Filosofia clínica e discurso existencial | Sílex
Boas leituras e releituras!
Aquele abraço,
*hs
*Resenha de Ana Bia para o site: https://proximolivro.net/
A vida é uma dança imprevisível
entre o que conhecemos e o que ousamos explorar. “Pérolas Imperfeitas:
Apontamentos Sobre as Lógicas do Improvável”, de Hélio Strassburger, não se
contenta em ser apenas uma leitura; é um convite a questionar as realidades que
nos cercam. Com uma prosa ligeira e provocante, Strassburger oferece um
vislumbre das complexidades do cotidiano, os fragmentos de beleza que só
emergem na imperfeição.
A obra se faz acompanhar de
reflexões que transitam entre o inesperado e o banal, revelando que muitas
vezes são as falhas que nos fazem humanos. Em suas páginas, você encontrará a
essência das pepitas de sabedoria que surgem na adversidade e nos desafios
diários. Ao longo de 142 páginas de puro deleite, Strassburger despiu-se de
qualquer formalismo excessivo e, em vez disso, abraçou a autenticidade. A
narrativa se torna um espelho, refletindo nossas próprias lógicas do
improvável, fazendo você refletir sobre as suas próprias experiências de vida e
as lutas pessoais que moldam seu ser.
Os leitores se dividem entre os
que se sentem revigorados pelo estilo ousado e direto do autor, e aqueles que,
talvez, esperavam algo mais linear. O que é claro é que a prosa de Strassburger
provoca reações intensas: muitos se sentem inspirados a embarcar em uma jornada
de autodescoberta, enquanto outros criticam a falta de uma estrutura mais
convencional. Mas quem precisa de convenções quando a vida, com todas suas
reviravoltas, nos ensina a improvisar?
Neste cenário onde a lógica as
vezes falha, a obra provoca risos, lágrimas e um profundo pensar crítico. O
autor não está só debatendo o improvável; ele deixa a porta escancarada para
que você possa entrar e vivenciar a imperfeição como um valor vital. Aqui
reside a verdadeira pérola: a aceitação do inusitado como parte da história
humana.
Com uma sensibilidade quase
poética, Hélio Strassburger se coloca como um maestro das palavras: cada frase
e cada aponto são notas que compõem uma melodia de introspecção, trazendo à
tona a beleza nas falhas e nas incertezas do ser. Você já parou para pensar nas
suas próprias pérolas imperfeitas? Aqueles momentos que, à primeira vista,
parecem ser um desastre, mas que, com o tempo, revelam-se extraordinários?
Na cultura contemporânea, repleta
de superficialidades, o autor consegue nos cutucar para sairmos da zona de
conforto. Ele nos faz lembrar que, por trás de cada imperfeição, podemos
encontrar histórias ricas e cheias de vida. Não é apenas uma leitura; é uma
experiência transformadora que modela sua visão de mundo e de si mesmo.
Deixe que Pérolas Imperfeitas
invada sua mente e seu coração. Esteja pronto para questionar e, quem sabe,
reinventar suas próprias lógicas do improvável, pois, em última análise, a
beleza reside justamente nas imperfeições. Você está disposto a embarcar nessa
viagem de autodescoberta e reflexão? O que você vai fazer com essas novas
pérolas adquiridas? A escolha é sua! 🌊✨️
📖 Pérolas Imperfeitas: Apontamentos Sobre
as Lógicas do Improvável. Ed. Sulina/Porto Alegre/RS. 2012.
✍ by Hélio Strassburger
🧾 142 páginas
E você? O que acha deste livro?
Comente!
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*Ana Bia
Fora de foco
O filme Desconstruindo Harry
é de 1997. Tem a duração de 1h35min. Escrito, dirigido, representado por Woody
Allen e convidados. A obra se aproxima da nova abordagem terapêutica da
Filosofia Clínica, especialmente com roteiros de autogenia, espacialidade
intelectiva, e outros. No entanto se distancia, quando o fenômeno humano
singular é tratado como algo universal, coisificado, refém de tipologias,
estereótipos, protocolos.
Um aspecto vinculado aos deslocamentos
intelectivos, se refere a pluralidade de expressões, derivações, para integrar
o roteiro, tendo por base uma só matriz descritiva. Em outras palavras, trata-se
de textos dentro de um texto, num convite para o leitor/espectador acompanhar a
interseção do centro com suas margens. Vivenciar as sensações que se oferecem
na história.
No mesmo sentido, um pouco antes
de ir ao cinema, autor e obra se confundem em sua redação. Os personagens se
mesclam na criatividade dos roteiros. O texto se assemelha a uma autobiografia para
as telas.
O filme convida a superar as
cenas iniciais, onde facilmente se poderia cair numa armadilha interpretativa,
acreditando saber, de antemão, do que se trata, para onde a obra se dirige. A
trama surpreende o tempo todo, onde realidade e ficção se reapresentam para dizer
e desdizer quase tudo.
A escritura do autor se desdobra
para encontrar o cinema. As múltiplas estórias em um mesmo roteiro elaboram -
com o espectador - um contrato de lógica absurda, próximo do drama kafkiano.
Múltiplos papéis existenciais redigem seus originais, onde as franjas e
periferias integram uma coisa para ser outra.
O discurso da personagem ao invadir
a casa de Harry Block (Allen): “Você acabou com a minha vida e agora vou me
matar aqui, na sua frente, no seu carpete”, o escritor: “você é uma
desequilibrada”, ela rebate: “Sim, por isso você me escolheu! (...), quem mais
me convenceria a fazer sexo oral no enterro do meu pai?”, a cena prossegue com
outros diálogos desencontrados, ameaças, acusações, relação compartilhada pela desestrutura.
Pouco depois, em nova cena, com a
trilha sonora de “garota de Ipanema”, o filme prossegue, agora em nova
perspectiva, convidando o espectador a experienciar uma mudança de rota, onde o
enredo principal dialoga com suas derivações.
A obra é contextualizada num
ambiente vintage, onde o ator/escritor/roteirista/diretor trabalha em
seu apartamento, a meia luz, dedilhando sua Remington, lugar para expressão de suas
ideias e criatividade. Um refúgio para sua singularidade.
Em outro momento Harry Block aparece
deitado num divã, com o analista a sua cabeceira. Fato recorrente numa obra de
inspiração psicanalítica, apesar das críticas que o autor lhe concede. Ao longo
da história surgem nuances da escritura de Woody Allen, com sua digital impressa
nas cenas e personagens de sua obra. Muitas vezes se tem a sensação de ver e
ouvir sua voz por todo lado.
A sequência traz o escritor
novamente em terapia, dizendo de sua preferência por prostitutas: “não consigo
me acertar no amor (...) eu ainda adoro prostitutas, sabe? você faz o que tem de fazer, paga e elas vão
embora. Você não tem que falar de Proust, filmes, e mais nada”.
