de Paul Joseph Goebbels - chefe da propaganda nazista - onde uma mentira repetida mil vezes, se torna verdade.  

Aquele abraço,

hs