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segunda-feira, 23 de março de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 63*

Notas sobre o consultório do filósofo II 

A apresentação da Filosofia Clínica como um novo paradigma terapêutico, tendo em vista sua fundamentação teórica e prática, recoloca a urgência em decifrar sua estrutura de pensamento. Trata-se de uma abordagem essencialmente brasileira, onde a partilha das novas ideias e atividades - desde os idos de 1990 -, quando recebia críticas de quem não sabia o que dizia - como alguns, ainda hoje, não sabem -, ao referir suas narrativas como algo que já existia.

Assim aparece uma dificuldade, por parte de muitos contemporâneos, em estabelecer uma interseção aprendiz com sua mensagem. A estranheza dos novos territórios diante do olhar, parece ofuscar quem estava acostumado a determinados tons de claridade. Talvez haja necessidade de ajustar o velho óculos, para enxergar o que desafia o alcance de suas lentes.

É o caso do conceito de singularidade, o qual se traduz - no dicionário comum - como: peculiaridade, esquisitice, particularidade, extravagância, excentricidade, destacar-se, sobressair. A expressão se inclui num rol de menções utilizadas no dia a dia entre as pessoas. Ao institucionalizar o uso de uma palavra, qualquer forma de expressão outra, que distorça seu significado para acolher a novidade em vias de apresentação, reivindica uma tradução a partir de suas bases discursivas existenciais, superando as definições de sua anterior_idade.   

Quando o novo paradigma se descreve em meio a vida contemporânea, se reveste de vocabulário próprio, impregnado de termos, conceitos, expressões que fazem sentido dentro de uma determinada representação de mundo, até então desconhecida, marginal, periférica. Em outras palavras, é preciso um estudo circunstanciado para acessar e compreender suas mensagens.

Em Ernst Cassirer: “Para determinar com precisão o caráter específico de toda e qualquer forma do espírito, faz-se necessário, antes de tudo, medi-la pelos seus próprios padrões. Os critérios segundo os quais ela é avaliada e que norteiam a apreciação de suas produções não lhe devem ser impostos de fora, sendo, ao invés, indispensável que derivemos estes critérios das próprias leis básicas que determinam as suas formações.” (A Filosofia das Formas Simbólicas – A linguagem. 2001. Pág. 173)

Nos dias de hoje, pouco mais de 30 anos do surgimento (no Brasil!) dessa nova abordagem terapêutica, se proclama a toda voz a necessidade de uma escuta. Mas, de que escuta se fala? A escuta da Medicina do corpo? Da Psicanálise e sua hermenêutica interpretativa? A escuta da Filosofia acadêmica? Em que momentos a escuta poderia ser um acolhimento aprendiz singularizado?  De quem escuta se fala?

A busca para superar equivocidades interpretativas reivindica uma lógica aprendiz, incluindo a interseção com uma estrutura de pensamento, numa dança entre a redução fenomenológica, analítica da linguagem, hermenêutica compreensiva, e algo mais. Assim se pode acessar as possibilidades para estudo, compreensão, interação com um sujeito em seu endereço existencial.  

O conceito de singularidade - em Filosofia Clínica - encontra sua raiz na lógica de Aristóteles (384 – 322 a.C), de onde se origina seu sentido, isto é, como desenvolvimento de uma reflexão, onde se tem: termos universais (todo, nenhum...), particulares (estes, aqueles...), singulares (Maria, Pedro, João...). Assim é possível entender sua contradição com as percepções da tipologia, da classificação, das síndromes, espectros e demais narrativas generalistas para controle e medicalização do fenômeno humano.

A expressão singular reivindica um estudo diferenciado, tendo como ponto de partida um acolhimento pelos exames categoriais, ou seja, uma aproximação com a circunstância da pessoa que chega ao consultório. Noutras palavras, trata-se de alguém desconhecido, o qual, à primeira vista, coloca a estrutura de pensamento do filósofo em processo de redução fenomenológica, para acolher, descrever, interagir com sua representação das coisas. Questão de método!