Quando a terapeuta faz uma
intervenção: “O conto que você estava trabalhando” ... Harry relembra: “a
câmera está fora de foco. O ator está fora de foco. O Mell está fora de foco”.
(...) Quando chega em casa a mulher diz: “você está estranho”, ele: “sim, estou
fora de foco”, ela: “você está borrado”, ele: “estou passando por uma coisa que
não sei o que é. (...) Não consigo escrever, não vem”.
Na cena seguinte o personagem se
apaixona por sua terapeuta. O narrador onipresente: “Para Epstein, finalmente
encontrava a mulher ideal, alguém que o compreendia”. Mais uma vez oferecendo
uma leitura não-linear, Harry encontra na rua seu outro eu, aquele do momento
inicial do filme, onde conversam. “Quem é você?” ele pergunta, o outro responde:
“sou quem você criou e agora não me reconhece? (...) eu sou você, um pouco
disfarçado.”
Em outro momento, quando sua nova
terapeuta, em sessão com o escritor, deixa de lado seu papel existencial para
ir à sala ao lado, onde encontra o personagem do divã sendo outro - num raro instante
onde Harry Block e Woody Allen são o mesmo -, passam a discutir sua relação, tendo
como motivação um relato da terapia. Uma estética para traduzir realidade e
ficção como algo ainda sem nome. Em Filosofia Clínica a fenomenologia da
hora-sessão se aproxima desse outro lugar onde as pessoas se encontram.
A seguir, em um novo
desdobramento do filme, Harry Block vai ao submundo e encontra o anjo decaído.
Um breve embate entre eles: o escritor: “eu sou mais poderoso que você, pois
sou um grande pecador e você é um anjo caído (...) Uma vez quase atropelei um
crítico literário, desviei no último instante”. O anjo caído: “quer que ligue o
ar-condicionado?” Harry: “tem ar-condicionado aqui?” o anjo: “Sim, destrói a
camada de ozônio”.
Questionado das razões por estar
no inferno e não no céu, o escritor responde pelo anjo: “é melhor mandar aqui
do que servir no céu, acho que foi Milton que falou isso”.
Em outra cena, Harry vai receber
uma homenagem na universidade onde estudou. Para isso convida uma prostituta
para lhe acompanhar, chegando lá é preso, acusado de sequestrar seu filho. Os
amigos pagam sua fiança, ele é solto.
Após, chega à homenagem da
universidade e pergunta aos colegas: “posso levar mais alguém?”. Quando respondem: “é claro, o sonho é seu! Todos
esperam para homenageá-lo, afinal, você os criou.” Em suas reflexões Harry
pensa: “Como pode um cara que não funciona na vida real, funcionar na arte?”.
Uma personagem tenta traduzir: “Seus livros parecem um pouco tristes na
superfície, por isso eu gosto de desconstruí-los, pois no fundo são felizes.”
Nesse sentido o autor compartilha
uma história recheada de estórias, para descrever-se em seus escritos. Uma
ficção por onde a realidade transita, revelando aspectos desconhecidos. Ao retornar para sua casa e reencontrar sua Remington, tem a ideia para um
romance. Segundo ele: “A nova obra irá oferecer uma descrição de como nossas
vidas consistem na forma que escolhemos distorcê-las”. Sua escrita - mais uma
vez - salvou sua vida.
Aquele abraço,
*hs
A mitologia Grega descreve Proteu
como um deus marinho com habilidade para assumir múltiplas formas. Seu rol de
competências integra versatilidade, adaptabilidade, flexibilidade.
Ao ter uma plasticidade apta a se
moldar e conviver com circunstâncias difusas, essa espécie se assemelha ao
papel existencial do filósofo clínico, o qual, sem perder de vista sua
expressividade é capaz de acolher, visitar, interagir com as lógicas da
diferença.
Essa característica pode ser
ininteligível, sem um borogodó para acessar uma condição singular. Nossa
cultura impregnada das metodologias da tradição, referendadas pela lógica: você
sabe com quem está falando? E os acréscimos infindáveis de novas patologias, em busca da sustentação corporativa, aprisionam o fenômeno humano em uma
só versão.
A definição acadêmica acredita
ter uma base sólida para suas convicções sobre as pessoas. Assim propõe narrativas
para sustentar ideologias sem comprovação objetiva. A estrutura de pensamento, ao
ser singular, multifacetada, reivindica uma abordagem em sintonia com seu devir
existencial.
A lógica Proteu possui uma
relação contraditória com o gesso diagnóstico. Nesse sentido, é fácil entender
seu desajuste com agendamentos de para sempre, ou seja, a palavra-lei
do alienista e sua sentença de prisão perpétua. A cristalização humana sob a
ótica psiquiátrica, passa a ter nomes: síndromes, espectros, autismos,
esquizofrenias, ao gosto de uma ideologia disfarçada de medicina, sua proposta? Engessar expressividades num
molde socialmente aceito.
É necessário esclarecer que doenças
mentais não existem, são fabricadas por uma estrutura articulada, que
inclui universidades, escolas de pós-graduação, hospícios, clínicas de saúde
mental. Inventadas para submeter pessoas que apreciam pensar, refletir,
analisar, questionar, contraditórias com a hegemonia da burrice a qualquer
preço.
A oferta generosa de diagnósticos,
prognósticos, é submissa a lógica da indústria de psicofármacos e seus lucros faraônicos,
a qual encontra profissionais para desempenhar o papel de caixeiro-viajante
para suas drogas. Suas suposições não
aparecem em exames clínicos de laboratório: exame de sangue, urina, eletros...,
mas em práticas para sustentar corporativismos e distorções interpretativas. Esse
ponto ajuda a entender os agendamentos para a fabricação da loucura.
Ao tratar sujeitos para
normalizar condutas, o que aparece, junto a figura do Psiquiatra, é a própria
anomalia diante do outro. Assim parece coerente interpretar pessoas em vias de
não-ser, como refém de um olhar que vê razão e desrazão em tudo que toca.
O imenso território subjetivo
permanece desconhecido por inteiro, isto é, com a hegemonia das
universalizações, classificações que se somam a cada dia, se acredita poder
conter a singularidade humana em tipos conformados a um só olhar.
Não é raro, em hospitais
psiquiátricos, os profissionais que lá atuam, terem comportamentos
semelhantes aos internos com os quais trabalham. Parece inexistir uma reflexão
sobre o fato de que ao criar uma promessa de cura ou controle para
suas invenções e distorções interpretativas, a Psiquiatria segue amparada por
lei, a produzir loucura diante do espelho. Questão de método!
