Um senso de absurdo excepcional
Uma fenomenologia da leitura
vincula-se a filosofia clínica em um convívio entre realidade e
ficção. As vivências entre uma e outra, descritas nas práticas de leitura e
eventos da hora-sessão, conjugam ingredientes de raridade ao borogodó para
papéis existenciais como: leitor e filósofo clínico.
Ao pensar com a ajuda de Alberto
Manguel, onde este discorre sobre sua relação com Jorge Luis
Borges em Buenos Aires, quando aquele ainda era um livreiro do qual este se
socorria para acessar as novidades literárias na capital Argentina.
Em seu texto Com Borges,
Manguel descreve vivências onde a interseção acontecia através dos livros.
O autor indica: “Para Borges, o
âmago da realidade estava nos livros: em ler livros, escrever livros, conversar
sobre livros.” (Com Borges, 2022. Pág. 29).
Assim os termos agendados no
intelecto servem como uma interlocução onde os envolvidos
estabeleçam uma conexão pelas palavras, seus múltiplos sentidos e derivações. Com
isso uma adição de pontos de vista, reflexões, sensações, análises, cuidam da
construção compartilhada para elaborar aquele algo mais que sempre aparece, de
um jeito ou de outro, numa ou outra expressão, como resultante da qualidade das
páginas dialogadas, seus recortes existenciais.
Se a realidade está nos livros,
os livros também estão na realidade. Influenciam comportamentos, novas ideias,
desconstruções pessoais, reinvenção por suas descrições. Mesmo quando em
rascunhos de um sonhador, seus apontamentos sobre o que vê, sente, admira,
imagina, acrescentam sabor e cor a uma estética singular.
Manguel compartilha: “Borges era
um sonhador entusiasmado e gostava de contar seus sonhos. (...) ‘no mundo do
tudo é possível’, ele sentia que podia se libertar dos seus pensamentos e
medos, que, completamente livres, criariam suas próprias histórias.” (Com
Borges, 2022. Pág. 48).
Uma abordagem aprendiz como a
filosofia clínica, vincula-se aos desdobramentos da vida de seu partilhante,
experienciando em perspectiva, muito do que se passa em sua malha intelectiva,
seja na forma de projetos de vida irrealizados, relação com os outros e consigo
mesmo, devaneios, buscas. Nesse sentido não há que se falar numa divisão clara
e definitiva entre realidade e irrealidade, pois nos eventos da hora-sessão os
conteúdos se desdobram para integrar outra coisa.
A redução fenomenológica para acolher
a pessoa em seus ensaios de expressividade, é uma característica essencial para
interagir com sua singularidade, sem os ranços da tipologia e classificação
psiquiátrica, hoje em dia disfarçadas de síndromes, espectros, transtornos. Ainda
assim produzindo vítimas para a indústria de psicofármacos, transformando pessoas
em objeto de cristalização diagnóstica e prognóstica.
Em outras palavras, quem ainda
hoje se atreve a sonhar? Ter devaneios, expressar sentimentos a luz do dia?
Investir em algo extraordinário ao olhar de multidão dos princípios de verdade?
A guilhotina do alienista e coadjuvantes se encontra em cada esquina, muitas
vezes na própria casa, acenando com a camisa de força das suas verdades.
A obra dá pistas: “Em ‘Pierre
Menard, autor do Quixote’, ele argumentou que o livro muda de acordo com os
atributos do leitor.” (Com Borges, 2022. Pág. 58).
Algo de excepcional acontece
quando duas ou mais pessoas se envolvem na leitura e partilha sobre uma obra
literária, bem assim no espaço da clínica, onde os eventos possuem o ineditismo das pessoas envolvidas, tendo como bússola a qualidade da interseção.
Existe alguma lucidez em perceber
nas brumas de um discurso existencial, uma representação de mundo em vias de
ensaio, a qual costuma agendar, do lado a lado da relação, seja de autor para
leitor ou partilhante para filósofo, insinuações para construção
compartilhada. Um desses momentos de onde não se sai o mesmo, tendo como fonte
de inspiração a matéria-prima do que permanece enquanto muda.
Aquele abraço,
*hs
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