Desclassificados
Há algum tempo as poéticas da singularidade vem apresentando seus heróis e heroínas como uma gente desclassificada. Uma tribo com aspecto desajustado, de tez aventureira, desalinhados, de pátria indefinida, sobrevivendo na periferia de um mundo conformado.
Para localizar sua existência,
pode ser necessário ajustar as lentes do olhar para as entrelinhas, as margens,
onde escritores, músicos, poetas, roteiristas, diretores de cinema, as belas
artes, e outros se refugiam para proteger seu ser inclassificável.
Um paradoxo com as verdades do deus dinheiro, aparece como pré-condição para encontrar os refúgios onde gente sem nome ou sobrenome coopera para viver seus possíveis. Não são os senhores da guerra em busca de poder, riqueza material, sobrevivem à custa de uma atividade invisível, de difícil acesso, refugiada no zoom das construções compartilhadas, descrevem-se em linguagem própria para não ser cristalizados em uma só definição.
Ser desclassificado é viver bem, à margem dos eventos comuns, num devir intraduzível pela ótica dos consensos. Para ter uma sobrevida em relação a novidade que não consegue acessar, a nomenclatura institucional expõe os limites de seu olhar, ao inventar classificações como justificativa. Questão de método!
Antonin Artaud indica: “Havia
muito tempo que a pintura linear pura me enlouquecia, até que encontrei Van
Gogh que pintava, não linhas ou formas, mas coisas da natureza inerte como se
estivessem em plena convulsão.” (Van Gogh – O suicida da sociedade, 2007. Pág.
45).
Talvez alguns consigam elaborar
sua desclassificação pelo texto literário, roteiros do teatro e do cinema, na
poesia incompreendida dos amantes, as telas do artista e seus esboços de não-ser,
meios para localizar as vozes, os ritmos, as imagens silenciadas.
A realidade do hospício, a
clausura dos seminários, quartéis, internatos, cemitérios, continua a emitir sons
incompreendidos, seus manuscritos e oralidades anunciam nos rascunhos da
insensatez, as formas do inclassificável. Denunciam a vida normalizada - a qualquer
preço -, onde sujeitos viram objeto, reféns da camisa de força invisível,
contida na ideologia dos castrados.
Com Artaud: “(...) foi assim que
uma sociedade tarada inventou a psiquiatria, para defender-se das investigações
feitas por algumas inteligências extraordinariamente lúcidas, cujas faculdades
de adivinhação a incomodavam. Gérard de Nerval não estava louco, mas o acusaram
de estar louco para desacreditar certas revelações fundamentais que estava em
vias de fazer” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 162).
O ato institucional para definir:
saúde x doença, normalidade x loucura, validez x invalidez, apto x inapto,
classificados x desclassificados, contêm rituais de mordaça aos eventos da
singularidade. Sua essência são as propostas para manutenção de uma sociedade
de alienados.
A lógica robô deve se emancipar
em breve, onde o fenômeno humano poderá ser descartado, tornando-se obsoleto
por suas próprias mãos. Ser desclassificado pode significar o último refúgio para
a raça humana, em vias de extermínio, em uma realidade distante da fenomenologia
da singularidade.
O texto refere: “Não, Van Gogh
não estava louco, mas suas telas eram jorros de substância incendiária (...) ao
contrário de todas as outras pinturas com prestígio na sua época, teria sido
capaz de perturbar seriamente o conformismo espectral da burguesia do Segundo
Império (...). Diante da lucidez ativa de Van Gogh, a psiquiatria nada mais é
que um reduto de gorilas obcecados e perseguidos que, para aplacar os mais
espantosos estados de angústia e asfixia humana, só dispõem de uma ridícula
terminologia. (...)” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 163).
Aos desavisados se oferece um bilhete
- quase ilegível - um pouco antes do abismo cavado por suas próprias mãos, ou
seja, perseguir a lógica aprendiz que atua no centro de todo lugar, para
encontrar a originalidade descrita pelos desclassificados, contraditória com a
lucidez delirante de seus espelhos.
Aquele abraço,
*hs
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