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Você está no espaço Descrituras. Aqui encontrará alguns textos publicados, inéditos e outros esboços de minha autoria. Boa leitura.

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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 60***

                                                   Dias Perfeitos       

O filme Dias Perfeitos, com direção e roteiro de Wim Wenders, é de 2023. Tem a duração de 123 min, numa produção da Alemanha e Japão. Disponível no Prime vídeo. Se pode imaginar o tempo para sua produção, desde as primeiras ideias, escritas, reescritas, busca por investimentos, as versões preliminares, escolha de personagens, fotografia, música, filmagens, edições.

Ao compreender a obra como indício de uma autobiografia, é importante recordar que Wim Wenders estudou medicina e filosofia, abandonando a faculdade para se dedicar as suas paixões: o cinema e as artes visuais. Desconstruindo, sob muitos aspectos, uma lógica da tradição escolar. Assim é possível encontrar suas digitais em sua estética.

Dias Perfeitos descreve o cotidiano de um sujeito em tempo próprio. Sua semiose preferida é o silêncio conjugado ao olhar sobre os acontecimentos de sua vida. O filme sugere um esboço para algo imune a passagem do tempo. Seu enredo acolhe a expressão de um vagar sem pressa ao sabor dos dias.  

O personagem Hirayama é zelador e limpa banheiros em Tóquio. A descrição de sua atividade revela uma prosa poética singular, por onde os eventos valorizam o instante multifacetado de cada cena. Uma tez de inacabamento parece descrever a obra de Wim Wenders, semelhante a vida de cada um, ainda quando se tenta cristalizar sua expressão em protocolos, diagnósticos, prognósticos.  

A obra apresenta as poéticas da singularidade em vias de introspecção, deslocamentos curtos, recíproca de inversão, como proposta de algo para chamar de seu. Nesse sentido o discurso existencial do personagem compartilha algo incomum, destaca seu gosto pela música, livros, fotografia, numa interseção diferenciada com as coisas, pessoas, a vida ao seu redor.

Em um momento da obra, a visita inesperada da sobrinha, uma das poucas que o compreendem, desloca, momentaneamente, seu cotidiano, para acolher uma interseção afim com suas verdades. A menina, que fugiu de casa pelas diferenças com a mãe, prefere a forma de vida do seu tio, o acompanha em seu trabalho, lê seus livros, ouve suas músicas, anda de bicicleta com ele, dialoga ... O lugar onde Hirayama mora é simples, ele dorme no chão em meio a seus livros. Seu dia a dia, no entanto, é repleto de uma magia incompreensível aos modelos pré-concebidos dos princípios de verdade. A lógica de um consumo desenfreado não cabe em seus dias. Ao olhar desavisado, sua vida parece ser sempre a mesma. Enquanto isso, o texto convida a desvendar a originalidade em cada cena,  

Talvez sua melhor tradução seja a esteticidade seletiva, por onde compartilha preferências musicais, literárias, fotografando aquilo que escapa ao olhar comum, não com o objetivo de se destacar, competir, aconselhar, mas num convite para reencontrar a si mesmo em cada manhã.       

O roteiro nos recorda os encantos de um devir singular, o qual sendo o mesmo já é outro, inaugurando em cada - minúsculo - evento inéditas possibilidades existenciais. Trata-se de acontecimentos recheados de vida, reivindicando um tempo próprio para decifrar suas nuances de sabor e cor.

A expressividade de Hirayama compartilha momentos onde se poderia morar. O filme é generoso nesses encontros com o extraordinário, os instantes refugiados numa fenomenologia fugaz, reivindicam uma sintonia diferenciada para se mostrar. Uma simplicidade complexa se insinua na brisa leve da copa das árvores, registradas pela fotografia do personagem.  

Sua bicicleta é a companhia favorita para os finais de semana, quando leva sua roupa para lavar, revela seus filmes, qualifica suas leituras, ouve suas músicas em fitas cassete. Seu jeito de ser encontra numa jovem a interseção com seu gosto singular. Sua família, com exceção da sobrinha, não o entende. A maioria das melodias são dos anos 1970/1980, reapresentando um estilo musical e a poesia de algo que parecia esquecido.

Wim Wenders recupera um tom favorável ao ser analógico, em meio a velocidade vertiginosa da internet e coadjuvantes. O roteiro ensina sobre a condição humana exilada em um devir, muitas vezes incompreendida, refém de rótulos, tipologias, por quem não dispõe de meios para compreendê-la em seu jeito peculiar de existir.  

O filme, semelhante aos eventos da hora-sessão, convida a um exercício de desaceleração para um reencontro consigo mesmo, investigando os deslocamentos do cotidiano, seus devaneios, reflexões, e algo mais, a perseguir-se pelas esquinas e calçadas, visitando jardins, compartilhando um café, assistindo um filme, saboreando a vida sem pressa, acolhendo seus dias num protagonismo para ser sujeito na própria história.

Nesse sentido a obra permite cogitar sobre a poética existencial de todos e cada um, por onde se imprimem rastros de que alguém passou por aqui, apesar das iniciativas e agendamentos para significar singularidade em espírito de multidão.     

Aquele abraço,

*hs

**Texto originalmente publicado na edição verão/2025 da revista da Casa da Filosofia Clínica

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 59*


                                        Percepção Incomum 

O filme: "Edward Mãos de Tesoura" é de 1990, com direção de Tim Burton. Uma produção dos EUA e duração de 1h45min. Roteiro de Caroline Thompson e Tim Burton. No elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, dentre outros.

Sua reflexão pode ser abordada de múltiplos pontos de vista, tantos quantos forem os envolvidos com sua análise e sintonia. A inspiração para o roteiro vem da adolescência de Tim Burton, ao recuperar ilustrações sobre sua sensação de isolamento e dificuldades em se relacionar com os moradores de sua cidade.

A partir daí, se inicia o trabalho de Caroline Thompson e Tim Burton, para desenvolver esse rascunho preliminar. É significativo lembrar que o esboço se apresenta na percepção de um jovem extraordinário, o qual não consegue se enturmar com o gesso da vida normal. Quase uma aula de enraizamento, reconstrução, deslocamento longo, para atualizar uma autopercepção de Tim Burton.

As cenas iniciais destacam uma aptidão - borogodó - de Peg, vendedora de Avon, a qual, ao encontrar Edward morando sozinho num castelo abandonado, manifesta uma plasticidade peculiar, mantendo com ele uma interseção incomum de acolhimento e cuidados com sua expressividade, sem julgar, classificar ou tipologizar.    

Um ponto de interesse é a afirmação de Edward (raro momento de fala do personagem), ao ser descoberto num canto da sala, em meio as sombras, de que “estava incompleto”, ou seja, por ter tesouras no lugar das mãos, deixava entrever uma sensação de abandono, desmerecimento.   

A ideia de exclusão, tão comum, como efeito colateral das lógicas de consumo, onde pessoas se transformam em objeto de desejo, para consumir e ser consumido pelo lucro a qualquer preço, sustenta a proliferação de diagnósticos (ideologias de saber-poder) para enquadrar o fenômeno humano multifacetado, o qual, a cada tentativa de aprisionamento interpretativo, se desdobra para reapresentar-se noutras formas de existir (singularidade). Haja síndrome, espectro, transtorno, para cristalizar aquilo que se multiplica a cada olhar. Questão de método!   

