A nova abordagem terapêutica com
base na interseção da Filosofia com a prática clínica, traz consigo uma trama
significativa de reflexões e contribuições para a vida e o papel existencial
das pessoas com borogodó para a atividade cuidadora.
Existem nuances e desdobramentos
a partir de um encontro terapêutico, por onde suas repercussões superam a
hora-sessão para encontrar a luz do dia. Do lado a lado da relação clínica
ocorrem fenômenos improváveis se distanciados da categoria lugar onde se
realizam.
Um desses eventos desconcertantes
é uma resultante da terapia, conhecida por autogenia. Sua expressão trata de: interseção
e suas derivações, transformação, mudança, ressignificação na estrutura de
pensamento de uma pessoa. No que se refere ao partilhante, é possível trabalhar
as autogenias que se apresentam nas dialéticas da hora-sessão, no entanto, também
o filósofo clínico, tem sua expressividade impactada pelas circunstâncias de consultório.
Em Fritjof Capra: “(...) elos de
realimentação, ou seja, a ideia contida nessa expressão é a de algo que, tendo
sido produzido, gerado ou modificado por outra coisa, afeta por sua vez essa
outra coisa de modo a produzir modificações nela. É uma espécie de rede causal
de mão dupla.” (As conexões ocultas, 2002. Pág. 28).
Assim é possível entender, numa forma
de autoproteção, a defesa das tipologias, classificações, preservando uma distância
significativa em relação aos atendimentos. Cabe lembrar a Psiquiatria e
coadjuvantes, onde muitos eventos conhecidos como loucura, encontram sua
origem em suas próprias intervenções, através dos agendamentos, enraizamentos, a
distorcer a originalidade do sujeito em vias de não-ser.
Em Filosofia Clínica, pela via da
interseção, trata-se de um processo completamente outro, tendo por base a
representação de mundo que vai aparecendo. Uma reconstrução compartilhada da
historicidade partilhante, por si só, costuma ter um alcance terapêutico
significativo. Assim, o filósofo em recíproca de inversão, oferece sua
estrutura de pensamento ao partilhante, como ponto de apoio aos seus ensaios de
atualização discursiva.
A partir desses movimentos da
clínica, não é raro acontecer desconstruções estruturais e o surgimento de algo
novo na estrutura de pensamento dos envolvidos na hora-sessão, ou seja, aquilo
antes inacessível ou desconhecido, pode surgir como hipótese, experimentação, assumindo
uma feição aprendiz da pessoa com ela mesma. Ao filósofo cabe acompanhar,
interagir, compartilhar rotas significativas aos deslocamentos em processo.
Algo mais aprecia surgir na terapia,
oferecendo uma matéria-prima para as intervenções do filósofo. Como a
circunstância - quase esquecida - de que o cuidador, ao compartilhar sua estrutura
de pensamento com o partilhante, ajustando sua expressividade ao papel
existencial, acrescenta uma fatia generosa de si mesmo aos eventos da
hora-sessão.
Com Fritjof Capra: “A experiência
nasce da dinâmica não-linear complexa das redes neurais, e só poderá ser
explicada se a nossa compreensão da neurobiologia for combinada a uma
compreensão dessa dinâmica.” (As conexões ocultas, 2002. Pág. 56).
A descoberta da singularidade
como um pressuposto para a atividade clínica, oferece uma nova rota para as
relações humanas. A fenomenologia dos encontros reivindica uma abordagem diferenciada,
plástica, dinâmica, apta a manter interseção com o zoom da expressividade em
cada pessoa.
O novo paradigma da Filosofia Clínica possui características de proto e metaciência, ao acolher, recuperar, superar, antecipar, descobrir, traduzir, habilidades humanas, até então, improváveis, desconhecidas, inacessíveis pelas lentes festejadas da ciência normal. Seu referencial aprendiz se abastece da interseção, estudo, análise, acolhimento, ousadia para aventurar-se em territórios subjetivos outros, impregnados de incógnitas existenciais, armadilhas conceituais, rupturas com o mundo reconhecido da família, amigos, em direção aquilo sem voz e vez. Quando um fenômeno dessa natureza chega à lógica microscópio, a estrutura de pensamento há muito já efetivou seus movimentos subjetivos.
As constatações da medicina do corpo, tem dificuldade em perceber essas origens
estruturais e, quando consegue, teme a novidade diante de suas convicções,
tratando de reduzir sua expressão aos moldes reconhecidos ou atribui seu
aparecimento e responsabilidade à metafísica, como algo que não lhe pertence.
Fritjof Capra contribui: “Numa
organização humana, o acontecimento que desencadeia o processo de surgimento
espontâneo de uma nova ordem pode ser um comentário informal, que, muito embora
não pareça importante para quem o fez, pode ser significativo para algumas
pessoas dentro de uma comunidade de prática.” (As conexões ocultas, 2002. Pág.
128).
Os eventos da intencionalidade
apreciam surgir no discurso existencial do partilhante, ou seja, em suas
menções na hora-sessão ou fora dela, incluindo a historicidade, os momentos de
desconstrução mais significativa, os períodos de reconstrução, a vida
cotidiana, onde as palavras possuem um sentido peculiar, o qual vai pedir ao
filósofo uma aproximação com esse devir peculiar.
Uma nova estruturação na vida de
cada pessoa, possui roteiros diferenciados, os quais reivindicam um estudo
singularizado, distante das abordagens generalistas e seus protocolos. Tendo em
vista uma crise precursora, a partir daí, costumam acontecer múltiplos eventos
no cotidiano do partilhante, levando, muitas vezes, a própria pessoa a
desconfiar de si mesmo. Nesses momentos a metodologia faz a diferença, pela
natureza e alcance dos seus agendamentos, seja para acolher, compreender ou
desvirtuar a lógica singular em seu estado de anúncio.
Nesse sentido o filósofo precisa
estar atento as especificidades da pessoa, isto é, compreender, interagir com
as necessidades do instante aprendiz. As rotas da construção compartilhada,
nesses momentos de desestruturação e incompletude discursiva, pede
sensibilidade, acolhimento, interseção, cuidado e atenção a matéria-prima que vai
aparecendo na estrutura dos encontros. A escuta fenomenológica, analítica da
linguagem, hermenêutica compreensiva, apreciam localizar existencialmente essas
expressões em forma de broto.
Aquele abraço,
*hs
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