A mitologia Grega descreve Proteu
como um deus marinho com habilidade para assumir múltiplas formas. Seu rol de
competências integra versatilidade, adaptabilidade, flexibilidade.
Ao ter uma plasticidade apta a se
moldar e conviver com circunstâncias difusas, essa espécie se assemelha ao
papel existencial do filósofo clínico, o qual, sem perder de vista sua
expressividade é capaz de acolher, visitar, interagir com as lógicas da
diferença.
Essa característica pode ser
ininteligível, sem um borogodó para acessar uma condição singular. Nossa
cultura impregnada das metodologias da tradição, referendadas pela lógica: você
sabe com quem está falando? E os acréscimos infindáveis de novas patologias, em busca da sustentação corporativa, aprisionam o fenômeno humano em uma
só versão.
A definição acadêmica acredita
ter uma base sólida para suas convicções sobre as pessoas. Assim propõe narrativas
para sustentar ideologias sem comprovação objetiva. A estrutura de pensamento, ao
ser singular, multifacetada, reivindica uma abordagem em sintonia com seu devir
existencial.
A lógica Proteu possui uma
relação contraditória com o gesso diagnóstico. Nesse sentido, é fácil entender
seu desajuste com agendamentos de para sempre, ou seja, a palavra-lei
do alienista e sua sentença de prisão perpétua. A cristalização humana sob a
ótica psiquiátrica, passa a ter nomes: síndromes, espectros, autismos,
esquizofrenias, ao gosto de uma ideologia disfarçada de medicina, sua proposta? Engessar expressividades num
molde socialmente aceito.
É necessário esclarecer que doenças
mentais não existem, são fabricadas por uma estrutura articulada, que
inclui universidades, escolas de pós-graduação, hospícios, clínicas de saúde
mental. Inventadas para submeter pessoas que apreciam pensar, refletir,
analisar, questionar, contraditórias com a hegemonia da burrice a qualquer
preço.
A oferta generosa de diagnósticos,
prognósticos, é submissa a lógica da indústria de psicofármacos e seus lucros faraônicos,
a qual encontra profissionais para desempenhar o papel de caixeiro-viajante
para suas drogas. Suas suposições não
aparecem em exames clínicos de laboratório: exame de sangue, urina, eletros...,
mas em práticas para sustentar corporativismos e distorções interpretativas. Esse
ponto ajuda a entender os agendamentos para a fabricação da loucura.
Ao tratar sujeitos para
normalizar condutas, o que aparece, junto a figura do Psiquiatra, é a própria
anomalia diante do outro. Assim parece coerente interpretar pessoas em vias de
não-ser, como refém de um olhar que vê razão e desrazão em tudo que toca.
O imenso território subjetivo
permanece desconhecido por inteiro, isto é, com a hegemonia das
universalizações, classificações que se somam a cada dia, se acredita poder
conter a singularidade humana em tipos conformados a um só olhar.
Não é raro, em hospitais
psiquiátricos, os profissionais que lá atuam, terem comportamentos
semelhantes aos internos com os quais trabalham. Parece inexistir uma reflexão
sobre o fato de que ao criar uma promessa de cura ou controle para
suas invenções e distorções interpretativas, a Psiquiatria segue amparada por
lei, a produzir loucura diante do espelho. Questão de método!
Talvez a proposta de incluir nos
cursos de Medicina disciplinas como: Antropologia, Filosofia Clínica, Sociologia,
pudesse ajudar a emancipar práticas cuidadoras em lugares onde a fratura
exposta da sociedade se manifesta com força, ritmo, singularidade. Tenho
dúvidas se a arrogância de gestores e professores dessas escolas, teriam a
sensibilidade, humildade, sabedoria, para perceber o alcance limitado de suas
técnicas de conversão do fenômeno humano a um devir existencial incabível a um
padrão de normalidade.
Os diálogos inter e
transdisciplinares poderiam contribuir com a ressignificação dos limites ideológicos,
no entanto, antes de qualquer metodologia, é preciso encontrar profissionais
diferenciados em cada área de atuação, abertos a uma investigação compartilhada sobre o que se tinha até então e os novos paradigmas como a Filosofia Clínica. Lógica Proteus!
Aquele abraço,
*hs
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