
Enfermaria n. 6
No inverno de 2006, em São Paulo,
quando participava de um evento promovido pela APAFIC - Associação Paulista de Filosofia
Clínica -, recebi um presente significativo, da colega e amiga Maria Luiza
Nascimento, naquele tempo já uma das maiores filósofas clínicas deste país.
O presente foi o livro “O
Beijo e outras histórias” de Anton P. Tchekhov, com uma especial
recomendação: ler o conto “Enfermaria n. 6”, pois, segundo ela, tinha a ver
comigo, com as coisas que eu acreditava, como e porque trabalhava. Um texto
denso - como costumam ser os russos - distribuído em 66 páginas, numa tradução
de Boris Schnaiderman.
A obra compartilha em suas
páginas, múltiplos aspectos da condição humana, desde questões institucionais,
burocráticas, as demarcações de território social, político, econômico,
perpassando as relações entre médico e paciente em um asilo psiquiátrico, as
segregações humanas em razão de crenças como: saúde e doença, normalidade e
loucura. Bem assim, as atitudes, escolhas, simulacros de expressão em razão dos
princípios de verdade.
Em outras palavras, descreve a
normalidade como a adaptação das pessoas a uma realidade de cartas
marcadas, a qualquer preço, refém de um saber-poder que se espraia por toda sociedade, como um
tumor a impregnar ideias, pensamentos, atitudes, buscas. Embora o texto
literário permita entrever as causas dos desajustes pessoais, ainda assim, quem
determina os tratamentos - mesmo involuntários - é uma ideologia instituída por
lei.
Tchekhov indica: “(...) é o
abobalhado judeu Moissieika, que perdeu a razão há uns vinte anos, quando se
incendiou a sua oficina de chapeleiro.” (O beijo e outras histórias. Pág. 185).
Esse fragmento sugere uma causa
para o comportamento do personagem, ou seja, algo que poderia ser abordado e
trabalhado de outra maneira, se existisse uma abordagem para tanto. Ao invés
disso, a escolha recaiu numa internação para tratamento de sua saúde mental.
A obra aborda uma questão de método em suas páginas, onde a lucidez
reflexiva do autor descreve condições desumanas ao cuidado e atenção à vida.
Outro aspecto do texto de
Tchekhov, é a forma como compartilha suas percepções sobre o mundo como
representação, isto é, refere o louco como um humanista radical, por onde
utiliza um vice conceito para traduzir sua visão das coisas, a forma como são
tratadas as pessoas com devaneios, atitudes, formas de viver e conviver de natureza singular.
No mesmo sentido, aponta a
dificuldade em escrever sobre a fenomenologia do médico e sua interseção com os
prisioneiros do hospício, algo, até então, incomum ao convívio com os internos.
Andrei Iefímitch elabora vias de acesso as pessoas sob seus cuidados, acolhendo
sua linguagem, costumes, as ações e seus significados, para compreender em
reciprocidade. Assim reinventa a categoria lugar e a expressividade das sessões,
dialogando com o sujeito e não mais o paciente.
O autor transcreve: “Quando fala,
você reconhece nele o louco e, ao mesmo tempo, a pessoa humana. É difícil
transmitir no papel a sua fala demente. Ele trata da ignomínia dos homens, da
coação, que oprime a verdade, da existência bela que, dentro de algum tempo,
existirá sobre a terra, das grades nas janelas, que lhe recordam a todo momento
o espírito embotado e as crueldades dos opressores.” (O beijo e outras
histórias. Pág. 187)
Tchekhov se utiliza de um recurso
conhecido como tradução, para realizar aproximações com o discurso existencial
dos internos da enfermaria n. 6. Essa experiência de compartilhar instantes de escuta
e conversação com pessoas desconsideradas socialmente, destituídas de quase
tudo: incompreendidas, internadas, amarradas, desconstituídas de seu ser
sujeito, ainda assim sobreviventes como pacientes psiquiátricos, a partir de
então: doentes mentais, não raras vezes fabricados no laboratório
alienista. A partir daí, refém de uma tipologia, restando uma forma peculiar de
resistência, ou seja, a seleção de quando, com quem, o que compartilhar. Raramente
essa escolha recai no médico psiquiatra, como no conto de Tchekov.