Talvez a proposta de incluir nos
cursos de Medicina disciplinas como: Antropologia, Filosofia Clínica, Sociologia,
pudesse ajudar a emancipar práticas cuidadoras em lugares onde a fratura
exposta da sociedade se manifesta com força, ritmo, singularidade. Tenho
dúvidas se a arrogância de gestores e professores dessas escolas, teriam a
sensibilidade, humildade, sabedoria, para perceber o alcance limitado de suas
técnicas de conversão do fenômeno humano a um devir existencial incabível a um
padrão de normalidade.
Os diálogos inter e
transdisciplinares poderiam contribuir com a ressignificação dos limites ideológicos,
no entanto, antes de qualquer metodologia, é preciso encontrar profissionais
diferenciados em cada área de atuação, abertos a uma investigação compartilhada sobre o que se tinha até então e os novos paradigmas como a Filosofia Clínica. Lógica Proteus!
Aquele abraço,
*hs
Um sujeito extraordinário
O filme: A vida extraordinária
de Louis Wain, com direção de Will Sharpe, Reino Unido, 2021, com duração
de 1h51min, encontrada no Prime, apresenta um esboço da vida do artista inglês,
sua condição excepcional ao pintar gatos com agilidade e maestria.
Sua estética se reveste de paixão
dominante e expressividade, traduzindo o que acha de si mesmo, sua
representação de mundo, também oferece outras percepções sobre sua
singularidade.
As teorias de base Psi vão
encontrar síndromes, transtornos, doença mental no personagem, uma vez que
Louis não abre mão de ser quem é, numa sociedade (final do séc. 19 e início do
séc. 20) impregnada de ranços interpretativos, onde se acreditava que ser feliz
era ser aceito socialmente. Lembrando Aristóteles e Schopenhauer: todo mundo é
ninguém!
Hoje em dia quase nada mudou! Quando
vejo ex-alunos em busca de aceitação, tentando oferecer uma mescla de Filosofia
Clínica com Psicanálise ou Psicologia, percebo que ainda temos dificuldades com
o ser sujeito em cada um. Me parece uma covardia epistemológica a tentativa de
acochambrar metodologias excludentes, produzindo um Frankenstein em suas
práticas.
Quando isso acontece e algo não
dá certo, ainda se tem de ouvir coisas como: ‘essa Filosofia Clínica não
funciona, carece de fundamentação...’, dentre outras preciosidades. Na base
dessa problemática é possível encontrar estudos de formação frágeis, com escassez de teoria e prática, associados a um
candidato apressado para acenar sua ignorância aos quatro ventos.
Louis Wain pode ser entendido de
muitas maneiras, tantas quantas as pessoas em busca de acessar seu jeito de ser,
não-ser, em conflito com os princípios de verdade de seu tempo. A nomenclatura
de surrealista, embora não o traduza por inteiro, parece ser adequada a sua
condição pessoal. Sua expressividade é incabível nos apontamentos da crítica especializada.
Uma busca que se mantém, lado a
lado com sua manifestação artística, é a tentativa de decifrar a eletricidade
do mundo. Noutras palavras, identificar a motivação para a vida de cada um, uma
espécie de mapa subjetivo para encontrar a singularidade.
Outro aspecto significativo na
obra é o fato de Louis Wain viver com as irmãs, as quais não o entendem e
acreditam que ele tenha alguma forma de loucura ou extravagância. O que ameniza
essa situação é o fato do artista bancar economicamente a vida da família com
seu trabalho. Aliás esse é um indicativo legal da psiquiatria, ou seja, para
alguém ser considerado são, basta ter boas relações com a cadeia produtiva do
capitalismo.
Algo novo acontece quando suas
irmãs resolvem contratar uma governanta para a casa. A chegada de Emily
Richardson, uma pessoa que compreende seu jeito de ser, logo chama a atenção de
Louis. Um amor se instala entre eles, desafiando, mais uma vez, as convenções
da época, pois uma relação afetiva entre patrão e empregada era inconcebível.
Louis Wain é execrado pela
família, apontado na rua por transgredir costumes. No entanto, nada disso o abala,
assumindo sua relação e casando-se com Emily, mudando de casa para
viver sua vida nova.
Nesse período da biografia sua
atividade criativa parece atingir seu ponto máximo. Mais tarde algo acontece
para desagregar esses momentos, os quais retornam mais adiante, para firmar sua
expressividade e paixão dominante na arte de desenhar gatos. Nesse ponto, já no
final da vida, tem seu trabalho reconhecido, como uma espécie de prêmio de consolação.
A saga de distanciar pessoas de
sua melhor expressão continua. Os dias de hoje (séc. 21) ainda se sustentam na
hipocrisia social, recheada de boas intenções. A maioria se associa em rede
para significar o fenômeno humano como algo comum. A emancipação de uma habilidade
ou competência pessoal, pode custar caro ao sujeito, o qual nem sempre terá
condições de superar os obstáculos de seu meio.
Talvez filmes, o teatro, literatura, música, as belas artes - terapia nem pensar, para quem acredita
ter tudo o que precisa -, possam oferecer pistas a cada um, insinuando o extraordinário às margens da própria estrutura de pensamento.
Aquele abraço,
*hs
Um senso de absurdo excepcional
Uma fenomenologia da leitura
vincula-se a filosofia clínica em um convívio entre realidade e
ficção. As vivências entre uma e outra, descritas nas práticas de leitura e
eventos da hora-sessão, conjugam ingredientes de raridade ao borogodó para
papéis existenciais como: leitor e filósofo clínico.
Ao pensar com a ajuda de Alberto
Manguel, onde este discorre sobre sua relação com Jorge Luis
Borges em Buenos Aires, quando aquele ainda era um livreiro do qual este se
socorria para acessar as novidades literárias na capital Argentina.
Em seu texto Com Borges,
Manguel descreve vivências onde a interseção acontecia através dos livros.
O autor indica: “Para Borges, o
âmago da realidade estava nos livros: em ler livros, escrever livros, conversar
sobre livros.” (Com Borges, 2022. Pág. 29).
Assim os termos agendados no
intelecto servem como uma interlocução onde os envolvidos
estabeleçam uma conexão pelas palavras, seus múltiplos sentidos e derivações. Com
isso uma adição de pontos de vista, reflexões, sensações, análises, cuidam da
construção compartilhada para elaborar aquele algo mais que sempre aparece, de
um jeito ou de outro, numa ou outra expressão, como resultante da qualidade das
páginas dialogadas, seus recortes existenciais.
Se a realidade está nos livros,
os livros também estão na realidade. Influenciam comportamentos, novas ideias,
desconstruções pessoais, reinvenção por suas descrições. Mesmo quando em
rascunhos de um sonhador, seus apontamentos sobre o que vê, sente, admira,
imagina, acrescentam sabor e cor a uma estética singular.