Longe disso, a abordagem das terapias clássicas, apesar de, algumas vezes, usarem a expressão ‘singular’, parece desconhecer o que acontece com a estrutura de pensamento de seus profissionais, os quais, ao entender a pessoa diante de si com o olhar das tipologias e classificações da Psiquiatria e coadjuvantes, enquadra e distorce a expressividade em frente, transformando um sujeito em objeto de análise e interpretação. Direciona respostas, agenda ideias, comportamentos, sensações, sem dar-se conta de sua cumplicidade com aquilo que busca tratar.   

Ser singular inclui um nome, sobrenome, uma circunstância existencial, sua expressão, a relação com o mundo da vida. O filósofo clínico terá de aprender com o partilhante as rotas para sua estrutura de pensamento, sendo guiado por ele pelos escaninhos de sua subjetividade, muitas vezes impregnada de armadilhas, areia movediça, refúgios. Assim o papel existencial cuidador refere uma ontologia e uma antropologia, em seus estudos para compreender um território desconhecido, decifrar linguagens, rituais de vida, morte, renascimento, reconhecer a farmácia interna em cada pessoa.

Nesse sentido a Literatura de cada um oferece uma interseção favorável com a reflexão sobre esse outro que se apresenta, isto é, o lugar de onde se diz o que fala: a estrutura de pensamento singular. Essa aproximação do leitor com o autor, a partir da descrição de seus originais, costuma significar uma tradução peculiar sobre sua fonte de inspiração. Ainda quando se trata de uma releitura, um ser irrepetível se apresenta, imprimindo seus rastros pelo dado padrão, intencionalidade, no contato com suas páginas e capítulos existenciais. Talvez o rio de Heráclito (500 - 450 a.C.), em seus deslocamentos, consiga decifrar a inquietude dessas águas sempre outras.     

Os eventos de construção compartilhada realizam um estudo sobre o fenômeno multifacetado de uma obra. Assim se pode ampliar o entendimento sobre a literalidade e os transbordamentos de um texto. Semelhante aos eventos da hora-sessão e seus desdobramentos existenciais.   

Ricardo Piglia auxilia: “Ler a partir do lugar em que se escreveu não define o leitor ideal como aquele que lê melhor, mas como aquele que lê a partir de uma posição próxima à composição em si. Nabokov aponta isso com clareza: ‘O bom leitor, o leitor admirável não se identifica com os personagens do livro, mas com o escritor que compôs o livro’”. (O último leitor, 2017. Pág. 158)

Essa aproximação cuidadosa, a partir de uma redução fenomenológica, possibilita ao filósofo clínico leitor encontrar o outro em sua expressão peculiar. Aqui não se trata de uma abordagem de base apriorística, onde as páginas existenciais de uma pessoa poderiam ser traduzíveis pela lógica apertadinha da hermenêutica dos protocolos.   

O termo singular pode apresentar muitos sentidos, de acordo com seu uso. Aqui é preciso fazer um alerta sobre a areia movediça das palavras comuns, as quais possuem nuances e significados outros, nem sempre alcançável pela literalidade de suas menções. O convívio do dia a dia, no mundo do trabalho, na família, com amigos, colegas, pode qualificar o entendimento das expressões e seu significado, no entanto, basta um processo desconstrutivo para modificar sua direção, desarmonizando algo até então reconhecível.   

A atividade dos princípios de verdade, com base nas ideologias da vida normal, multiplica seus recessos, desvãos. Trata-se de endereços existenciais onde se abrigam os esquisitos, atípicos, sem nome, desprovidos de um acolhimento compreensivo. Refúgios que a lógica protocolo não imagina existir, em sua sanha de controle e submissão do fenômeno humano. Nesse sentido, para acessar a singularidade, reivindica-se uma aproximação compartilhada com seu discurso existencial, em busca da fonte de inspiração de onde fala o que se diz.

