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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 60***

                                                   Dias Perfeitos       

O filme Dias Perfeitos, com direção e roteiro de Wim Wenders, é de 2023. Tem a duração de 123 min, numa produção da Alemanha e Japão. Disponível no Prime vídeo. Se pode imaginar o tempo para sua produção, desde as primeiras ideias, escritas, reescritas, busca por investimentos, as versões preliminares, escolha de personagens, fotografia, música, filmagens, edições.

Ao compreender a obra como indício de uma autobiografia, é importante recordar que Wim Wenders estudou medicina e filosofia, abandonando a faculdade para se dedicar as suas paixões: o cinema e as artes visuais. Desconstruindo, sob muitos aspectos, uma lógica da tradição escolar. Assim é possível encontrar suas digitais em sua estética.

Dias Perfeitos descreve o cotidiano de um sujeito em tempo próprio. Sua semiose preferida é o silêncio conjugado ao olhar sobre os acontecimentos de sua vida. O filme sugere um esboço para algo imune a passagem do tempo. Seu enredo acolhe a expressão de um vagar sem pressa ao sabor dos dias.  

O personagem Hirayama é zelador e limpa banheiros em Tóquio. A descrição de sua atividade revela uma prosa poética singular, por onde os eventos valorizam o instante multifacetado de cada cena. Uma tez de inacabamento parece descrever a obra de Wim Wenders, semelhante a vida de cada um, ainda quando se tenta cristalizar sua expressão em protocolos, diagnósticos, prognósticos.  

A obra apresenta as poéticas da singularidade em vias de introspecção, deslocamentos curtos, recíproca de inversão, como proposta de algo para chamar de seu. Nesse sentido o discurso existencial do personagem compartilha algo incomum, destaca seu gosto pela música, livros, fotografia, numa interseção diferenciada com as coisas, pessoas, a vida ao seu redor.

Em um momento da obra, a visita inesperada da sobrinha, uma das poucas que o compreendem, desloca, momentaneamente, seu cotidiano, para acolher uma interseção afim com suas verdades. A menina, que fugiu de casa pelas diferenças com a mãe, prefere a forma de vida do seu tio, o acompanha em seu trabalho, lê seus livros, ouve suas músicas, anda de bicicleta com ele, dialoga ... O lugar onde Hirayama mora é simples, ele dorme no chão em meio a seus livros. Seu dia a dia, no entanto, é repleto de uma magia incompreensível aos modelos pré-concebidos dos princípios de verdade. A lógica de um consumo desenfreado não cabe em seus dias. Ao olhar desavisado, sua vida parece ser sempre a mesma. Enquanto isso, o texto convida a desvendar a originalidade em cada cena,  

Talvez sua melhor tradução seja a esteticidade seletiva, por onde compartilha preferências musicais, literárias, fotografando aquilo que escapa ao olhar comum, não com o objetivo de se destacar, competir, aconselhar, mas num convite para reencontrar a si mesmo em cada manhã.       

O roteiro nos recorda os encantos de um devir singular, o qual sendo o mesmo já é outro, inaugurando em cada - minúsculo - evento inéditas possibilidades existenciais. Trata-se de acontecimentos recheados de vida, reivindicando um tempo próprio para decifrar suas nuances de sabor e cor.

A expressividade de Hirayama compartilha momentos onde se poderia morar. O filme é generoso nesses encontros com o extraordinário, os instantes refugiados numa fenomenologia fugaz, reivindicam uma sintonia diferenciada para se mostrar. Uma simplicidade complexa se insinua na brisa leve da copa das árvores, registradas pela fotografia do personagem.  

Sua bicicleta é a companhia favorita para os finais de semana, quando leva sua roupa para lavar, revela seus filmes, qualifica suas leituras, ouve suas músicas em fitas cassete. Seu jeito de ser encontra numa jovem a interseção com seu gosto singular. Sua família, com exceção da sobrinha, não o entende. A maioria das melodias são dos anos 1970/1980, reapresentando um estilo musical e a poesia de algo que parecia esquecido.

Wim Wenders recupera um tom favorável ao ser analógico, em meio a velocidade vertiginosa da internet e coadjuvantes. O roteiro ensina sobre a condição humana exilada em um devir, muitas vezes incompreendida, refém de rótulos, tipologias, por quem não dispõe de meios para compreendê-la em seu jeito peculiar de existir.  