Manguel compartilha: “Borges era
um sonhador entusiasmado e gostava de contar seus sonhos. (...) ‘no mundo do
tudo é possível’, ele sentia que podia se libertar dos seus pensamentos e
medos, que, completamente livres, criariam suas próprias histórias.” (Com
Borges, 2022. Pág. 48).
Uma abordagem aprendiz como a
filosofia clínica, vincula-se aos desdobramentos da vida de seu partilhante,
experienciando em perspectiva, muito do que se passa em sua malha intelectiva,
seja na forma de projetos de vida irrealizados, relação com os outros e consigo
mesmo, devaneios, buscas. Nesse sentido não há que se falar numa divisão clara
e definitiva entre realidade e irrealidade, pois nos eventos da hora-sessão os
conteúdos se desdobram para integrar outra coisa.
A redução fenomenológica para acolher
a pessoa em seus ensaios de expressividade, é uma característica essencial para
interagir com sua singularidade, sem os ranços da tipologia e classificação
psiquiátrica, hoje em dia disfarçadas de síndromes, espectros, transtornos. Ainda
assim produzindo vítimas para a indústria de psicofármacos, transformando pessoas
em objeto de cristalização diagnóstica e prognóstica.
Em outras palavras, quem ainda
hoje se atreve a sonhar? Ter devaneios, expressar sentimentos a luz do dia?
Investir em algo extraordinário ao olhar de multidão dos princípios de verdade?
A guilhotina do alienista e coadjuvantes se encontra em cada esquina, muitas
vezes na própria casa, acenando com a camisa de força das suas verdades.
A obra dá pistas: “Em ‘Pierre
Menard, autor do Quixote’, ele argumentou que o livro muda de acordo com os
atributos do leitor.” (Com Borges, 2022. Pág. 58).
Algo de excepcional acontece
quando duas ou mais pessoas se envolvem na leitura e partilha sobre uma obra
literária, bem assim no espaço da clínica, onde os eventos possuem o ineditismo das pessoas envolvidas, tendo como bússola a qualidade da interseção.
Existe alguma lucidez em perceber
nas brumas de um discurso existencial, uma representação de mundo em vias de
ensaio, a qual costuma agendar, do lado a lado da relação, seja de autor para
leitor ou partilhante para filósofo, insinuações para construção
compartilhada. Um desses momentos de onde não se sai o mesmo, tendo como fonte
de inspiração a matéria-prima do que permanece enquanto muda.
Aquele abraço,
*hs
Autogenia e expressividade
Em Filosofia Clínica, distante do
senso comum intelectual de nossa época, onde ainda se mantém igrejas
terapêuticas festejadas pela tradição, o novo paradigma encontra sua interseção
com as pessoas da rua, desprezadas, invisíveis, cuja singularidade se vê
reconhecida em processos de autogenia transformadora.
Nos dias de hoje (2025), ainda
tem quem não entenda a nova mensagem cuidadora, muitas vezes tentando estabelecer
similaridades com aquilo que já existe, desconstruindo as possibilidades de
compreender a natureza e o alcance da nova mensagem. Questão de método!
Deleuze aponta: “ (...) é através das
palavras, entre as palavras, que se vê e se ouve”. (Crítica e clínica,
2004. Pág. 9).
Talvez a dificuldade em
visualizar a novidade em seus dias de novidade, resida no fato de se interpretar sempre a mesma coisa diante de si, ainda quando esta coisa
é outra coisa. Assim trata-se de enquadrar um discurso existencial precursor em
definições pré-estabelecidas.
O conceito de autogenia, em Filosofia Clínica, tem a ver com o processo da terapia onde o partilhante, em tempo próprio, elabora sua expressividade em uma dialética singular, onde dentro e fora se integram em múltiplos ensaios de ser, não-ser, vir-a-ser, quase sempre em desacordo com a lógica de suas anterioridades.
Um devir surpreendente costuma
acompanhar as buscas da hora-sessão. Desde o acolhimento preliminar, exames
categoriais, estrutura de pensamento e demais procedimentos clínicos, o
filósofo se coloca numa disposição aventureira em comum acordo com as
possibilidades da interseção.
Com Gilles Deleuze: “(...)
explorar os meios, por trajetos dinâmicos, e traçar o mapa correspondente. Os
mapas dos trajetos são essenciais à atividade psíquica.” (Crítica e clínica,
2004. Pág. 73).
A busca por se traçar um
mapa correspondente a cada malha intelectiva, tendo como referência a
subjetividade partilhante, descreve uma abertura as lógicas do improvável, onde
se pode localizar a fenomenologia das construções compartilhadas.
São tantas as possibilidades
interditas nas ações e interações da autogenia, que é possível até tentar
classificar seus deslocamentos, contrariando a fonte de inspiração do novo
paradigma: a singularidade. Nesse sentido, se destaca a equivocidade da oferta para cristalizar
o ser singular, condicionando-o a um gesso interpretativo, como proposta de
controle, manipulação, adequação.
Assim a autogenia contida num cotidiano de atendimentos, tem a ver com os ensaios realizados pela via
da interseção terapêutica, onde eventos de múltiplas faces buscam caminhos de
integridade ao sujeito partilhante.
Deleuze ensina: “É como se alguns
caminhos virtuais se colassem ao caminho real, que assim recebe deles novos
traçados, novas trajetórias. Um mapa de virtualidades, traçado pela arte, se
superpõe ao mapa real cujos percursos ela transforma.” (Crítica e clínica,
2004. Pág. 79).
As vivências de consultório - em
Filosofia Clínica - tem o privilégio de conviver com expressividades em estado
nascente, por onde a pessoa desenvolve características a partir de seu próprio
território subjetivo, ou seja, ao conviver com outras possibilidades existenciais,
pode ressignificar-se de acordo consigo mesma sendo outra.
Em clínica não há que se falar em
situações irreais nas dinâmicas de consultório, o que acontece são interações (roteiros,
deslocamentos, reciprocidades, esteticidades, e algo mais) para investigar o
ângulo de possíveis da pessoa consigo mesma, com a vida lá fora.
Em Deleuze: “(...) não é a
sintaxe formal ou superficial que regula os equilíbrios da língua, porém uma
sintaxe em devir, uma criação de sintaxe que faz nascer a língua estrangeira na
língua, uma gramática do desequilíbrio.” (Crítica e Clínica, 2004. Pág. 127).
Então fica definido que não
haverá definição, ok? Sei das dificuldades para se navegar em alto mar com as
próprias forças, no entanto, quando se aprende tal coisa, mar aberto pode
significar novos horizontes, superando as âncoras do velho cais. Trata-se de recolocar as
coisas em outra perspectiva, desconstruindo a mordaça institucional, a
qual chega atrasada para legalizar novos territórios existenciais.
Com essa estética de acolher o
imprevisível em cada um, se apresentam novos tempos, identificados
pela multidão de pessoas distante dos holofotes, com uma percepção intuitiva
diferenciada, para enxergar na Filosofia Clínica, algo novo em um oásis de
acolhimento até então desconhecidos.