Aquele abraço,

hs     

domingo, 1 de março de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 62*








                         


Notas sobre o consultório do filósofo I 

A prática da Filosofia Clínica se relaciona com as lógicas do inesperado. Existem tantas possibilidades para esses relatos quantos sejam os envolvidos nessa atividade. Essa evidência metodológica acrescenta uma distância significativa com o que se tinha - como opção terapêutica - até então.

Tendo em vista uma representação de mundo, de onde fala o que se diz, essa característica envolve os integrantes desses encontros compartilhados. Um endereço existencial para acessar, reconhecer, descrever, interagir, com tópicos de uma estrutura de pensamento em vias de apresentação. Um refúgio de onde o partilhante encontra meios para traduzir-se ao filósofo clínico.

Schopenhauer ensina: “(...) possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas apenas olhos que veem este sol, mãos que tocam esta terra; em uma palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem.” (O mundo como vontade e representação. 2001. Pág. 9)     

A Psiquiatria derivada da medicina do corpo, defende suas verdades e intervenções a qualquer preço. Ao oferecer promessas de controle e submissão da chamada doença mental, através da medicalização do fenômeno humano, transforma eventos de origem subjetiva em uma panaceia refém de uma cura que não chega. Essa abordagem passa longe das causas dos desajustes somáticos, os quais podem ser localizados nas contradições da estrutura subjetiva, na circunstância de vida de cada um, dentre outros. Questão de método!

Os pressupostos da medicina, ao emancipar sua metodologia bem-sucedida em consertar ossos quebrados, permite verificar como a Psiquiatria permanece refém da indústria de psicofármacos, com narrativas próprias de uma ideologia comercial. Tendo como referência essa crença, resta internar a nascente extraordinária com a camisa de força dos protocolos de alcance universal. Seu aceno com promessa de cura, concede o tempo necessário para medicalizar as contradições próprias de uma travessia, iniciando um processo de cristalização comportamental. A droga da Psiquiatria se sustenta na ideologia da desinformação, controle social, os lucros faraônicos da indústria de psicofármacos. A produção da loucura é íntima do olhar alienista e seus cúmplices.  

Nesse sentido, a lógica para domínio e submissão da expressividade se divulga - com o apoio dos incautos e desinformados - como uma forma travestida de ciência. A substituição da expressão: doença mental por distúrbios, espectros, transtornos, são um exemplo dessa tentativa de se manter a qualquer custo uma narrativa maquiada de práticas perversas, que passam longe de acolher, compreender, cuidar, sustentadas por crenças antigas disfarçadas de inovação.  

Com Thomas Szasz: “(...) a visão de que as chamadas doenças mentais são mais idiomas do que doenças não foi ainda adequadamente articulada, nem suas implicações totalmente apreciadas.” (O mito da doença mental, 1974. Pág. 142)

Os princípios de verdade estruturam formas de viver com base em determinadas retóricas existenciais, semelhante ao fundo da caverna de Platão. Nos dias de hoje, com a fartura de psicofármacos à disposição, não é raro a defesa intransigente de seu uso, muitas vezes impregnada de boas intenções. A fabricação da loucura oferece uma imagem diante do espelho como resultante de suas drogas: pessoa nenhuma!    

A intervenção da medicina do corpo, hábil e competente para consertar ou substituir peças em uma máquina - com prazo de validade desconhecida -, ao querer usar essa mesma abordagem nas origens subjetivas da somatização, se vê num impasse, isto é, se coloca a procura de uma cura para algo que não é doença. Noutras palavras, o uso de uma tecnologia bem-sucedida para tratar avarias somáticas, não permite acessar suas causas, passando longe de compreender seus sinais de anúncio.        