Após as críticas e desconfianças iniciais, Edward é aceito pelos moradores, pois tem algo que lhes interessa, isto é, oferece gratuitamente suas habilidades para elaborar cortes de cabelo as mulheres do bairro, arruma seus quintais, tosa seus cachorros. Decora o bairro inteiro com sua estética, transformando a paisagem, enriquecendo ruas e jardins com sua expressão, tem olhos para a beleza e harmonia em todas as coisas.

Edward, ao não ser - exatamente - humano ou robô, inclui um personagem contraditório com as lógicas de entendimento da vida como algo linear, recheadas de fundamentos para direcionamento comportamental, onde protocolos, laudos, diagnósticos, cumprem um papel de manutenção da ilusão de controle as verdades de laboratório.  

Existem muitos desvãos no filme associados ao tema principal, como o fato de Edward sentar-se na calçada ao lado de um cão, ao qual oferece seus serviços de estética, fazendo o que sabia fazer, compartilhar cuidado e carinho. Sem esquecer a maldade no meio do caminho, numa cena em que se tenta classificar o personagem como uma ameaça - por ser diferente -, forjando situações onde sua inocência e ingenuidade são reféns de alguns membros da comunidade.   

O filme, no que se refere a Edward, lembra a maestria de Chaplin, pois o personagem quase não fala, se expressando em atitudes com as pessoas e o mundo ao seu redor.  Nesse sentido lembra o conceito de discurso existencial em Filosofia Clínica, superando a ilusão de que uma retórica e boa apresentação pessoal podem bastar para uma leitura confiável, reivindicando um convívio continuado para se ter uma aproximação de qualidade entre o que se diz e o que se faz.   

Aquele abraço,

*hs

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 58*

                                                   27 Noites 

O filme argentino 27 noites, Netflix 2025, com roteiro, direção e atuação de Daniel Hendler, com base no livro da escritora Natalia Zito, tem a duração de 1h47min. A obra se inspira em fatos reais, abordando a vida da personagem Martha Hoffman, colecionadora de arte rica, audaciosa, animada.   

Seu argumento se desenvolve com a internação involuntária de Martha (83 anos) por suas filhas em uma clínica psiquiátrica, onde permanece por vinte e sete noites. Com isso é indicado pela justiça um especialista (Casares) para avaliar a condição mental/existencial de Martha. A partir daí os dois mantém uma relação singular, com agendamentos do lado a lado da convivência.

A produção se junta a outras centenas de filmes, livros, peças de teatro, que abordam a vida incompreendida e o tratamento com a camisa de força da bíblia DSM. (questão de método).

Pode-se lembrar: Um estranho no ninho (1976), com Jack Nicholson e direção de Milos Forman, Shine – brilhante (1996), com Geoffrey Rush e direção de Scott Hicks Garota Interrompida (2002) com Winona Ryder e Angelina Jolie e direção de James Mangold, O Pescador de ilusões (2021) com Jeff Bridges e Robin Williams e direção de Terry Gilliam, e outros.

O comportamento fora da curva - a resistência de Marta em não renunciar a si mesma - experienciado pela personagem, descreve, em perspectiva, aquilo que muita gente vivencia em seu cotidiano, ou seja, a sensação de exílio na própria casa. Quando isso acontece, o mundo normalizado, ao ver seu modus operandi ameaçado, se socorre da Psiquiatria, a qual, a partir de um primeiro encontro, recheado de agendamentos familiares do candidato a louco, trata de iniciar a produção da loucura, com isso se estabelece aquilo conhecido como: doença mental.

Os hospitais psiquiátricos, bem como a sociedade que os mantém, são a verdadeira fábrica da loucura, estruturados e mantidos dentro da lei. Assim constituem uma sociedade produtora de desajustes existenciais, de quem não consegue se adaptar ao modo de vida injusto, desigual, onde todos devem querer ser objeto de consumo.

Nos dias de hoje as escolas e seus professores, tem treinamentos para identificar desvios de conduta, ou seja, localizar algum estágio de loucura nascente, através do registro de comportamentos estranhos por parte dos alunos. Nasce assim uma categorização de síndromes, espectros, transtornos, massivamente divulgados como verdade (lembra Joseph Goebbels? Ministro da propaganda de Hitler?) para conter as contradições com o espírito de rebanho.   

Antigamente essas práticas existiam, embora tímidas, nos anos 1960/70 a moda era caracterizar atitudes suspeitas como: disritmia, uma espécie de antessala para a esquizofrenia, outra invenção servindo ao contexto social alienado.

Friedrich Nietzsche alertou para a ilusão dos linguistas em querer dominar o fenômeno humano atribuindo um nome para cada evento. Noutras palavras, acredita-se – ainda hoje – que batizar determinadas atitudes, pode traduzir uma expressão singular.

Nesse sentido, o filme 27 noites atualiza a reflexão sobre o direito de ser expressivo, um tema caro a Filosofia Clínica, a qual possui uma abordagem em sintonia com a fenomenologia da singularidade.

Martha, ao ser desrespeitada por suas filhas e parcela significativa da sociedade, encontra refúgio numa comunidade periférica, num subúrbio de Buenos Aires, onde é acolhida como artista e sujeito de sua história. Nesse endereço existencial ela não é louca, excêntrica ou qualquer outra invenção tipológica, que não a Martha inspirando acolhimento, amor, carinho, características que influenciaram sua relação com o especialista.  

Interessante notar que Casares, designado para enquadrar sua paciente, se depara com um movimento intelectivo conhecido da Filosofia Clínica: a recíproca de inversão. Ao conviver com Martha, o especialista aprofunda sua relação e vivencia circunstâncias inéditas, ao regressar ao seu eixo existencial (inversão), reconhece a limitação de seu jeito de viver.   

A obra, pela limitação de tempo em um roteiro complexo, as necessárias edições para se adequar a realidade cinema, deixa nas entrelinhas conteúdos que poderiam ser abordados, como: a influência da sociedade na relação com pessoas consideradas descartáveis, sejam jovens, adultos, velhos, geralmente em desconformidade com um script previamente elaborado por uma hegemonia comportamental ideologizada (no sentido de Gramsci -como ocultação das verdadeiras intenções).

Assim é possível antever um convívio social com base na dissimulação, jogos de cena, inautenticidade. Quando aparece alguém contraditório com essa norma social, a ameaça surge no horizonte das estruturas de controle e submissão, algo que se inicia na família, escola, igrejas e contamina o eixo da sociedade, oferecendo como produto ótimo de suas intervenções um não-ser chancelado.   

Nos dias de hoje a produção literária, cinematográfica, clínica, e suas derivações, tem encontrado nas periferias e subúrbios uma matéria-prima para suas elaborações criativas, uma forma de resistência em meio a tanto faz de conta e dissimulação, representada pela hegemonia institucional.   

Aquele abraço,

*hs

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 57*

Filosofia clínica e discurso existencial | Sílex

Boas leituras e releituras!

Aquele abraço,

*hs

Filosofia Clínica Agridoce 56*

*Resenha de Ana Bia para o site: https://proximolivro.net/

A vida é uma dança imprevisível entre o que conhecemos e o que ousamos explorar. “Pérolas Imperfeitas: Apontamentos Sobre as Lógicas do Improvável”, de Hélio Strassburger, não se contenta em ser apenas uma leitura; é um convite a questionar as realidades que nos cercam. Com uma prosa ligeira e provocante, Strassburger oferece um vislumbre das complexidades do cotidiano, os fragmentos de beleza que só emergem na imperfeição.