Aquele abraço,
hs
Extraordinário
O filme Extraordinário, de
2017, com roteiro de Jack Thorne, Steve Conrad e Stephen Chbosky, direção de
Stephen Chbosky, oferece uma leitura sobre as dialéticas do convívio, ou seja,
a inserção de um menino singular em uma escola comum, os agendamentos, as
interseções, desdobramentos.
Auggie Pullman tem um rosto
diferente, em razão de problemas de nascimento. A medicina do corpo aponta a
síndrome de Treacher Collins. Após ter aulas em casa com sua mãe, com 10 anos
de idade o menino ingressa no quinto ano escolar. Nesse momento a obra retrata as
contradições de se buscar apoio em uma escola onde se exercitam o preconceito, a
discriminação, desvalorizando aquilo que não se vê à primeira vista.
A dedicação e o carinho,
envolvimento dos pais, a irmã, o diretor da escola, parecem não bastar. Para se
proteger, Auggie se utiliza de um capacete de astronauta para se proteger,
ensaia regressar ao refúgio de sua casa com as aulas da mãe, fica revoltado com
sua aparência.
Uma leitura a partir do filme -
semelhante a um bom livro - pode adquirir múltiplas facetas, de acordo com as
possibilidades do espectador/leitor em sintonia com a obra. Assim destaca-se a proposta
de um acolhimento compreensivo da singularidade, para superar o espírito de
multidão.
Trata-se de um componente das tipologias, com suas sucessivas versões para dar conta de uma singularidade que se multiplica. As classificações distanciam as pessoas delas mesmas e dos outros. Sua intervenção, com a maquiagem científica, propõe submeter atitudes insubmissas a essa lógica.
Nesse sentido, multiplicam-se
diagnósticos e prognósticos ao fenômeno humano - cada vez mais surpreendente -
ao invés de um estudo aprofundado das especificidades de cada um. Esses enquadramentos, enquanto prosseguirem inventando síndromes, transtornos, doenças
mentais..., seguirão desconhecendo a pessoa além de um visar de superfície.
Enquanto instituições de ensino e
o espírito de multidão continuarem associados as definições da Psiquiatria, o festival
de psicopatologias vai continuar. Possivelmente alguém esteja ganhando
algo com isso. Michel Foucault em seu texto: O nascimento da clínica, elabora
uma reflexão crítica sobre a ideologia (como ocultamento) das práticas da
medicina. O pensador destaca as tipologias de controle, submissão, como
ingredientes para abastecer a indústria da doença.
Em nossos dias, reivindica-se estudos
compartilhados para desenvolver a pesquisa inter e transdisciplinar, para quem
sabe, superar a percepção (soberana) do ato médico, atribuindo a química, a biologia,
o fator determinante para as contradições humanas e seus desdobramentos em somatização.
Todas as pessoas nascem extraordinárias,
até os rituais de civilização. A proposta de conter e adaptar
expressividades, via de regra, oferece seu resultado ótimo: a pessoa acrítica,
incapaz de refletir, analisar, os fundamentos da sociedade onde se encontra. A
partir daí, o sujeito costuma ser tratado como algo a ser domesticado.
Destacam-se a cumplicidade das famílias, igrejas, escolas, clubes, compondo uma
trama recheada de boas intenções.
O filme tem um final esperado,
reverenciando a diversidade, o acolhimento da singularidade de Auggie. A ficção
parece acenar algo ainda sem tradução, distante do dia a dia de quem vê a vida
do outro lado da tela, onde se multiplicam estigmas à guisa de conhecimento.
Cada vez mais a medicina do corpo
se fasta de seu papel existencial cuidador, para se aventurar na fenomenologia
da mente, a qual se esboça em linguagem própria, reivindicando método e
interseção para acessar suas múltiplas versões. Nesse sentido a cultura segue
refém dos agendamentos da Psiquiatria e seus coadjuvantes. Pretextando fazer
ciência, na verdade renova a máxima de Paul Joseph Goebbels - chefe da
propaganda nazista - onde uma mentira repetida mil vezes, se torna verdade.
Aquele abraço,
hs
Desarrazoados
A palavra possui múltiplas formas de expressão, quase sempre refém de seu uso. Compreender um sentido reivindica uma reciprocidade com suas circunstâncias, a querer dizer sobre a fonte de onde partiu.
João Paulo Alberto Coelho Barreto
(João do Rio), nasceu em 05/08/1881 na rua do Hospício, no Rio de Janeiro,
partiu em 1921. O autor retratou com maestria sua cidade no início do século XX,
ou seja, ao exercitar um aprendizado peripatético, semelhante aos pensadores
gregos, caminhava e anotava o que via, sentia, percebia com os óculos de suas
possibilidades.
É preciso talento para transcrever a fenomenologia das ruas, sua poética, peculiaridades,
personagens, as casas e prédios colocados abaixo para renascer noutra esquina.
As pessoas e seus trajes, chapéus, sapatos, convicções, inseguranças. Bem como aquilo
que se refugia na expressividade de seus dias.
João do Rio diz assim: “Ora, a
rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma!
(...) Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto
diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua.” (A alma encantadora das
ruas, 2009. Pág. 29)
Em suas andanças o poeta recupera
memórias, rascunha amanhãs, e algo mais. Parece querer entender a lógica da
transposição da charrete pelo carro a motor. Quase ao mesmo tempo em que
descreve as transformações da virada de século, também busca registrar sua
história.
Seu espanto filosófico, poético, apresenta
uma escrita singular, em tons de uma epistemologia-intuitiva. Suas páginas impregnadas
de cotidiano acolhem sensações para seu diário. Sua tradução de espírito
vagamundo, diz respeito ao flanar andarilho por entre as múltiplas cidades da
mesma cidade.
Os manuscritos de um autor
descrevem sua condição peculiar, falam de seu ângulo de visão, se assemelha a
um convite para visitar - em perspectiva - seu território pessoal, numa
aproximação com sua floresta de inéditos.
O autor refere: “Eu fui um pouco
esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e
imóvel. Balzac dizia que as ruas de Paris nos dão impressões humanas. São assim
as ruas de todas as cidades, com vida e destinos iguais aos do homem.” (A alma
encantadora das ruas, 2009. Pág. 33)
Ao pensar com Schopenhauer em seu
Mundo como vontade e representação, se pode acessar dados de uma
condição singular em seus textos, na expressão de sensações, ideias, vivências e
convivências com a surpreendente lógica das ruas.
A reinvenção da vida acontece com
o despertar de um dia qualquer, -que nunca é um dia qualquer - repleto de possibilidades
nas andanças pelas praças e calçadas, saboreando um café, a leitura do jornal, folhear
livrarias, inaugurar, na provisoriedade do instante, horizontes vagamundos.