O ponto de vista dos novos paradigmas, em sua estruturação preliminar, ao enxergar os eventos do cotidiano sob outra perspectiva, aponta verdades em forma de protociência. É o caso da abordagem clínica da Filosofia (principalmente nos anos 1990) ao se apresentar como uma alternativa a forma de pensar a fenomenologia do humano. O filósofo, ao sair da zona de conforto conceitual, bibliográfica, via de regra representada pela estrutura escolar e acadêmica, assumindo uma atividade terapêutica em consultório, se coloca num processo de abertura e risco para acolher e interagir com a singularidade.  

Ian Hacking no prefácio de Thomas Kuhn: “Nós temos a tendência de ver o que esperamos, mesmo quando a coisa não está lá. Amiúde leva muito tempo para que uma anomalia seja vista pelo que ela é: algo contrário à ordem estabelecida.” (A estrutura das revoluções científicas. 2013. Pág. 33) 

As lógicas do inesperado reivindicam uma interseção peculiar, um borogodó apto a conhecer e transitar por sua representação de mundo. Os desdobramentos compartilhados na hora-sessão se espraiam no dia a dia do partilhante em ensaios para uma nova cognição.

Uma realidade em vias de apresentação rascunha seus originais em busca de novos discursos existenciais. O papel existencial cuidador do filósofo não deve ser confundido com uma imersão sem volta em direção ao partilhante, mas como uma base flexível aos seus deslocamentos intelectivos.      

A incompletude discursiva e o raciocínio desestruturado não constituem uma patologia, em que pese as narrativas, agendamentos e a propaganda em contrário, tratando-se de uma publicidade para manutenção da supremacia psiquiátrica, intervindo nos eventos de base subjetiva como se fora uma consequência da medicina do corpo. A loucura não aparece em exames de sangue ou qualquer outra forma de identificação laboratorial, trata-se de uma hermenêutica política, ideológica.   

Em Roland Barthes: “(...) não colaboram para que minha leitura resvale? Um ângulo obtuso é maior do que um ângulo reto: ângulo obtuso de 100 graus, diz o dicionário: também o terceiro sentido me parece maior do que a perpendicular pura, reta, cortante, legal, da narrativa: parece-me que o terceiro sentido abre o campo do sentido totalmente, isto é, infinitamente (...) o sentido obtuso parece desdobrar suas asas fora da cultura (...)”. (O óbvio e o obtuso, 1990. Págs. 47 e 48)

Assim é possível entender a chegada da Filosofia Clínica como um novo olhar, uma compreensão do ser singular. Em meio aos presságios de vida nova, sua abordagem acolhe a singularidade, a qual reivindica uma metodologia diferenciada para encontrar seu titular. Até então não se tinha algo assim, apto a entender a desestrutura pessoal como travessia entre um antes e um depois de qualquer coisa.

Veja-se a realidade dos hospícios, com seus protocolos e práticas alienadas, submissas, inquestionáveis, ao saber-poder da Psiquiatria, isto é, a última palavra sobre baixa ou alta no hospital psiquiátrico é de uma só pessoa. Ainda quando simula ouvir o ponto de vista de outras áreas de atuação, a versão alienista prevalece.

Nesse sentido, como não entender a clausura de muitos internos, ao elaborar uma teia subjetiva própria, para se proteger de um mundo que não o compreende, desmerece sua versão das coisas, não entende sua circunstância existencial, sua contradição como tentativa de ser sujeito na própria história.  

Com Antonin Artaud: “Entre a personagem que se agita em mim quando, ator, avanço em cena e aquele que sou quando avanço na realidade, há, sem dúvida, uma diferença de grau, mas em proveito da realidade teatral. Quando vivo não me sinto viver. Mas quando represento, então sinto que existo. Quem me proibiria de acreditar no sonho do teatro quando acredito no sonho da realidade?” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 102)

Esse estranho que se oferece em linguagem própria, reivindica uma parceria capaz de acolher e qualificar construções compartilhadas, numa lógica aprendiz, onde se pode compreender aquilo que - a princípio - é desconhecido. Em cada um se insinua um ser extraordinário, sua expressão aprecia uma tradução compartilhada, distante de uma abordagem vertical, do tipo: “você sabe com quem está falando?”.