O trecho recorda as grades na
janela, representativa do espírito dos opressores, representados pela lei, pela
psiquiatria e coadjuvantes, os princípios de verdade, a proposta por calar ou domesticar
a inquietude existencial de uma expressão humana incompreendida.
Tchekhov destaca: “Andrei
Iefímitch senta-se sem tardança à mesa do escritório e começa a ler. Lê
muitíssimo e sempre com grande prazer. Consome a metade do ordenado na compra
de livros, e dos seis cômodos do seu apartamento três estão abarrotados de
livros e revistas velhas.” (O beijo e outras histórias. Pág. 201)
A leitura, como um espaço de
autocuidado e desenvolvimento pessoal, costuma acompanhar alguns terapeutas, os
quais, encontram nas páginas de um livro, matéria-prima para compor a realidade
de seu cotidiano. Andrei Iefímitch, utiliza sua relação com os livros e
revistas, como um espaço de acolhimento, estudo, reflexão, em busca de um
território subjetivo para seu devir.
O contato com as obras oferece ao
velho médico, uma medicação indisponível a quem não lê e não tem como saber do
que se trata. A leitura e suas derivações, constituem um espaço de vida raras
vezes traduzível pelas palavras conhecidas. Assim, Andrei Iefímitch, na medida
em que associa suas leituras com as práticas de consultório, vai encontrando
uma nova forma de se relacionar com as pessoas internadas, descobrindo singularidades
em cada refém da enfermaria n. 6.
Esse ponto do texto oferece uma percepção sobre os rumos da história, ou seja, o médico oferece um acolhimento
compreensivo a seus pacientes e, dessa forma, passa a ter a desconfiança dos
demais integrantes da instituição, que consideram as pessoas internadas loucas,
e o doutor deveria tratá-las com medicamentos, e não com diálogos, escuta, dando
atenção aos seus delírios.
O autor descreve: “Organizam-se
espetáculos e bailes para os loucos, mas assim mesmo eles não são postos em
liberdade. Quer dizer que tudo é tolice e vaidade, e, em essência, não há
nenhuma diferença entre a melhor clínica vienense e o meu hospital.” (O beijo e
outras histórias. Pág. 208)
Um aspecto desses asilos onde se
acumulam pessoas, à guisa de tratamento psiquiátrico, são as atividades
consideradas complementares, paliativas, para distrair, conforme as crenças da
instituição. Por outro lado, se pode retirar alguns ensinamentos desses eventos,
como: bailes, exercícios físicos, atividades de estética, num convívio onde
costumam aflorar expressividades até então sufocadas.
Esse relato do autor sobre a
relação da melhor clínica vienense e o hospital descrito em suas páginas, se
assemelha, em nosso país, com a realidade do SUS (medicina pública) e os
hospitais privados, os quais diferem - na maioria das vezes - pelas instalações,
pois os profissionais estudam as mesmas coisas. Os atendimentos, muitas vezes, na
esfera pública, costumam ser bem-sucedidos, oferecendo a população desassistida
economicamente, um acolhimento diferenciado, enquanto naqueles outros, a
preferência é pelo saldo do plano de saude.
Um exemplo: uma pessoa em estágio
terminal, num leito de hospital público, após as intervenções necessárias para conceder-lhe
qualidade de vida, ao se constatar sua impossibilidade, a deixam partir em
tempo próprio. As instituições privadas, no entanto, costumam ter outra postura,
isto é, dependendo da disponibilidade financeira do
paciente, a vida - ou que resta dela -
poderá ficar ligada a aparelhos (CTIs) por muito tempo, sugerindo uma cura que não vai chegar.