O significado dessas coisas refugiadas
no cotidiano, tem a ver com o sujeito em vias de perceber e sentir sua
realidade. João do Rio transcreve para suas páginas, a fotografia dos seus deslocamentos.
Seus apontamentos sobre a cidade traduzem uma versão sobre as poéticas do
lugar.
Com o poeta: “(...) são ruas da
proximidade do mar, ruas viajadas, com a visão de outros horizontes. (...) Se
as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm ideias, filosofia e religião. Há
ruas inteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até
ruas sem religião. (A alma encantadora das ruas, 2009. Pág. 38).
Nesse sentido, ao falar dos
espaços cotidianos, João do Rio destaca endereços existenciais por onde a vida
acontece. Amores, desilusões, crenças, projetos de vida... A rua, sendo quase-pessoa,
adquire feições de quem a frequenta, sua plasticidade se insinua para acolher quase-tudo,
sem perder de vista o que escapa, quando se acredita já ter visto tudo o que há
para ver.
O texto onde se pode ler e reler essas
narrativas - A alma encantadora das ruas - se assemelha ao velho álbum,
por onde a história se imprime nas pedras da calçada, paralelepípedos das ruas,
as páginas da memória. Aquilo que permanece enquanto muda. O poeta faz um
convite para sentir a novidade em cada esquina. João do Rio, ao abordar sua
singularidade, insinua ser multidão.
Aquele abraço,
hs
Enfermaria n. 6
No inverno de 2006, em São Paulo,
quando participava de um evento promovido pela APAFIC - Associação Paulista de Filosofia
Clínica -, recebi um presente significativo, da colega e amiga Maria Luiza
Nascimento, naquele tempo já uma das maiores filósofas clínicas deste país.
O presente foi o livro “O
Beijo e outras histórias” de Anton P. Tchekhov, com uma especial
recomendação: ler o conto “Enfermaria n. 6”, pois, segundo ela, tinha a ver
comigo, com as coisas que eu acreditava, como e porque trabalhava. Um texto
denso - como costumam ser os russos - distribuído em 66 páginas, numa tradução
de Boris Schnaiderman.
A obra compartilha em suas
páginas, múltiplos aspectos da condição humana, desde questões institucionais,
burocráticas, as demarcações de território social, político, econômico,
perpassando as relações entre médico e paciente em um asilo psiquiátrico, as
segregações humanas em razão de crenças como: saúde e doença, normalidade e
loucura. Bem assim, as atitudes, escolhas, simulacros de expressão em razão dos
princípios de verdade.
Em outras palavras, descreve a
normalidade como a adaptação das pessoas a uma realidade de cartas
marcadas, a qualquer preço, refém de um saber-poder que se espraia por toda sociedade, como um
tumor a impregnar ideias, pensamentos, atitudes, buscas. Embora o texto
literário permita entrever as causas dos desajustes pessoais, ainda assim, quem
determina os tratamentos - mesmo involuntários - é uma ideologia instituída por
lei.
Tchekhov indica: “(...) é o
abobalhado judeu Moissieika, que perdeu a razão há uns vinte anos, quando se
incendiou a sua oficina de chapeleiro.” (O beijo e outras histórias. Pág. 185).
Esse fragmento sugere uma causa
para o comportamento do personagem, ou seja, algo que poderia ser abordado e
trabalhado de outra maneira, se existisse uma abordagem para tanto. Ao invés
disso, a escolha recaiu numa internação para tratamento de sua saúde mental.
A obra aborda uma questão de método em suas páginas, onde a lucidez
reflexiva do autor descreve condições desumanas ao cuidado e atenção à vida.
Outro aspecto do texto de Tchekhov, é a forma como compartilha suas percepções sobre o mundo como representação, isto é, refere o louco como um humanista radical, por onde utiliza um vice conceito para traduzir sua visão das coisas, a forma como são tratadas as pessoas com devaneios, atitudes, formas de viver e conviver de natureza singular.
No mesmo sentido, aponta a
dificuldade em escrever sobre a fenomenologia do médico e sua interseção com os
prisioneiros do hospício, algo, até então, incomum ao convívio com os internos.
Andrei Iefímitch elabora vias de acesso as pessoas sob seus cuidados, acolhendo
sua linguagem, costumes, as ações e seus significados, para compreender em
reciprocidade. Assim reinventa a categoria lugar e a expressividade das sessões,
dialogando com o sujeito e não mais o paciente.
O autor transcreve: “Quando fala,
você reconhece nele o louco e, ao mesmo tempo, a pessoa humana. É difícil
transmitir no papel a sua fala demente. Ele trata da ignomínia dos homens, da
coação, que oprime a verdade, da existência bela que, dentro de algum tempo,
existirá sobre a terra, das grades nas janelas, que lhe recordam a todo momento
o espírito embotado e as crueldades dos opressores.” (O beijo e outras
histórias. Pág. 187)
Tchekhov se utiliza de um recurso
conhecido como tradução, para realizar aproximações com o discurso existencial
dos internos da enfermaria n. 6. Essa experiência de compartilhar instantes de escuta
e conversação com pessoas desconsideradas socialmente, destituídas de quase
tudo: incompreendidas, internadas, amarradas, desconstituídas de seu ser
sujeito, ainda assim sobreviventes como pacientes psiquiátricos, a partir de
então: doentes mentais, não raras vezes fabricados no laboratório
alienista. A partir daí, refém de uma tipologia, restando uma forma peculiar de
resistência, ou seja, a seleção de quando, com quem, o que compartilhar. Raramente
essa escolha recai no médico psiquiatra, como no conto de Tchekov.
O trecho recorda as grades na
janela, representativa do espírito dos opressores, representados pela lei, pela
psiquiatria e coadjuvantes, os princípios de verdade, a proposta por calar ou domesticar
a inquietude existencial de uma expressão humana incompreendida.
Tchekhov destaca: “Andrei
Iefímitch senta-se sem tardança à mesa do escritório e começa a ler. Lê
muitíssimo e sempre com grande prazer. Consome a metade do ordenado na compra
de livros, e dos seis cômodos do seu apartamento três estão abarrotados de
livros e revistas velhas.” (O beijo e outras histórias. Pág. 201)
A leitura, como um espaço de autocuidado e desenvolvimento pessoal, costuma acompanhar alguns terapeutas, os quais, encontram nas páginas de um livro, matéria-prima para compor a realidade de seu cotidiano. Andrei Iefímitch, utiliza sua relação com os livros e revistas, como um espaço de acolhimento, estudo, reflexão, em busca de um território subjetivo para seu devir.