O script pré-determinado das abordagens da tradição, muitas vezes transforma profissionais diferenciados em sua área de atuação, em reféns da clausura metodológica vigiada pelos conselhos de classe, os quais supervisionam, multam, suspendem, excluem quem ousar estudos ou práticas em desconformidade com a rigidez cadavérica de suas normas.   

É interessante descrever uma estrutura de pensamento, em sua irregularidade discursiva, quando busca dizer mais do que consegue. Assim o filósofo clínico terá de aprender, como fundamento de sua atuação em consultório, a conviver com as formas do inacreditável. Talvez recuperando a admiração e o espanto dos primeiros pensadores.  

A descrição multifacetada da singularidade humana, reivindica uma abordagem cúmplice para estudar, transitar, conviver com sua expressão inédita. Pela via da interseção, será possível conhecer aquilo que não se sabe, em aproximações da teoria com uma abordagem adequada a cada pessoa.

Mais que explicar ideias, ensinar história da Filosofia, desenvolver críticas, análises, reflexões, cabe ao filósofo clínico se colocar em risco ao se aproximar do outro na relação terapêutica. Trata-se de encontrar a vida como se apresenta, semelhante ao equilibrista em suas travessias pelo arame, sem rede de proteção.  

Aquele abraço,

hs  

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Filosofia Clínica Agridoce 61*


                                                  Estranhos 

O conceito de singularidade integra a nova abordagem clínica da Filosofia. Tem como fundamento e ponto de partida investigativo, uma redução fenomenológica e a busca por interseção com o sujeito partilhante. Isso por si só, já deveria bastar para demonstrar seu distanciamento das metodologias comuns, as quais tem por base uma hermenêutica interpretativa, tipológica, classificadora, universal.

Um ser estranho se apresenta, a cada momento, desafiando as lógicas da definição tipológica. Essas intervenções de protocolo para tratar gente desarrazoada, encontra aquilo que elas mesmas colocam no outro sob seus cuidados. Uma tez de indefinição precursora, própria da dialética humana em vias de não-ser, reivindica um algo mais que essas abordagens não têm. Como realizar uma travessia singular - entre um antes e um depois - superando a vertigem desses instantes, com uma camisa de força interpretativa?   

Talvez pensadores como: Arthur Schopenhauer, Merleau-Ponty e Wittgenstein, pudessem auxiliar o entendimento desse viés desconstrutivo das bases que se tinha, até então. No entanto, quem está disposto a renunciar àquilo que pagou caro para aprender? Como se proteger da teia ideológica das sanções de conselhos e organismos profissionais, os quais limitam, direcionam, autorizam e desautorizam estudos, olhares, sentires, percepções daquilo que ultrapassa as fronteiras do dizível?

Essa questão é antiga, um clássico, na verdade!

Fritjof Capra, ao lembrar Werner Heisenberg: “Meu interesse pela mudança da nova visão de mundo na ciência e na sociedade foi despertado quando eu, ainda um jovem estudante de física de dezenove anos, li Física e Filosofia de Werner Heisenberg. (...) Onde descreve e analisa o singular dilema enfrentado pelos físicos (...) quando começaram a explorar a estrutura dos átomos e a natureza dos fenômenos subatômicos. Essa exploração os colocou em contato com uma estranha e inesperada realidade, que estilhaçou os alicerces da sua visão de mundo e os forçou a pensar de maneira inteiramente nova. (...) Em suas tentativas de compreender a natureza dos fenômenos subatômicos, os cientistas tornaram-se dolorosamente cientes de que seus conceitos básicos, sua linguagem e todo o seu modo de pensar eram inadequados para a descrição dessa nova realidade.” (Sabedoria Incomum. Pág. 13.)

