O baile das loucas
A obra recheada de talento e
sensibilidade, realiza um convite para testemunhar e sentir - ainda que em
perspectiva - circunstâncias cujo debate permanece atual: O baile das
loucas. França. 2021. 114 min. Escrito, dirigido e atuado por Mélanie
Laurent. Disponível no Prime vídeo.
Seu roteiro compartilha uma
reflexão crítica sobre a vida em meados do século XIX, onde uma determinada
classe social, para manter sua hegemonia, internava no hospício de Salpêtriére,
seus desafetos, quem buscava superar a forma de vida de seu tempo ou denunciava
as injustiças, desmerecimentos, preconceitos.
A autora destaca alguns
componentes da internação involuntária, ou seja, a proposta de transformar
pessoas íntegras e expressivas consigo mesmas em objeto de manipulação e
controle pela Psiquiatria, na época representada pela festejado Jean-Martin
Charcot e seus cúmplices.
O texto descreve a realidade das
mulheres internadas e isoladas da sociedade. As formas como elaboram sua
resistência e redes de apoio, em relação a instituição que as torturava à guisa
de tratamento - como acontece ainda hoje -. A metodologia para submeter e
manipular singularidades - não raras vezes genialidades - exerce seu
saber-poder amparada em leis, decretos, normas jurídicas que autorizam
determinados profissionais a conter, interditar, oferecer uma cura para
algo inexistente: doença mental. A
menos que se traduza doença mental como a resultante das intervenções da própria
psiquiatria, como ensinam psiquiatras da antipsiquiatria como: David
Cooper, Ronald Laing, Thomas Szasz.
Existem muitas nuances
significativas no roteiro, direção e atuação de Mélanie Laurent, onde seu olhar
se coloca em reciprocidade com os destituídos de voz e vez. Um texto de alerta
para o que se faz ainda hoje, como sustentação de metodologias que propõe a
inclusão para uma narrativa de normalidade excludente. Assim, os disfarces se
multiplicam, como a invenção de síndromes e distúrbios, para justificar e legalizar
práticas de submissão do fenômeno humano singular as lógicas de rebanho.
Nesse sentido, a autora aponta,
como exemplo de abuso, o caso de um médico assistente de Charcot, o qual simula
estar apaixonado por uma interna para satisfazer sua própria sexualidade. As
práticas de tortura - à guisa de tratamento - como: hidroterapia (contenção da
pessoa nua numa caixa lacrada com gelo), celas escuras e isoladas,
camisa de força, choques elétricos, insulínicos, em um lugar onde a palavra do
psiquiatra é lei, inclusive com o apoio da sociedade daquele tempo, a qual
festeja essas intervenções e maus tratos como a cura para seus males.
Em outra cena, o doutor Charcot
hipnotiza uma paciente, num auditório com estudantes e profissionais, para
demonstrar sua metodologia de cura para a histeria feminina, ou seja,
pela força de seus agendamentos pessoais e institucionais, consegue submeter
algumas internas as suas práticas para fabricação da loucura. Num desses
episódios, ao hipnotizar uma paciente, o psiquiatra produz uma crise
epiléptica. Ao perceber a jovem caída no chão, com espasmos e se contorcendo,
Charcot vira as costas e sai andando.
As personagens femininas
principais: a enfermeira chefe (Mélanie Laurent) e uma interna com habilidades
mediúnicas (Lou de Laâge), tem uma interseção positiva através dos dons
mediúnicos da interna, a qual consegue ouvir e compartilhar mensagens de sua irmã.
O filme também demonstra, dentre
outros aspectos, a força da ideologia social, a qual, para se manter, é capaz
de submeter qualquer um, mesmo da própria família, amigos, colegas, para sustentar
a estrutura funcionando a qualquer preço. Assim, questionar ou refletir sobre
eventos como a desigualdade social, ou, no caso das mulheres, buscar alguma
forma de emancipação de sua expressividade, pode significar, como em nosso caso
no Brasil, como descreve a jornalista Daniela Arbex, em sua obra: Holocausto
brasileiro, sobre o complexo manicomial de Barbacena/MG, onde foram presos
e exterminados mais de 60.000 brasileiros, em condições semelhantes a descrição
do filme: O baile das loucas.
A Casa da Filosofia Clínica trabalha
e se associa as propostas para superar a produção da loucura descrita em
obras literárias, filmes, crônicas do cotidiano, como um alerta sobre a lógica
das instituições totais, e sua oferta de cura para aquilo que não tem cura,
por não ser doença! Quase sempre, trata-se de um fenômeno produzido na própria
instituição. Com a lógica psiquiátrica e seus cúmplices, as classificações da
desrazão encontram sua fonte de inspiração.
Talvez um diálogo inter e
transdisciplinar, pudesse esclarecer, qualificar estudos e práticas com pessoas
em seus momentos de desconstrução e ressignificação pessoal. Questão de método.
As escolas de psiquiatria, com foco numa medicina do corpo - teriam condições
de acolher essas reflexões críticas, os ensinamentos dos novos paradigmas,
transformando suas verdades em uma lógica aprendiz? Suspeito que não!
Aquele abraço,
hs
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