A obra se faz acompanhar de reflexões que transitam entre o inesperado e o banal, revelando que muitas vezes são as falhas que nos fazem humanos. Em suas páginas, você encontrará a essência das pepitas de sabedoria que surgem na adversidade e nos desafios diários. Ao longo de 142 páginas de puro deleite, Strassburger despiu-se de qualquer formalismo excessivo e, em vez disso, abraçou a autenticidade. A narrativa se torna um espelho, refletindo nossas próprias lógicas do improvável, fazendo você refletir sobre as suas próprias experiências de vida e as lutas pessoais que moldam seu ser.

Os leitores se dividem entre os que se sentem revigorados pelo estilo ousado e direto do autor, e aqueles que, talvez, esperavam algo mais linear. O que é claro é que a prosa de Strassburger provoca reações intensas: muitos se sentem inspirados a embarcar em uma jornada de autodescoberta, enquanto outros criticam a falta de uma estrutura mais convencional. Mas quem precisa de convenções quando a vida, com todas suas reviravoltas, nos ensina a improvisar?

Neste cenário onde a lógica as vezes falha, a obra provoca risos, lágrimas e um profundo pensar crítico. O autor não está só debatendo o improvável; ele deixa a porta escancarada para que você possa entrar e vivenciar a imperfeição como um valor vital. Aqui reside a verdadeira pérola: a aceitação do inusitado como parte da história humana.

Com uma sensibilidade quase poética, Hélio Strassburger se coloca como um maestro das palavras: cada frase e cada aponto são notas que compõem uma melodia de introspecção, trazendo à tona a beleza nas falhas e nas incertezas do ser. Você já parou para pensar nas suas próprias pérolas imperfeitas? Aqueles momentos que, à primeira vista, parecem ser um desastre, mas que, com o tempo, revelam-se extraordinários?

Na cultura contemporânea, repleta de superficialidades, o autor consegue nos cutucar para sairmos da zona de conforto. Ele nos faz lembrar que, por trás de cada imperfeição, podemos encontrar histórias ricas e cheias de vida. Não é apenas uma leitura; é uma experiência transformadora que modela sua visão de mundo e de si mesmo.

Deixe que Pérolas Imperfeitas invada sua mente e seu coração. Esteja pronto para questionar e, quem sabe, reinventar suas próprias lógicas do improvável, pois, em última análise, a beleza reside justamente nas imperfeições. Você está disposto a embarcar nessa viagem de autodescoberta e reflexão? O que você vai fazer com essas novas pérolas adquiridas? A escolha é sua! 🌊✨️

📖 Pérolas Imperfeitas: Apontamentos Sobre as Lógicas do Improvável. Ed. Sulina/Porto Alegre/RS. 2012.

by Hélio Strassburger

🧾 142 páginas

E você? O que acha deste livro? Comente!

#perolas #imperfeitas #apontamentos #logicas #improvavel #helio #strassburger #HelioStrassburger

*Ana Bia

https://proximolivro.net/

domingo, 21 de setembro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 55*

  

                                                         Fora de foco 

O filme Desconstruindo Harry é de 1997. Tem a duração de 1h35min. Escrito, dirigido, representado por Woody Allen e convidados. A obra se aproxima da nova abordagem terapêutica da Filosofia Clínica, especialmente com roteiros de autogenia, espacialidade intelectiva, e outros. No entanto se distancia, quando o fenômeno humano singular é tratado como algo universal, coisificado, refém de tipologias, estereótipos, protocolos.    

Um aspecto vinculado aos deslocamentos intelectivos, se refere a pluralidade de expressões, derivações, para integrar o roteiro, tendo por base uma só matriz descritiva. Em outras palavras, trata-se de textos dentro de um texto, num convite para o leitor/espectador acompanhar a interseção do centro com suas margens. Vivenciar as sensações que se oferecem na história.

No mesmo sentido, um pouco antes de ir ao cinema, autor e obra se confundem em sua redação. Os personagens se mesclam na criatividade dos roteiros. O texto se assemelha a uma autobiografia para as telas.  

O filme convida a superar as cenas iniciais, onde facilmente se poderia cair numa armadilha interpretativa, acreditando saber, de antemão, do que se trata, para onde a obra se dirige. A trama surpreende o tempo todo, onde realidade e ficção se reapresentam para dizer e desdizer quase tudo.   

A escritura do autor se desdobra para encontrar o cinema. As múltiplas estórias em um mesmo roteiro elaboram - com o espectador - um contrato de lógica absurda, próximo do drama kafkiano. Múltiplos papéis existenciais redigem seus originais, onde as franjas e periferias integram uma coisa para ser outra.  

O discurso da personagem ao invadir a casa de Harry Block (Allen): “Você acabou com a minha vida e agora vou me matar aqui, na sua frente, no seu carpete”, o escritor: “você é uma desequilibrada”, ela rebate: “Sim, por isso você me escolheu! (...), quem mais me convenceria a fazer sexo oral no enterro do meu pai?”, a cena prossegue com outros diálogos desencontrados, ameaças, acusações, relação compartilhada pela desestrutura.    

Pouco depois, em nova cena, com a trilha sonora de “garota de Ipanema”, o filme prossegue, agora em nova perspectiva, convidando o espectador a experienciar uma mudança de rota, onde o enredo principal dialoga com suas derivações.        

A obra é contextualizada num ambiente vintage, onde o ator/escritor/roteirista/diretor trabalha em seu apartamento, a meia luz, dedilhando sua Remington, lugar para expressão de suas ideias e criatividade. Um refúgio para sua singularidade.   

Em outro momento Harry Block aparece deitado num divã, com o analista a sua cabeceira. Fato recorrente numa obra de inspiração psicanalítica, apesar das críticas que o autor lhe concede. Ao longo da história surgem nuances da escritura de Woody Allen, com sua digital impressa nas cenas e personagens de sua obra. Muitas vezes se tem a sensação de ver e ouvir sua voz por todo lado.   

A sequência traz o escritor novamente em terapia, dizendo de sua preferência por prostitutas: “não consigo me acertar no amor (...) eu ainda adoro prostitutas, sabe?  você faz o que tem de fazer, paga e elas vão embora. Você não tem que falar de Proust, filmes, e mais nada”.

Quando a terapeuta faz uma intervenção: “O conto que você estava trabalhando” ... Harry relembra: “a câmera está fora de foco. O ator está fora de foco. O Mell está fora de foco”. (...) Quando chega em casa a mulher diz: “você está estranho”, ele: “sim, estou fora de foco”, ela: “você está borrado”, ele: “estou passando por uma coisa que não sei o que é. (...) Não consigo escrever, não vem”.

Na cena seguinte o personagem se apaixona por sua terapeuta. O narrador onipresente: “Para Epstein, finalmente encontrava a mulher ideal, alguém que o compreendia”. Mais uma vez oferecendo uma leitura não-linear, Harry encontra na rua seu outro eu, aquele do momento inicial do filme, onde conversam. “Quem é você?” ele pergunta, o outro responde: “sou quem você criou e agora não me reconhece? (...) eu sou você, um pouco disfarçado.”

Em outro momento, quando sua nova terapeuta, em sessão com o escritor, deixa de lado seu papel existencial para ir à sala ao lado, onde encontra o personagem do divã sendo outro - num raro instante onde Harry Block e Woody Allen são o mesmo -, passam a discutir sua relação, tendo como motivação um relato da terapia. Uma estética para traduzir realidade e ficção como algo ainda sem nome. Em Filosofia Clínica a fenomenologia da hora-sessão se aproxima desse outro lugar onde as pessoas se encontram.   