O contato com as obras oferece ao
velho médico, uma medicação indisponível a quem não lê e não tem como saber do
que se trata. A leitura e suas derivações, constituem um espaço de vida raras
vezes traduzível pelas palavras conhecidas. Assim, Andrei Iefímitch, na medida
em que associa suas leituras com as práticas de consultório, vai encontrando
uma nova forma de se relacionar com as pessoas internadas, descobrindo singularidades
em cada refém da enfermaria n. 6.
Esse ponto do texto oferece uma percepção sobre os rumos da história, ou seja, o médico oferece um acolhimento
compreensivo a seus pacientes e, dessa forma, passa a ter a desconfiança dos
demais integrantes da instituição, que consideram as pessoas internadas loucas,
e o doutor deveria tratá-las com medicamentos, e não com diálogos, escuta, dando
atenção aos seus delírios.
O autor descreve: “Organizam-se
espetáculos e bailes para os loucos, mas assim mesmo eles não são postos em
liberdade. Quer dizer que tudo é tolice e vaidade, e, em essência, não há
nenhuma diferença entre a melhor clínica vienense e o meu hospital.” (O beijo e
outras histórias. Pág. 208)
Um aspecto desses asilos onde se
acumulam pessoas, à guisa de tratamento psiquiátrico, são as atividades
consideradas complementares, paliativas, para distrair, conforme as crenças da
instituição. Por outro lado, se pode retirar alguns ensinamentos desses eventos,
como: bailes, exercícios físicos, atividades de estética, num convívio onde
costumam aflorar expressividades até então sufocadas.
Esse relato do autor sobre a relação da melhor clínica vienense e o hospital descrito em suas páginas, se assemelha, em nosso país, com a realidade do SUS (medicina pública) e os hospitais privados, os quais diferem - na maioria das vezes - pelas instalações, pois os profissionais estudam as mesmas coisas. Os atendimentos, muitas vezes, na esfera pública, costumam ser bem-sucedidos, oferecendo a população desassistida economicamente, um acolhimento diferenciado, enquanto naqueles outros, a preferência é pelo saldo do plano de saude.
Um exemplo: uma pessoa em estágio terminal, num leito de hospital público, após as intervenções necessárias para conceder-lhe qualidade de vida, ao se constatar sua impossibilidade, a deixam partir em tempo próprio. As instituições privadas, no entanto, costumam ter outra postura, isto é, dependendo da disponibilidade financeira do paciente, a vida - ou que resta dela - poderá ficar ligada a aparelhos (CTIs) por muito tempo, sugerindo uma cura que não vai chegar.
Em um dos diálogos entre o velho
médico e um de seus interlocutores na enfermaria n. 6, é possível perceber
alguns apontamentos de natureza filosófica, distantes do olhar tecnicista do
alienista.
Anton Tchekov compartilha: “O
senhor é um homem que pensa, que reflete. Em qualquer circunstância, pode
encontrar em si mesmo um meio de se tranquilizar. O pensamento livre e profundo
que procura compreender (...) a vida, e um desprezo absoluto às vaidades
estúpidas do mundo – eis os dois bens mais elevados que o homem jamais
conheceu. E o senhor pode possuí-los, ainda que viva atrás de três grades.
Diógenes viveu num barril, embora fosse mais feliz que todos os reis da terra.”
(O beijo e outras histórias. Pág. 214)
Quando um terapeuta se coloca em
reciprocidade com uma pessoa - internada ou não - não é raro, ao visitar sua
singularidade, agregar uma matéria-prima resultante dessa interseção, bem como
procedimentos para desenvolver uma vida de maior integridade com o outro e consigo
mesmo.
Um subproduto da sociedade
contemporânea é a padronização de abordagens terapêuticas, as quais, encontram
no hospício, um dos últimos redutos das torturas medievais, onde se encarceravam
e submetiam pessoas com as quais não se conseguia manter uma relação clínica.
Dessa forma ao desqualificar o sujeito, produziam - e seguem produzindo - doença
mental para insinuar uma cura, em estreita conexão com uma sociedade
cúmplice.
Para acessar uma singularidade, é
preciso bem mais do que fórmulas prontas, narrativas psiquiátricas, ou um
conhecimento com base em experiências. É preciso uma aproximação com o outro para
conhecê-lo em seu território existencial. As peculiaridades, lugar, tempo,
relações, a linguagem, jeitos e trejeitos, valores, e o que mais aparecer. Como
um bom livro, essa prática reivindica tempo, dedicação, paciência, acolhimento
e estudo com o outro para compartilhar algo que lhe faça sentido.
A questão ideológica aparece nos
desdobramentos da obra de Tchekov da seguinte forma: “Saindo da prefeitura,
Andréi Iefímitch (o velho médico) compreendeu que fora examinado por uma
comissão, encarregada de verificar o seu estado mental. Lembrou-se das perguntas
que lhe foram feitas, corou e por alguma razão, pela primeira vez na vida, teve
uma pena profunda da medicina.” (O beijo e outras histórias. Pág. 227)
Mentes brilhantes como: Michel
Foucault, Gilles Deleuze, Fritjof Capra, Franz Kafka, e outros, trabalham em
suas obras a questão do controle, da manipulação social pelas ideologias estruturadas
para conter expressividades. Em outras palavras, quando alguém insinua viver,
conviver, trabalhar, de forma diferenciada, esse aspecto, por si só, pode
determinar uma clausura existencial ou um banimento, muitas vezes traduzida
numa internação involuntária, seja num manicômio ou numa salinha de 2x2, para
carimbar papéis.
Existem muitas formas de exílio,
talvez a mais festejada seja a exclusão de uma pessoa de sua profissão, por ter
posturas de acolhimento as lógicas da diferença, ainda mais se tratar-se de um
novo paradigma, aí então, irá mexer com as referências de saber-poder, seus
rituais de ensino-aprendizagem, alienação disfarçada de boas intenções, e algo
mais, distante de uma reflexão e análise crítica de seus pressupostos.
O crime de Andréi Iefímitch?
Acolher e dialogar com os internos da enfermaria. A partir daí, seu
comportamento é denunciado como cumplice da loucura, servindo para a
substituição no cargo de diretor médico e sua própria internação na enfermaria
n. 6.
Sorria! Você está sendo filmado!
Aquele abraço,
hs
Poéticas da desrazão
Um texto com base nas normas da
ABNT não pode ter sua narrativa em desacordo com sua métrica, menos ainda insinuar
uma contradição com o cristal acadêmico, mantenedor da ciência normal. Ainda
assim, pelas brechas e fissuras de suas definições, é possível entrever o barquinho
das coisas bem ajustadas fazendo água.
Uma singularidade genial como
Antonin Artaud, não poderia suportar viver muito mais - partiu aos 52 anos de
idade - em um mundo sem noção ou método para acolher e compreender seu viés de
ser extraordinário, incabível numa normalização psiquiátrica e seus
coadjuvantes (psicologias, famílias, igrejas, polícia, judiciário...), os quais
oferecem a camisa de força institucional para conter transgressões e deslizes existenciais.