Em um dos diálogos entre o velho
médico e um de seus interlocutores na enfermaria n. 6, é possível perceber
alguns apontamentos de natureza filosófica, distantes do olhar tecnicista do
alienista.
Anton Tchekov compartilha: “O
senhor é um homem que pensa, que reflete. Em qualquer circunstância, pode
encontrar em si mesmo um meio de se tranquilizar. O pensamento livre e profundo
que procura compreender (...) a vida, e um desprezo absoluto às vaidades
estúpidas do mundo – eis os dois bens mais elevados que o homem jamais
conheceu. E o senhor pode possuí-los, ainda que viva atrás de três grades.
Diógenes viveu num barril, embora fosse mais feliz que todos os reis da terra.”
(O beijo e outras histórias. Pág. 214)
Quando um terapeuta se coloca em
reciprocidade com uma pessoa - internada ou não - não é raro, ao visitar sua
singularidade, agregar uma matéria-prima resultante dessa interseção, bem como
procedimentos para desenvolver uma vida de maior integridade com o outro e consigo
mesmo.
Um subproduto da sociedade
contemporânea é a padronização de abordagens terapêuticas, as quais, encontram
no hospício, um dos últimos redutos das torturas medievais, onde se encarceravam
e submetiam pessoas com as quais não se conseguia manter uma relação clínica.
Dessa forma ao desqualificar o sujeito, produziam - e seguem produzindo - doença
mental para insinuar uma cura, em estreita conexão com uma sociedade
cúmplice.
Para acessar uma singularidade, é
preciso bem mais do que fórmulas prontas, narrativas psiquiátricas, ou um
conhecimento com base em experiências. É preciso uma aproximação com o outro para
conhecê-lo em seu território existencial. As peculiaridades, lugar, tempo,
relações, a linguagem, jeitos e trejeitos, valores, e o que mais aparecer. Como
um bom livro, essa prática reivindica tempo, dedicação, paciência, acolhimento
e estudo com o outro para compartilhar algo que lhe faça sentido.
A questão ideológica aparece nos
desdobramentos da obra de Tchekov da seguinte forma: “Saindo da prefeitura,
Andréi Iefímitch (o velho médico) compreendeu que fora examinado por uma
comissão, encarregada de verificar o seu estado mental. Lembrou-se das perguntas
que lhe foram feitas, corou e por alguma razão, pela primeira vez na vida, teve
uma pena profunda da medicina.” (O beijo e outras histórias. Pág. 227)
Mentes brilhantes como: Michel
Foucault, Gilles Deleuze, Fritjof Capra, Franz Kafka, e outros, trabalham em
suas obras a questão do controle, da manipulação social pelas ideologias estruturadas
para conter expressividades. Em outras palavras, quando alguém insinua viver,
conviver, trabalhar, de forma diferenciada, esse aspecto, por si só, pode
determinar uma clausura existencial ou um banimento, muitas vezes traduzida
numa internação involuntária, seja num manicômio ou numa salinha de 2x2, para
carimbar papéis.
Existem muitas formas de exílio,
talvez a mais festejada seja a exclusão de uma pessoa de sua profissão, por ter
posturas de acolhimento as lógicas da diferença, ainda mais se tratar-se de um
novo paradigma, aí então, irá mexer com as referências de saber-poder, seus
rituais de ensino-aprendizagem, alienação disfarçada de boas intenções, e algo
mais, distante de uma reflexão e análise crítica de seus pressupostos.
O crime de Andréi Iefímitch?
Acolher e dialogar com os internos da enfermaria. A partir daí, seu
comportamento é denunciado como cumplice da loucura, servindo para a
substituição no cargo de diretor médico e sua própria internação na enfermaria
n. 6.
Sorria! Você está sendo filmado!
Aquele abraço,
hs