A seguir, em um novo desdobramento do filme, Harry Block vai ao submundo e encontra o anjo decaído. Um breve embate entre eles: o escritor: “eu sou mais poderoso que você, pois sou um grande pecador e você é um anjo caído (...) Uma vez quase atropelei um crítico literário, desviei no último instante”. O anjo caído: “quer que ligue o ar-condicionado?” Harry: “tem ar-condicionado aqui?” o anjo: “Sim, destrói a camada de ozônio”.

Questionado das razões por estar no inferno e não no céu, o escritor responde pelo anjo: “é melhor mandar aqui do que servir no céu, acho que foi Milton que falou isso”.

Em outra cena, Harry vai receber uma homenagem na universidade onde estudou. Para isso convida uma prostituta para lhe acompanhar, chegando lá é preso, acusado de sequestrar seu filho. Os amigos pagam sua fiança, ele é solto.

Após, chega à homenagem da universidade e pergunta aos colegas: “posso levar mais alguém?”.  Quando respondem: “é claro, o sonho é seu! Todos esperam para homenageá-lo, afinal, você os criou.” Em suas reflexões Harry pensa: “Como pode um cara que não funciona na vida real, funcionar na arte?”. Uma personagem tenta traduzir: “Seus livros parecem um pouco tristes na superfície, por isso eu gosto de desconstruí-los, pois no fundo são felizes.”

Nesse sentido o autor compartilha uma história recheada de estórias, para descrever-se em seus escritos. Uma ficção por onde a realidade transita, revelando aspectos desconhecidos. Ao retornar para sua casa e reencontrar sua Remington, tem a ideia para um romance. Segundo ele: “A nova obra irá oferecer uma descrição de como nossas vidas consistem na forma que escolhemos distorcê-las”. Sua escrita - mais uma vez - salvou sua vida.

Aquele abraço,

*hs   

sábado, 23 de agosto de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 54*


                                               A lógica  Proteus

A mitologia Grega descreve Proteu como um deus marinho com habilidade para assumir múltiplas formas. Seu rol de competências integra versatilidade, adaptabilidade, flexibilidade.

Ao ter uma plasticidade apta a se moldar e conviver com circunstâncias difusas, essa espécie se assemelha ao papel existencial do filósofo clínico, o qual, sem perder de vista sua expressividade é capaz de acolher, visitar, interagir com as lógicas da diferença.

Essa característica pode ser ininteligível, sem um borogodó para acessar uma condição singular. Nossa cultura impregnada das metodologias da tradição, referendadas pela lógica: você sabe com quem está falando? E os acréscimos infindáveis de novas patologias, em busca da sustentação corporativa, aprisionam o fenômeno humano em uma só versão. 

A definição acadêmica acredita ter uma base sólida para suas convicções sobre as pessoas. Assim propõe narrativas para sustentar ideologias sem comprovação objetiva. A estrutura de pensamento, ao ser singular, multifacetada, reivindica uma abordagem em sintonia com seu devir existencial.

A lógica Proteu possui uma relação contraditória com o gesso diagnóstico. Nesse sentido, é fácil entender seu desajuste com agendamentos de para sempre, ou seja, a palavra-lei do alienista e sua sentença de prisão perpétua. A cristalização humana sob a ótica psiquiátrica, passa a ter nomes: síndromes, espectros, autismos, esquizofrenias, ao gosto de uma ideologia disfarçada de medicina, sua proposta? Engessar expressividades num molde socialmente aceito.

É necessário esclarecer que doenças mentais não existem, são fabricadas por uma estrutura articulada, que inclui universidades, escolas de pós-graduação, hospícios, clínicas de saúde mental. Inventadas para submeter pessoas que apreciam pensar, refletir, analisar, questionar, contraditórias com a hegemonia da burrice a qualquer preço.

A oferta generosa de diagnósticos, prognósticos, é submissa a lógica da indústria de psicofármacos e seus lucros faraônicos, a qual encontra profissionais para desempenhar o papel de caixeiro-viajante para suas drogas.  Suas suposições não aparecem em exames clínicos de laboratório: exame de sangue, urina, eletros..., mas em práticas para sustentar corporativismos e distorções interpretativas. Esse ponto ajuda a entender os agendamentos para a fabricação da loucura.

Ao tratar sujeitos para normalizar condutas, o que aparece, junto a figura do Psiquiatra, é a própria anomalia diante do outro. Assim parece coerente interpretar pessoas em vias de não-ser, como refém de um olhar que vê razão e desrazão em tudo que toca.   

O imenso território subjetivo permanece desconhecido por inteiro, isto é, com a hegemonia das universalizações, classificações que se somam a cada dia, se acredita poder conter a singularidade humana em tipos conformados a um só olhar.

Não é raro, em hospitais psiquiátricos, os profissionais que lá atuam, terem comportamentos semelhantes aos internos com os quais trabalham. Parece inexistir uma reflexão sobre o fato de que ao criar uma promessa de cura ou controle para suas invenções e distorções interpretativas, a Psiquiatria segue amparada por lei, a produzir loucura diante do espelho. Questão de método!

Talvez a proposta de incluir nos cursos de Medicina disciplinas como: Antropologia, Filosofia Clínica, Sociologia, pudesse ajudar a emancipar práticas cuidadoras em lugares onde a fratura exposta da sociedade se manifesta com força, ritmo, singularidade. Tenho dúvidas se a arrogância de gestores e professores dessas escolas, teriam a sensibilidade, humildade, sabedoria, para perceber o alcance limitado de suas técnicas de conversão do fenômeno humano a um devir existencial incabível a um padrão de normalidade. 

Os diálogos inter e transdisciplinares poderiam contribuir com a ressignificação dos limites ideológicos, no entanto, antes de qualquer metodologia, é preciso encontrar profissionais diferenciados em cada área de atuação, abertos a uma investigação compartilhada sobre o que  se tinha até então e os novos paradigmas como a Filosofia Clínica.  Lógica Proteus!

Aquele abraço,

*hs

sábado, 5 de julho de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 53*

 

                                    Um sujeito extraordinário 

O filme: A vida extraordinária de Louis Wain, com direção de Will Sharpe, Reino Unido, 2021, com duração de 1h51min, encontrada no Prime, apresenta um esboço da vida do artista inglês, sua condição excepcional ao pintar gatos com agilidade e maestria.  

Sua estética se reveste de paixão dominante e expressividade, traduzindo o que acha de si mesmo, sua representação de mundo, também oferece outras percepções sobre sua singularidade.

As teorias de base Psi vão encontrar síndromes, transtornos, doença mental no personagem, uma vez que Louis não abre mão de ser quem é, numa sociedade (final do séc. 19 e início do séc. 20) impregnada de ranços interpretativos, onde se acreditava que ser feliz era ser aceito socialmente. Lembrando Aristóteles e Schopenhauer: todo mundo é ninguém!  

Hoje em dia quase nada mudou! Quando vejo ex-alunos em busca de aceitação, tentando oferecer uma mescla de Filosofia Clínica com Psicanálise ou Psicologia, percebo que ainda temos dificuldades com o ser sujeito em cada um. Me parece uma covardia epistemológica a tentativa de acochambrar metodologias excludentes, produzindo um Frankenstein em suas práticas.

Quando isso acontece e algo não dá certo, ainda se tem de ouvir coisas como: ‘essa Filosofia Clínica não funciona, carece de fundamentação...’, dentre outras preciosidades. Na base dessa problemática é possível encontrar estudos de formação frágeis, com escassez de teoria e prática, associados a um candidato apressado para acenar sua ignorância aos quatro ventos.  