O filme, semelhante aos eventos da hora-sessão, convida a um exercício de desaceleração para um reencontro consigo mesmo, investigando os deslocamentos do cotidiano, seus devaneios, reflexões, e algo mais, a perseguir-se pelas esquinas e calçadas, visitando jardins, compartilhando um café, assistindo um filme, saboreando a vida sem pressa, acolhendo seus dias num protagonismo para ser sujeito na própria história.

Nesse sentido a obra permite cogitar sobre a poética existencial de todos e cada um, por onde se imprimem rastros de que alguém passou por aqui, apesar das iniciativas e agendamentos para significar singularidade em espírito de multidão.     

Aquele abraço,

*hs

**Texto originalmente publicado na edição verão/2025 da revista da Casa da Filosofia Clínica

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 59*


                                        Percepção Incomum 

O filme: "Edward Mãos de Tesoura" é de 1990, com direção de Tim Burton. Uma produção dos EUA e duração de 1h45min. Roteiro de Caroline Thompson e Tim Burton. No elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, dentre outros.

Sua reflexão pode ser abordada de múltiplos pontos de vista, tantos quantos forem os envolvidos com sua análise e sintonia. A inspiração para o roteiro vem da adolescência de Tim Burton, ao recuperar ilustrações sobre sua sensação de isolamento e dificuldades em se relacionar com os moradores de sua cidade.

A partir daí, se inicia o trabalho de Caroline Thompson e Tim Burton, para desenvolver esse rascunho preliminar. É significativo lembrar que o esboço se apresenta na percepção de um jovem extraordinário, o qual não consegue se enturmar com o gesso da vida normal. Quase uma aula de enraizamento, reconstrução, deslocamento longo, para atualizar uma autopercepção de Tim Burton.

As cenas iniciais destacam uma aptidão - borogodó - de Peg, vendedora de Avon, a qual, ao encontrar Edward morando sozinho num castelo abandonado, manifesta uma plasticidade peculiar, mantendo com ele uma interseção incomum de acolhimento e cuidados com sua expressividade, sem julgar, classificar ou tipologizar.    

Um ponto de interesse é a afirmação de Edward (raro momento de fala do personagem), ao ser descoberto num canto da sala, em meio as sombras, de que “estava incompleto”, ou seja, por ter tesouras no lugar das mãos, deixava entrever uma sensação de abandono, desmerecimento.   

A ideia de exclusão, tão comum, como efeito colateral das lógicas de consumo, onde pessoas se transformam em objeto de desejo, para consumir e ser consumido pelo lucro a qualquer preço, sustenta a proliferação de diagnósticos (ideologias de saber-poder) para enquadrar o fenômeno humano multifacetado, o qual, a cada tentativa de aprisionamento interpretativo, se desdobra para reapresentar-se noutras formas de existir (singularidade). Haja síndrome, espectro, transtorno, para cristalizar aquilo que se multiplica a cada olhar. Questão de método!   

Após as críticas e desconfianças iniciais, Edward é aceito pelos moradores, pois tem algo que lhes interessa, isto é, oferece gratuitamente suas habilidades para elaborar cortes de cabelo as mulheres do bairro, arruma seus quintais, tosa seus cachorros. Decora o bairro inteiro com sua estética, transformando a paisagem, enriquecendo ruas e jardins com sua expressão, tem olhos para a beleza e harmonia em todas as coisas.

Edward, ao não ser - exatamente - humano ou robô, inclui um personagem contraditório com as lógicas de entendimento da vida como algo linear, recheadas de fundamentos para direcionamento comportamental, onde protocolos, laudos, diagnósticos, cumprem um papel de manutenção da ilusão de controle as verdades de laboratório.  

Existem muitos desvãos no filme associados ao tema principal, como o fato de Edward sentar-se na calçada ao lado de um cão, ao qual oferece seus serviços de estética, fazendo o que sabia fazer, compartilhar cuidado e carinho. Sem esquecer a maldade no meio do caminho, numa cena em que se tenta classificar o personagem como uma ameaça - por ser diferente -, forjando situações onde sua inocência e ingenuidade são reféns de alguns membros da comunidade.   

O filme, no que se refere a Edward, lembra a maestria de Chaplin, pois o personagem quase não fala, se expressando em atitudes com as pessoas e o mundo ao seu redor.  Nesse sentido lembra o conceito de discurso existencial em Filosofia Clínica, superando a ilusão de que uma retórica e boa apresentação pessoal podem bastar para uma leitura confiável, reivindicando um convívio continuado para se ter uma aproximação de qualidade entre o que se diz e o que se faz.   

Aquele abraço,

*hs