Em Filosofia Clínica é comum a relação com o incomum. O conceito de singularidade e o novo constructo metodológico, permitem acolher, transitar, interagir, e compreender o sujeito partilhante em seu próprio território, reivindicando do filósofo uma expressividade aprendiz, onde terá subsídios para conhecer uma estrutura de pensamento em momentos de anúncio.  

Nesse sentido, o filósofo terá de exercitar-se em múltiplas expressividades, a partir de seu encontro com o inédito de cada atendimento. Sem perder de vista seu papel existencial cuidador e seu planejamento dinâmico, encontra uma referência nesse ângulo de visão - algumas vezes escorregadio -, para compreender essa escuta que se desloca para transcrever a epistemologia do estranho.   

Como lidar com essa tez de indeterminação, desrazão, singularidade, sem perder-se no outro lado da relação clínica?

Talvez Capra nos auxilie: “O grande feito de Heisenberg foi expressar essas limitações dos conceitos clássicos de uma forma matematicamente precisa - que hoje leva seu nome - e é conhecida como ‘princípio de indeterminação’. (...) O princípio de indeterminação mede o grau em que o cientista influencia as propriedades dos objetos observados pelo próprio processo de mensuração.”   (Sabedoria incomum, pág. 15.)

Ao pensarmos com esse subsídio teórico-prático, aplicado a nossa lógica aprendiz, se pode entender o movimento intelectivo existencial do filósofo clínico, ao deslocar-se em recíproca de inversão e inversão, na relação terapêutica. Com o cuidado e a atenção necessários para encontrar e compreender a pessoa diante de si mesma sendo outra.  

Uma redução fenomenológica auxilia o processo de acolhimento da matéria-prima com a qual o filósofo irá trabalhar, com um mínimo de agendamentos, num território em vias de investigação compartilhada. A epoché também vai ajudar na percepção das intervenções clínicas, sua natureza e alcance na malha intelectiva do partilhante, bem assim as elaborações na estrutura de pensamento do filósofo, ao ser agendado pelas palavras e discurso existencial com os quais trabalha.

Assim é possível estar atento para uma realidade mutante, a qual assume, na provisoriedade do instante precursor, uma tez de invisibilidade, a qual reivindica uma abordagem cúmplice para se mostrar e insinuar alguma forma de tradução ao filósofo clínico. Ao manter uma interseção com base em agendamentos mínimos, dado padrão, literalidade, atualização discursiva, e outros, o filósofo pode construir uma abordagem específica para cada pessoa em atendimento, bem assim, as modificações que vão acontecendo em sua estrutura pelas vivências da hora-sessão.

Fritjof Capra recorda ‘O ponto de mutação’: Um paradigma, para mim, significaria a totalidade de pensamentos, percepções e valores que formam uma determinada visão de realidade, uma visão que é a base do modo como uma sociedade se organiza.” (Sabedoria incomum, pág. 17.)

A mudança de paradigma pressupõe pessoas (pesquisadores) diferenciados, precursores, pensadores desacostumados com uma zona de conforto em sua área de trabalho. Noutras palavras, reivindica uma inquietude curiosa e uma aptidão para navegar em mar aberto, com os riscos que essa atitude oferece, a insegurança de adentrar em águas desconhecidas, conviver e descrever suas nuances, desvios narrativos, contradições, em busca de um eixo significativo de expressão onde outros encontravam somente desatino ou desrazão.

As mudanças resultantes na vida de cada pessoa, a partir de uma terapia, costuma modificar seu meio social. Noutras palavras, uma transformação com base na estrutura de pensamento, impactando a representação de mundo de cada um, soa algo revolucionário, capaz de agendar e imprimir transformações - inicialmente invisíveis - interferindo na realidade das ruas. Depois disso, na cumplicidade da categoria tempo, os princípios de verdades estabelecem regras e normas para abraçar e cristalizar as novas ideias em ciência normal.

Aquele abraço,

hs