Louis Wain pode ser entendido de muitas maneiras, tantas quantas as pessoas em busca de acessar seu jeito de ser, não-ser, em conflito com os princípios de verdade de seu tempo. A nomenclatura de surrealista, embora não o traduza por inteiro, parece ser adequada a sua condição pessoal. Sua expressividade é incabível nos apontamentos da crítica especializada.

Uma busca que se mantém, lado a lado com sua manifestação artística, é a tentativa de decifrar a eletricidade do mundo. Noutras palavras, identificar a motivação para a vida de cada um, uma espécie de mapa subjetivo para encontrar a singularidade.

Outro aspecto significativo na obra é o fato de Louis Wain viver com as irmãs, as quais não o entendem e acreditam que ele tenha alguma forma de loucura ou extravagância. O que ameniza essa situação é o fato do artista bancar economicamente a vida da família com seu trabalho. Aliás esse é um indicativo legal da psiquiatria, ou seja, para alguém ser considerado são, basta ter boas relações com a cadeia produtiva do capitalismo. 

Algo novo acontece quando suas irmãs resolvem contratar uma governanta para a casa. A chegada de Emily Richardson, uma pessoa que compreende seu jeito de ser, logo chama a atenção de Louis. Um amor se instala entre eles, desafiando, mais uma vez, as convenções da época, pois uma relação afetiva entre patrão e empregada era inconcebível.

Louis Wain é execrado pela família, apontado na rua por transgredir costumes. No entanto, nada disso o abala, assumindo sua relação e casando-se com Emily, mudando de casa para viver sua vida nova.  

Nesse período da biografia sua atividade criativa parece atingir seu ponto máximo. Mais tarde algo acontece para desagregar esses momentos, os quais retornam mais adiante, para firmar sua expressividade e paixão dominante na arte de desenhar gatos. Nesse ponto, já no final da vida, tem seu trabalho reconhecido, como uma espécie de prêmio de consolação.

A saga de distanciar pessoas de sua melhor expressão continua. Os dias de hoje (séc. 21) ainda se sustentam na hipocrisia social, recheada de boas intenções. A maioria se associa em rede para significar o fenômeno humano como algo comum. A emancipação de uma habilidade ou competência pessoal, pode custar caro ao sujeito, o qual nem sempre terá condições de superar os obstáculos de seu meio.

Talvez filmes, o teatro, literatura, música, as belas artes - terapia nem pensar, para quem acredita ter tudo o que precisa -, possam oferecer pistas a cada um, insinuando o extraordinário às margens da própria estrutura de pensamento.   

Aquele abraço,

*hs     

domingo, 8 de junho de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 52*

                                     Um senso de absurdo excepcional

Uma fenomenologia da leitura vincula-se a filosofia clínica em um convívio entre realidade e ficção. As vivências entre uma e outra, descritas nas práticas de leitura e eventos da hora-sessão, conjugam ingredientes de raridade ao borogodó para papéis existenciais como: leitor e filósofo clínico.

Ao pensar com a ajuda de Alberto Manguel, onde este discorre sobre sua relação com Jorge Luis Borges em Buenos Aires, quando aquele ainda era um livreiro do qual este se socorria para acessar as novidades literárias na capital Argentina.

Em seu texto Com Borges, Manguel descreve vivências onde a interseção acontecia através dos livros.

O autor indica: “Para Borges, o âmago da realidade estava nos livros: em ler livros, escrever livros, conversar sobre livros.” (Com Borges, 2022. Pág. 29).

Assim os termos agendados no intelecto servem como uma interlocução onde os envolvidos estabeleçam uma conexão pelas palavras, seus múltiplos sentidos e derivações. Com isso uma adição de pontos de vista, reflexões, sensações, análises, cuidam da construção compartilhada para elaborar aquele algo mais que sempre aparece, de um jeito ou de outro, numa ou outra expressão, como resultante da qualidade das páginas dialogadas, seus recortes existenciais.  

Se a realidade está nos livros, os livros também estão na realidade. Influenciam comportamentos, novas ideias, desconstruções pessoais, reinvenção por suas descrições. Mesmo quando em rascunhos de um sonhador, seus apontamentos sobre o que vê, sente, admira, imagina, acrescentam sabor e cor a uma estética singular.

Manguel compartilha: “Borges era um sonhador entusiasmado e gostava de contar seus sonhos. (...) ‘no mundo do tudo é possível’, ele sentia que podia se libertar dos seus pensamentos e medos, que, completamente livres, criariam suas próprias histórias.” (Com Borges, 2022. Pág. 48).

Uma abordagem aprendiz como a filosofia clínica, vincula-se aos desdobramentos da vida de seu partilhante, experienciando em perspectiva, muito do que se passa em sua malha intelectiva, seja na forma de projetos de vida irrealizados, relação com os outros e consigo mesmo, devaneios, buscas. Nesse sentido não há que se falar numa divisão clara e definitiva entre realidade e irrealidade, pois nos eventos da hora-sessão os conteúdos se desdobram para integrar outra coisa.  

A redução fenomenológica para acolher a pessoa em seus ensaios de expressividade, é uma característica essencial para interagir com sua singularidade, sem os ranços da tipologia e classificação psiquiátrica, hoje em dia disfarçadas de síndromes, espectros, transtornos. Ainda assim produzindo vítimas para a indústria de psicofármacos, transformando pessoas em objeto de cristalização diagnóstica e prognóstica.

Em outras palavras, quem ainda hoje se atreve a sonhar? Ter devaneios, expressar sentimentos a luz do dia? Investir em algo extraordinário ao olhar de multidão dos princípios de verdade? A guilhotina do alienista e coadjuvantes se encontra em cada esquina, muitas vezes na própria casa, acenando com a camisa de força das suas verdades.  

A obra dá pistas: “Em ‘Pierre Menard, autor do Quixote’, ele argumentou que o livro muda de acordo com os atributos do leitor.” (Com Borges, 2022. Pág. 58).

Algo de excepcional acontece quando duas ou mais pessoas se envolvem na leitura e partilha sobre uma obra literária, bem assim no espaço da clínica, onde os eventos possuem o ineditismo das pessoas envolvidas, tendo como bússola a qualidade da interseção.

Existe alguma lucidez em perceber nas brumas de um discurso existencial, uma representação de mundo em vias de ensaio, a qual costuma agendar, do lado a lado da relação, seja de autor para leitor ou partilhante para filósofo, insinuações para construção compartilhada. Um desses momentos de onde não se sai o mesmo, tendo como fonte de inspiração a matéria-prima do que permanece enquanto muda.

Aquele abraço,

*hs

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 51*

                                        Autogenia e expressividade 

Em Filosofia Clínica, distante do senso comum intelectual de nossa época, onde ainda se mantém igrejas terapêuticas festejadas pela tradição, o novo paradigma encontra sua interseção com as pessoas da rua, desprezadas, invisíveis, cuja singularidade se vê reconhecida em processos de autogenia transformadora. 

Nos dias de hoje (2025), ainda tem quem não entenda a nova mensagem cuidadora, muitas vezes tentando estabelecer similaridades com aquilo que já existe, desconstruindo as possibilidades de compreender a natureza e o alcance da nova mensagem. Questão de método!  

Deleuze aponta: “ (...) é através das palavras, entre as palavras, que se vê e se ouve”. (Crítica e clínica, 2004. Pág. 9).

Talvez a dificuldade em visualizar a novidade em seus dias de novidade, resida no fato de se interpretar sempre a mesma coisa diante de si, ainda quando esta coisa é outra coisa. Assim trata-se de enquadrar um discurso existencial precursor em definições pré-estabelecidas.   