Artaud ensina: “Há um ponto em
vocês que médico algum jamais entenderá e é este ponto, a meu ver, que os salva
e torna augustos, puros e maravilhosos: vocês estão além da vida, seus males
são desconhecidos pelo homem comum, vocês ultrapassaram o plano da normalidade
e daí a severidade demonstrada pelos homens, vocês envenenam sua tranquilidade,
corroem sua estabilidade.” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 29).
Pode não ser por acaso o
surgimento de uma abordagem terapêutica como a Filosofia Clínica em finais do
século XX e seu desenvolvimento no século XXI, em um país periférico, ou seja, mais
uma vez a invisibilidade das margens oferece contribuições significativas ao
fenômeno humano.
Alguns profissionais ainda buscam
(em quase desespero) sustentar suas generalizações, para isso encontram na proliferação
de síndromes, transtornos, uma resposta para suas dúvidas e limites metodológicos.
Impõe suas crenças e práticas por força de lei, por não conseguir superar (por
medo, insegurança, preguiça, zona de conforto, interesses econômicos) as lentes
vencidas do seu olhar. Enquanto essa realidade não mudar, a indústria de
psicofármacos, com seus lucros faraônicos e sua rede de sustentação, continuará
desconstruindo singularidades para fabricar alienados.
Antonin Artaud compartilha: “Há
em todo demente um gênio incompreendido em cuja mente brilha uma ideia
assustadora, e que só no delírio consegue encontrar uma saída para as coerções
que a vida lhe preparou.” (Van Gogh – o suicida da sociedade, 2007. Pág. 53).
É triste constatar o fato de muitas
universidades acolherem metodologias cristalizadas nalguma forma de ciência
normal, descartando a inquietude filosófica, reflexiva, crítica, analítica.
Raciocínios de cunho linear se assustam com a não-linearidade fora da curva.
Assim as ciências humanas, cada vez mais, se submetem ao gesso da tecnologia,
da vida robô.
Um acolhimento diferenciado, com
base em um discurso existencial singular, não tem espaço em um ambiente tóxico,
refém da camisa de força da ideologia psiquiátrica, seus cúmplices e os desavisados.
Por outro lado, a resistência
encontra na Filosofia Clínica uma aliada das abordagens não convencionais, numa
aproximação compreensiva e cuidadora com os desclassificados e incompreendidos socialmente,
sem voz e vez, reféns das lógicas do deus dinheiro, da miséria existencial juramentada.
Uma expressividade em vias de não-ser reivindica um olhar em sintonia com sua
realidade mutante, acolhendo e convivendo com uma singularidade inconformada
com uma normalização abaixo da linha da miséria.
Artaud ensina: “Para mim, as
ideias claras, no teatro como em qualquer outro lugar, são ideias mortas e
encerradas. (...) a descoberta de uma linguagem ativa, ativa e anárquica, onde
os limites usuais dos sentimentos e das palavras sejam abandonados.” (Escritos
de Antonin Artaud, 2019. Pág. 81).
A filosofia positivista de
Augusto Conte encontrou no RS e no Brasil, em figuras como: Borges de Medeiros
(1863-1961) e Júlio de Castilhos (1860-1903), uma base de sustentação institucional
que perdura, um terreno propício a sua forma de pensar. Sua lógica cartorial expandiu
seus tentáculos por todo lugar: família, escola, igreja, política, hospícios,
tratando de uniformizar condutas, enquadrar comportamentos, em flagrante
patologização da vida humana.
Pensar fora da curva, em uma
linguagem própria, pode ser considerado um crime de lesa pátria, ou seja, ao
não ser entendido ou significar uma ameaça a epistemologia de fundo da caverna de
Platão, a resposta costuma ser a clausura dos hospícios e seus coadjuvantes,
tudo dentro da lei.
Talvez por isso as belas artes, a
música, a literatura, o teatro - que encontra em Artaud um dos seus gênios -,
compartilhem uma forma de expressão singular, diferenciada, transgressora das propostas
de contenção da criatividade, imaginação, superação do lugar comum.
Em nossa cidade existe uma escola
recheada de boas intenções, que concede bolsas de estudo, e outras vantagens,
para adolescentes de periferia, para incentivar a livre iniciativa. Noutras
palavras, sua proposta acena com a ideia de que todos serão empresários, como
sinônimo de ser bem-sucedidos na vida.
Por outro lado, em contradição
com essa forma de pensar e existir, existem frestas sociais por onde a
genialidade sempre aparece, em uma ou outra forma de expressão, com linguagem
própria, preliminarmente irreconhecível, por tratar-se de uma expansão
territorial subjetiva com repercussões no espaço cotidiano.
Artaud descreve: “Van Gogh era
uma dessas naturezas de lucidez superior que lhes permite, em todas as
circunstâncias, enxergar mais longe infinita e perigosamente mais longe do que
o real imediato e aparente dos fatos.” (Van Gogh – o suicida da sociedade,
2007. Pág. 55).
Nesse sentido, se pode entender
as dificuldades de uma singularidade nascida para brilhar (todos deveriam
brilhar em território próprio), em meio a mesmice tagarela da vida normal, oferecendo
suas contas a pagar, filhos para criar, mão de obra escrava, ignorância e
desinformação para sustentar as estruturas de poder, e por aí vai. Bertolt Brecht tem um poema que vale a pena: se os tubarões fossem homens.
Em nosso país surgiu o fenômeno
Artur Bispo do Rosário, internado quase a vida inteira num hospício, ainda
assim produzindo sua arte. Quando algumas pessoas tentavam se aproximar de seu
espaço de trabalho, buscava sentir a energia da pessoa, para ler sua aura e
traduzir em linguagem própria se era alguém confiável para ingressar em sua
casa.
O caso Nise da Silveira, uma
louca diplomada, infelizmente também ela refém das tipologias psiquiátricas, ainda
assim encontrou formas para superar a classificação de seus estudos, oferecendo
a estética como expressividade aos seus pacientes. Ao receber os candidatos a
alunos em sua escola, tratava de enviar sua secretária para abrir a porta,
deixando os incautos sentados na sala de entrada, até a chegada de seus gatos,
os quais faziam a pré-seleção dos alunos, cheirando, pulando no colo,
interagindo com sua alma. Depois disso, se autorizados pelos felinos, Nise acolhia-os
para um chá e apresentação de seu espaço de trabalho.
E por aí seguem os dias, em rascunhos
pelas poéticas da desrazão, onde os eventos de consciência alterada (com base
na medicação da poesia, filosofia, literatura, música, belas artes), possam encontrar uma
fonte de inspiração para superar a camisa de força da vida normal.
Aquele abraço,
hs