Dias Perfeitos
O filme Dias Perfeitos, com
direção e roteiro de Wim Wenders, é de 2023. Tem a duração de 123 min, numa
produção da Alemanha e Japão. Disponível no Prime vídeo. Se pode imaginar o
tempo para sua produção, desde as primeiras ideias, escritas, reescritas, busca
por investimentos, as versões preliminares, escolha de personagens, fotografia,
música, filmagens, edições.
Ao compreender a obra como indício
de uma autobiografia, é importante recordar que Wim Wenders estudou medicina e
filosofia, abandonando a faculdade para se dedicar as suas paixões: o cinema e
as artes visuais. Desconstruindo, sob muitos aspectos, uma lógica da tradição
escolar. Assim é possível encontrar suas digitais em sua estética.
Dias Perfeitos descreve
o cotidiano de um sujeito em tempo próprio. Sua semiose preferida é o silêncio
conjugado ao olhar sobre os acontecimentos de sua vida. O filme sugere um esboço
para algo imune a passagem do tempo. Seu enredo acolhe a expressão de um vagar sem
pressa ao sabor dos dias.
O personagem Hirayama é zelador e
limpa banheiros em Tóquio. A descrição de sua atividade revela uma prosa
poética singular, por onde os eventos valorizam o instante multifacetado de
cada cena. Uma tez de inacabamento parece descrever a obra de Wim Wenders,
semelhante a vida de cada um, ainda quando se tenta cristalizar sua expressão em
protocolos, diagnósticos, prognósticos.
A obra apresenta as poéticas da
singularidade em vias de introspecção, deslocamentos curtos, recíproca de
inversão, como proposta de algo para chamar de seu. Nesse sentido o discurso
existencial do personagem compartilha algo incomum, destaca seu gosto pela
música, livros, fotografia, numa interseção diferenciada com as coisas,
pessoas, a vida ao seu redor.
Em um momento da obra, a visita
inesperada da sobrinha, uma das poucas que o compreendem, desloca,
momentaneamente, seu cotidiano, para acolher uma interseção afim com suas
verdades. A menina, que fugiu de casa pelas diferenças com a mãe, prefere a
forma de vida do seu tio, o acompanha em seu trabalho, lê seus livros, ouve
suas músicas, anda de bicicleta com ele, dialoga ... O lugar onde Hirayama mora
é simples, ele dorme no chão em meio a seus livros. Seu dia a dia, no entanto,
é repleto de uma magia incompreensível aos modelos pré-concebidos dos
princípios de verdade. A lógica de um consumo desenfreado não cabe em seus
dias. Ao olhar desavisado, sua vida parece ser sempre a mesma. Enquanto isso, o
texto convida a desvendar a originalidade em cada cena,
Talvez sua melhor tradução seja a
esteticidade seletiva, por onde compartilha preferências musicais, literárias, fotografando
aquilo que escapa ao olhar comum, não com o objetivo de se destacar, competir,
aconselhar, mas num convite para reencontrar a si mesmo em cada manhã.
O roteiro nos recorda os encantos
de um devir singular, o qual sendo o mesmo já é outro, inaugurando em cada - minúsculo
- evento inéditas possibilidades existenciais. Trata-se de acontecimentos
recheados de vida, reivindicando um tempo próprio para decifrar suas nuances de
sabor e cor.
A expressividade de Hirayama
compartilha momentos onde se poderia morar. O filme é generoso nesses encontros
com o extraordinário, os instantes refugiados numa fenomenologia fugaz,
reivindicam uma sintonia diferenciada para se mostrar. Uma simplicidade
complexa se insinua na brisa leve da copa das árvores, registradas pela fotografia
do personagem.
Sua bicicleta é a companhia
favorita para os finais de semana, quando leva sua roupa para lavar, revela
seus filmes, qualifica suas leituras, ouve suas músicas em fitas cassete. Seu
jeito de ser encontra numa jovem a interseção com seu gosto singular. Sua
família, com exceção da sobrinha, não o entende. A maioria das melodias são dos
anos 1970/1980, reapresentando um estilo musical e a poesia de algo que parecia
esquecido.
Wim Wenders recupera um tom
favorável ao ser analógico, em meio a velocidade vertiginosa da internet e
coadjuvantes. O roteiro ensina sobre a condição humana exilada em um devir,
muitas vezes incompreendida, refém de rótulos, tipologias, por quem não dispõe
de meios para compreendê-la em seu jeito peculiar de existir.
O filme, semelhante aos eventos
da hora-sessão, convida a um exercício de desaceleração para um reencontro
consigo mesmo, investigando os deslocamentos do cotidiano, seus devaneios,
reflexões, e algo mais, a perseguir-se pelas esquinas e calçadas, visitando
jardins, compartilhando um café, assistindo um filme, saboreando a vida sem
pressa, acolhendo seus dias num protagonismo para ser sujeito na própria
história.
Nesse sentido a obra permite
cogitar sobre a poética existencial de todos e cada um, por onde se imprimem
rastros de que alguém passou por aqui, apesar das iniciativas e agendamentos para
significar singularidade em espírito de multidão.
Aquele abraço,
*hs
**Texto originalmente publicado
na edição verão/2025 da revista da Casa da Filosofia Clínica
.jpg)

.webp)