O conceito de autogenia, em Filosofia Clínica, tem a ver com o processo da terapia onde o partilhante, em tempo próprio, elabora sua expressividade em uma dialética singular, onde dentro e fora se integram em múltiplos ensaios de ser, não-ser, vir-a-ser, quase sempre em desacordo com a lógica de suas anterioridades. 

Um devir surpreendente costuma acompanhar as buscas da hora-sessão. Desde o acolhimento preliminar, exames categoriais, estrutura de pensamento e demais procedimentos clínicos, o filósofo se coloca numa disposição aventureira em comum acordo com as possibilidades da interseção.  

Com Gilles Deleuze: “(...) explorar os meios, por trajetos dinâmicos, e traçar o mapa correspondente. Os mapas dos trajetos são essenciais à atividade psíquica.” (Crítica e clínica, 2004. Pág. 73).

A busca por se traçar um mapa correspondente a cada malha intelectiva, tendo como referência a subjetividade partilhante, descreve uma abertura as lógicas do improvável, onde se pode localizar a fenomenologia das construções compartilhadas.  

São tantas as possibilidades interditas nas ações e interações da autogenia, que é possível até tentar classificar seus deslocamentos, contrariando a fonte de inspiração do novo paradigma: a singularidade. Nesse sentido, se destaca a equivocidade da oferta para cristalizar o ser singular, condicionando-o a um gesso interpretativo, como proposta de controle, manipulação, adequação.    

Assim a autogenia contida num cotidiano de atendimentos, tem a ver com os ensaios realizados pela via da interseção terapêutica, onde eventos de múltiplas faces buscam caminhos de integridade ao sujeito partilhante.

Deleuze ensina: “É como se alguns caminhos virtuais se colassem ao caminho real, que assim recebe deles novos traçados, novas trajetórias. Um mapa de virtualidades, traçado pela arte, se superpõe ao mapa real cujos percursos ela transforma.” (Crítica e clínica, 2004. Pág. 79). 

As vivências de consultório - em Filosofia Clínica - tem o privilégio de conviver com expressividades em estado nascente, por onde a pessoa desenvolve características a partir de seu próprio território subjetivo, ou seja, ao conviver com outras possibilidades existenciais, pode ressignificar-se de acordo consigo mesma sendo outra.

Em clínica não há que se falar em situações irreais nas dinâmicas de consultório, o que acontece são interações (roteiros, deslocamentos, reciprocidades, esteticidades, e algo mais) para investigar o ângulo de possíveis da pessoa consigo mesma, com a vida lá fora.    

Em Deleuze: “(...) não é a sintaxe formal ou superficial que regula os equilíbrios da língua, porém uma sintaxe em devir, uma criação de sintaxe que faz nascer a língua estrangeira na língua, uma gramática do desequilíbrio.” (Crítica e Clínica, 2004. Pág. 127).

Então fica definido que não haverá definição, ok? Sei das dificuldades para se navegar em alto mar com as próprias forças, no entanto, quando se aprende tal coisa, mar aberto pode significar novos horizontes, superando as âncoras do velho cais. Trata-se de recolocar as coisas em outra perspectiva, desconstruindo a mordaça institucional, a qual chega atrasada para legalizar novos territórios existenciais.

Com essa estética de acolher o imprevisível em cada um, se apresentam novos tempos, identificados pela multidão de pessoas distante dos holofotes, com uma percepção intuitiva diferenciada, para enxergar na Filosofia Clínica, algo novo em um oásis de acolhimento até então desconhecidos.      

Aquele abraço,

hs  

sábado, 12 de abril de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 50*

 

                                                       Extraordinário

O filme Extraordinário, de 2017, com roteiro de Jack Thorne, Steve Conrad e Stephen Chbosky, direção de Stephen Chbosky, oferece uma leitura sobre as dialéticas do convívio, ou seja, a inserção de um menino singular em uma escola comum, os agendamentos, as interseções, desdobramentos. 

Auggie Pullman tem um rosto diferente, em razão de problemas de nascimento. A medicina do corpo aponta a síndrome de Treacher Collins. Após ter aulas em casa com sua mãe, com 10 anos de idade o menino ingressa no quinto ano escolar. Nesse momento a obra retrata as contradições de se buscar apoio em uma escola onde se exercitam o preconceito, a discriminação, desvalorizando aquilo que não se vê à primeira vista.

A dedicação e o carinho, envolvimento dos pais, a irmã, o diretor da escola, parecem não bastar. Para se proteger, Auggie se utiliza de um capacete de astronauta para se proteger, ensaia regressar ao refúgio de sua casa com as aulas da mãe, fica revoltado com sua aparência.  

Uma leitura a partir do filme - semelhante a um bom livro - pode adquirir múltiplas facetas, de acordo com as possibilidades do espectador/leitor em sintonia com a obra. Assim destaca-se a proposta de um acolhimento compreensivo da singularidade, para superar o espírito de multidão.

Trata-se de um componente das tipologias, com suas sucessivas versões para dar conta de uma singularidade que se multiplica. As classificações distanciam as pessoas delas mesmas e dos outros. Sua intervenção, com a maquiagem científica, propõe submeter atitudes insubmissas a essa lógica.    

Nesse sentido, multiplicam-se diagnósticos e prognósticos ao fenômeno humano - cada vez mais surpreendente - ao invés de um estudo aprofundado das especificidades de cada um. Esses enquadramentos, enquanto prosseguirem inventando síndromes, transtornos, doenças mentais..., seguirão desconhecendo a pessoa além de um visar de superfície.    

Enquanto instituições de ensino e o espírito de multidão continuarem associados as definições da Psiquiatria, o festival de psicopatologias vai continuar. Possivelmente alguém esteja ganhando algo com isso. Michel Foucault em seu texto: O nascimento da clínica, elabora uma reflexão crítica sobre a ideologia (como ocultamento) das práticas da medicina. O pensador destaca as tipologias de controle, submissão, como ingredientes para abastecer a indústria da doença.  

Em nossos dias, reivindica-se estudos compartilhados para desenvolver a pesquisa inter e transdisciplinar, para quem sabe, superar a percepção (soberana) do ato médico, atribuindo a química, a biologia, o fator determinante para as contradições humanas e seus desdobramentos em somatização.    

Todas as pessoas nascem extraordinárias, até os rituais de civilização. A proposta de conter e adaptar expressividades, via de regra, oferece seu resultado ótimo: a pessoa acrítica, incapaz de refletir, analisar, os fundamentos da sociedade onde se encontra. A partir daí, o sujeito costuma ser tratado como algo a ser domesticado. Destacam-se a cumplicidade das famílias, igrejas, escolas, clubes, compondo uma trama recheada de boas intenções.

O filme tem um final esperado, reverenciando a diversidade, o acolhimento da singularidade de Auggie. A ficção parece acenar algo ainda sem tradução, distante do dia a dia de quem vê a vida do outro lado da tela, onde se multiplicam estigmas à guisa de conhecimento.

Cada vez mais a medicina do corpo se fasta de seu papel existencial cuidador, para se aventurar na fenomenologia da mente, a qual se esboça em linguagem própria, reivindicando método e interseção para acessar suas múltiplas versões. Nesse sentido a cultura segue refém dos agendamentos da Psiquiatria e seus coadjuvantes. Pretextando fazer ciência, na verdade renova a máxima de Paul Joseph Goebbels - chefe da propaganda nazista - onde uma mentira repetida mil vezes, se torna verdade.  

Aquele abraço,

hs  

terça-feira, 4 de março de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 49*

 

                                                     Desarrazoados 

A palavra possui múltiplas formas de expressão, quase sempre refém de seu uso. Compreender um sentido reivindica uma reciprocidade com suas circunstâncias, a querer dizer sobre a fonte de onde partiu. 

João Paulo Alberto Coelho Barreto (João do Rio), nasceu em 05/08/1881 na rua do Hospício, no Rio de Janeiro, partiu em 1921. O autor retratou com maestria sua cidade no início do século XX, ou seja, ao exercitar um aprendizado peripatético, semelhante aos pensadores gregos, caminhava e anotava o que via, sentia, percebia com os óculos de suas possibilidades.

É preciso talento para transcrever a fenomenologia das ruas, sua poética, peculiaridades, personagens, as casas e prédios colocados abaixo para renascer noutra esquina. As pessoas e seus trajes, chapéus, sapatos, convicções, inseguranças. Bem como aquilo que se refugia na expressividade de seus dias.      

João do Rio diz assim: “Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! (...) Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua.” (A alma encantadora das ruas, 2009. Pág. 29)

Em suas andanças o poeta recupera memórias, rascunha amanhãs, e algo mais. Parece querer entender a lógica da transposição da charrete pelo carro a motor. Quase ao mesmo tempo em que descreve as transformações da virada de século, também busca registrar sua história.

Seu espanto filosófico, poético, apresenta uma escrita singular, em tons de uma epistemologia-intuitiva. Suas páginas impregnadas de cotidiano acolhem sensações para seu diário. Sua tradução de espírito vagamundo, diz respeito ao flanar andarilho por entre as múltiplas cidades da mesma cidade.

Os manuscritos de um autor descrevem sua condição peculiar, falam de seu ângulo de visão, se assemelha a um convite para visitar - em perspectiva - seu território pessoal, numa aproximação com sua floresta de inéditos.

O autor refere: “Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel. Balzac dizia que as ruas de Paris nos dão impressões humanas. São assim as ruas de todas as cidades, com vida e destinos iguais aos do homem.” (A alma encantadora das ruas, 2009. Pág. 33)   

Ao pensar com Schopenhauer em seu Mundo como vontade e representação, se pode acessar dados de uma condição singular em seus textos, na expressão de sensações, ideias, vivências e convivências com a surpreendente lógica das ruas.  

A reinvenção da vida acontece com o despertar de um dia qualquer, -que nunca é um dia qualquer - repleto de possibilidades nas andanças pelas praças e calçadas, saboreando um café, a leitura do jornal, folhear livrarias, inaugurar, na provisoriedade do instante, horizontes vagamundos.    

O significado dessas coisas refugiadas no cotidiano, tem a ver com o sujeito em vias de perceber e sentir sua realidade. João do Rio transcreve para suas páginas, a fotografia dos seus deslocamentos. Seus apontamentos sobre a cidade traduzem uma versão sobre as poéticas do lugar.   

Com o poeta: “(...) são ruas da proximidade do mar, ruas viajadas, com a visão de outros horizontes. (...) Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm ideias, filosofia e religião. Há ruas inteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião. (A alma encantadora das ruas, 2009. Pág. 38).

Nesse sentido, ao falar dos espaços cotidianos, João do Rio destaca endereços existenciais por onde a vida acontece. Amores, desilusões, crenças, projetos de vida... A rua, sendo quase-pessoa, adquire feições de quem a frequenta, sua plasticidade se insinua para acolher quase-tudo, sem perder de vista o que escapa, quando se acredita já ter visto tudo o que há para ver.    

O texto onde se pode ler e reler essas narrativas - A alma encantadora das ruas - se assemelha ao velho álbum, por onde a história se imprime nas pedras da calçada, paralelepípedos das ruas, as páginas da memória. Aquilo que permanece enquanto muda. O poeta faz um convite para sentir a novidade em cada esquina. João do Rio, ao abordar sua singularidade, insinua ser multidão.   

Aquele abraço,

hs

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 48*

                                                  Enfermaria n. 6 

No inverno de 2006, em São Paulo, quando participava de um evento promovido pela APAFIC - Associação Paulista de Filosofia Clínica -, recebi um presente significativo, da colega e amiga Maria Luiza Nascimento, naquele tempo já uma das maiores filósofas clínicas deste país.

O presente foi o livro “O Beijo e outras histórias” de Anton P. Tchekhov, com uma especial recomendação: ler o conto “Enfermaria n. 6”, pois, segundo ela, tinha a ver comigo, com as coisas que eu acreditava, como e porque trabalhava. Um texto denso - como costumam ser os russos - distribuído em 66 páginas, numa tradução de Boris Schnaiderman.

A obra compartilha em suas páginas, múltiplos aspectos da condição humana, desde questões institucionais, burocráticas, as demarcações de território social, político, econômico, perpassando as relações entre médico e paciente em um asilo psiquiátrico, as segregações humanas em razão de crenças como: saúde e doença, normalidade e loucura. Bem assim, as atitudes, escolhas, simulacros de expressão em razão dos princípios de verdade.

Em outras palavras, descreve a normalidade como a adaptação das pessoas a uma realidade de cartas marcadas, a qualquer preço, refém de um saber-poder que se espraia por toda sociedade, como um tumor a impregnar ideias, pensamentos, atitudes, buscas. Embora o texto literário permita entrever as causas dos desajustes pessoais, ainda assim, quem determina os tratamentos - mesmo involuntários - é uma ideologia instituída por lei.     

Tchekhov indica: “(...) é o abobalhado judeu Moissieika, que perdeu a razão há uns vinte anos, quando se incendiou a sua oficina de chapeleiro.” (O beijo e outras histórias. Pág. 185).  

Esse fragmento sugere uma causa para o comportamento do personagem, ou seja, algo que poderia ser abordado e trabalhado de outra maneira, se existisse uma abordagem para tanto. Ao invés disso, a escolha recaiu numa internação para tratamento de sua saúde mental. A obra aborda uma questão de método em suas páginas, onde a lucidez reflexiva do autor descreve condições desumanas ao cuidado e atenção à vida.

Outro aspecto do texto de Tchekhov, é a forma como compartilha suas percepções sobre o mundo como representação, isto é, refere o louco como um humanista radical, por onde utiliza um vice conceito para traduzir sua visão das coisas, a forma como são tratadas as pessoas com devaneios, atitudes, formas de viver e conviver de natureza singular. 

No mesmo sentido, aponta a dificuldade em escrever sobre a fenomenologia do médico e sua interseção com os prisioneiros do hospício, algo, até então, incomum ao convívio com os internos. Andrei Iefímitch elabora vias de acesso as pessoas sob seus cuidados, acolhendo sua linguagem, costumes, as ações e seus significados, para compreender em reciprocidade. Assim reinventa a categoria lugar e a expressividade das sessões, dialogando com o sujeito e não mais o paciente.  

O autor transcreve: “Quando fala, você reconhece nele o louco e, ao mesmo tempo, a pessoa humana. É difícil transmitir no papel a sua fala demente. Ele trata da ignomínia dos homens, da coação, que oprime a verdade, da existência bela que, dentro de algum tempo, existirá sobre a terra, das grades nas janelas, que lhe recordam a todo momento o espírito embotado e as crueldades dos opressores.” (O beijo e outras histórias. Pág. 187)

Tchekhov se utiliza de um recurso conhecido como tradução, para realizar aproximações com o discurso existencial dos internos da enfermaria n. 6. Essa experiência de compartilhar instantes de escuta e conversação com pessoas desconsideradas socialmente, destituídas de quase tudo: incompreendidas, internadas, amarradas, desconstituídas de seu ser sujeito, ainda assim sobreviventes como pacientes psiquiátricos, a partir de então: doentes mentais, não raras vezes fabricados no laboratório alienista. A partir daí, refém de uma tipologia, restando uma forma peculiar de resistência, ou seja, a seleção de quando, com quem, o que compartilhar. Raramente essa escolha recai no médico psiquiatra, como no conto de Tchekov.  

O trecho recorda as grades na janela, representativa do espírito dos opressores, representados pela lei, pela psiquiatria e coadjuvantes, os princípios de verdade, a proposta por calar ou domesticar a inquietude existencial de uma expressão humana incompreendida.   

Tchekhov destaca: “Andrei Iefímitch senta-se sem tardança à mesa do escritório e começa a ler. Lê muitíssimo e sempre com grande prazer. Consome a metade do ordenado na compra de livros, e dos seis cômodos do seu apartamento três estão abarrotados de livros e revistas velhas.” (O beijo e outras histórias. Pág. 201)

A leitura, como um espaço de autocuidado e desenvolvimento pessoal, costuma acompanhar alguns terapeutas, os quais, encontram nas páginas de um livro, matéria-prima para compor a realidade de seu cotidiano. Andrei Iefímitch, utiliza sua relação com os livros e revistas, como um espaço de acolhimento, estudo, reflexão, em busca de um território subjetivo para seu devir. 

O contato com as obras oferece ao velho médico, uma medicação indisponível a quem não lê e não tem como saber do que se trata. A leitura e suas derivações, constituem um espaço de vida raras vezes traduzível pelas palavras conhecidas. Assim, Andrei Iefímitch, na medida em que associa suas leituras com as práticas de consultório, vai encontrando uma nova forma de se relacionar com as pessoas internadas, descobrindo singularidades em cada refém da enfermaria n. 6.

Esse ponto do texto oferece uma percepção sobre os rumos da história, ou seja, o médico oferece um acolhimento compreensivo a seus pacientes e, dessa forma, passa a ter a desconfiança dos demais integrantes da instituição, que consideram as pessoas internadas loucas, e o doutor deveria tratá-las com medicamentos, e não com diálogos, escuta, dando atenção aos seus delírios.     

O autor descreve: “Organizam-se espetáculos e bailes para os loucos, mas assim mesmo eles não são postos em liberdade. Quer dizer que tudo é tolice e vaidade, e, em essência, não há nenhuma diferença entre a melhor clínica vienense e o meu hospital.” (O beijo e outras histórias. Pág. 208)

Um aspecto desses asilos onde se acumulam pessoas, à guisa de tratamento psiquiátrico, são as atividades consideradas complementares, paliativas, para distrair, conforme as crenças da instituição. Por outro lado, se pode retirar alguns ensinamentos desses eventos, como: bailes, exercícios físicos, atividades de estética, num convívio onde costumam aflorar expressividades até então sufocadas.

Esse relato do autor sobre a relação da melhor clínica vienense e o hospital descrito em suas páginas, se assemelha, em nosso país, com a realidade do SUS (medicina pública) e os hospitais privados, os quais diferem - na maioria das vezes - pelas instalações, pois os profissionais estudam as mesmas coisas. Os atendimentos, muitas vezes, na esfera pública, costumam ser bem-sucedidos, oferecendo a população desassistida economicamente, um acolhimento diferenciado, enquanto naqueles outros, a preferência é pelo saldo do plano de saude. 

Um exemplo: uma pessoa em estágio terminal, num leito de hospital público, após as intervenções necessárias para conceder-lhe qualidade de vida, ao se constatar sua impossibilidade, a deixam partir em tempo próprio. As instituições privadas, no entanto, costumam ter outra postura, isto é, dependendo da disponibilidade financeira do paciente, a vida - ou que  resta dela - poderá ficar ligada a aparelhos (CTIs) por muito tempo, sugerindo uma cura que não vai chegar.  

Em um dos diálogos entre o velho médico e um de seus interlocutores na enfermaria n. 6, é possível perceber alguns apontamentos de natureza filosófica, distantes do olhar tecnicista do alienista.  

Anton Tchekov compartilha: “O senhor é um homem que pensa, que reflete. Em qualquer circunstância, pode encontrar em si mesmo um meio de se tranquilizar. O pensamento livre e profundo que procura compreender (...) a vida, e um desprezo absoluto às vaidades estúpidas do mundo – eis os dois bens mais elevados que o homem jamais conheceu. E o senhor pode possuí-los, ainda que viva atrás de três grades. Diógenes viveu num barril, embora fosse mais feliz que todos os reis da terra.”  (O beijo e outras histórias. Pág. 214)

Quando um terapeuta se coloca em reciprocidade com uma pessoa - internada ou não - não é raro, ao visitar sua singularidade, agregar uma matéria-prima resultante dessa interseção, bem como procedimentos para desenvolver uma vida de maior integridade com o outro e consigo mesmo.  

Um subproduto da sociedade contemporânea é a padronização de abordagens terapêuticas, as quais, encontram no hospício, um dos últimos redutos das torturas medievais, onde se encarceravam e submetiam pessoas com as quais não se conseguia manter uma relação clínica. Dessa forma ao desqualificar o sujeito, produziam - e seguem produzindo - doença mental para insinuar uma cura, em estreita conexão com uma sociedade cúmplice.  

Para acessar uma singularidade, é preciso bem mais do que fórmulas prontas, narrativas psiquiátricas, ou um conhecimento com base em experiências. É preciso uma aproximação com o outro para conhecê-lo em seu território existencial. As peculiaridades, lugar, tempo, relações, a linguagem, jeitos e trejeitos, valores, e o que mais aparecer. Como um bom livro, essa prática reivindica tempo, dedicação, paciência, acolhimento e estudo com o outro para compartilhar algo que lhe faça sentido.   

A questão ideológica aparece nos desdobramentos da obra de Tchekov da seguinte forma: “Saindo da prefeitura, Andréi Iefímitch (o velho médico) compreendeu que fora examinado por uma comissão, encarregada de verificar o seu estado mental. Lembrou-se das perguntas que lhe foram feitas, corou e por alguma razão, pela primeira vez na vida, teve uma pena profunda da medicina.” (O beijo e outras histórias. Pág. 227)

Mentes brilhantes como: Michel Foucault, Gilles Deleuze, Fritjof Capra, Franz Kafka, e outros, trabalham em suas obras a questão do controle, da manipulação social pelas ideologias estruturadas para conter expressividades. Em outras palavras, quando alguém insinua viver, conviver, trabalhar, de forma diferenciada, esse aspecto, por si só, pode determinar uma clausura existencial ou um banimento, muitas vezes traduzida numa internação involuntária, seja num manicômio ou numa salinha de 2x2, para carimbar papéis.

Existem muitas formas de exílio, talvez a mais festejada seja a exclusão de uma pessoa de sua profissão, por ter posturas de acolhimento as lógicas da diferença, ainda mais se tratar-se de um novo paradigma, aí então, irá mexer com as referências de saber-poder, seus rituais de ensino-aprendizagem, alienação disfarçada de boas intenções, e algo mais, distante de uma reflexão e análise crítica de seus pressupostos.

O crime de Andréi Iefímitch? Acolher e dialogar com os internos da enfermaria. A partir daí, seu comportamento é denunciado como cumplice da loucura, servindo para a substituição no cargo de diretor médico e sua própria internação na enfermaria n. 6.

Sorria! Você está sendo filmado!

Aquele abraço,

hs