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Você está no espaço Descrituras. Aqui encontrará alguns textos publicados, inéditos e outros esboços de minha autoria. Boa leitura.

historicidade das publicações

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Filosofia Clínica Agridoce 45*

 

                                                Desclassificados

Há algum tempo as poéticas da singularidade vem apresentando seus heróis e heroínas como uma gente desclassificada. Uma tribo com aspecto desajustado, de tez aventureira, desalinhados, de pátria indefinida, sobrevivendo na periferia de um mundo conformado.  

Para localizar sua existência, pode ser necessário ajustar as lentes do olhar para as entrelinhas, as margens, onde escritores, músicos, poetas, roteiristas, diretores de cinema, as belas artes, e outros se refugiam para proteger seu ser inclassificável.

Um paradoxo com as verdades do deus dinheiro, aparece como pré-condição para encontrar os refúgios onde gente sem nome ou sobrenome coopera para viver seus possíveis. Não são os senhores da guerra em busca de poder, riqueza material, sobrevivem à custa de uma atividade invisível, de difícil acesso, refugiada no zoom das construções compartilhadas, descrevem-se em linguagem própria para não ser cristalizados em uma só definição. 

Ser desclassificado é viver bem, à margem dos eventos comuns, num devir intraduzível pela ótica dos consensos. Para ter uma sobrevida em relação a novidade que não consegue acessar, a nomenclatura institucional expõe os limites de seu olhar, ao inventar classificações como justificativa. Questão de método!       

Antonin Artaud indica: “Havia muito tempo que a pintura linear pura me enlouquecia, até que encontrei Van Gogh que pintava, não linhas ou formas, mas coisas da natureza inerte como se estivessem em plena convulsão.” (Van Gogh – O suicida da sociedade, 2007. Pág. 45).

Talvez alguns consigam elaborar sua desclassificação pelo texto literário, roteiros do teatro e do cinema, na poesia incompreendida dos amantes, as telas do artista e seus esboços de não-ser, meios para localizar as vozes, os ritmos, as imagens silenciadas.

A realidade do hospício, a clausura dos seminários, quartéis, internatos, cemitérios, continua a emitir sons incompreendidos, seus manuscritos e oralidades anunciam nos rascunhos da insensatez, as formas do inclassificável. Denunciam a vida normalizada - a qualquer preço -, onde sujeitos viram objeto, reféns da camisa de força invisível, contida na ideologia dos castrados.  

Com Artaud: “(...) foi assim que uma sociedade tarada inventou a psiquiatria, para defender-se das investigações feitas por algumas inteligências extraordinariamente lúcidas, cujas faculdades de adivinhação a incomodavam. Gérard de Nerval não estava louco, mas o acusaram de estar louco para desacreditar certas revelações fundamentais que estava em vias de fazer” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 162).

O ato institucional para definir: saúde x doença, normalidade x loucura, validez x invalidez, apto x inapto, classificados x desclassificados, contêm rituais de mordaça aos eventos da singularidade. Sua essência são as propostas para manutenção de uma sociedade de alienados.   

A lógica robô deve se emancipar em breve, onde o fenômeno humano poderá ser descartado, tornando-se obsoleto por suas próprias mãos. Ser desclassificado pode significar o último refúgio para a raça humana, em vias de extermínio, em uma realidade distante da fenomenologia da singularidade.

O texto refere: “Não, Van Gogh não estava louco, mas suas telas eram jorros de substância incendiária (...) ao contrário de todas as outras pinturas com prestígio na sua época, teria sido capaz de perturbar seriamente o conformismo espectral da burguesia do Segundo Império (...). Diante da lucidez ativa de Van Gogh, a psiquiatria nada mais é que um reduto de gorilas obcecados e perseguidos que, para aplacar os mais espantosos estados de angústia e asfixia humana, só dispõem de uma ridícula terminologia. (...)” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 163).

Aos desavisados se oferece um bilhete - quase ilegível - um pouco antes do abismo cavado por suas próprias mãos, ou seja, perseguir a lógica aprendiz que atua no centro de todo lugar, para encontrar a originalidade descrita pelos desclassificados, contraditória com a lucidez delirante de seus espelhos.

Aquele abraço,

*hs    

domingo, 3 de novembro de 2024

Filosofia Clínica Agridoce 44*

Ao tecer alguns apontamentos sobre a arte de ler, em um convívio com as páginas de um livro, numa leitura agradável e sem pressa, é possível sentir a experiência de ter vivido muitas vidas em suas histórias. Algo recheado de incompletudes, quando se tenta aprisionar a palavra numa só direção, para descrever o prazer da hora leitura. A ilegibilidade de um texto costuma se refugiar nas entrelinhas de um parágrafo qualquer, um desse lugares onde a escritura e seu leitor se encontram, para compartilhar originalidades.

Os acontecimentos do dia a dia poderiam contar algo mais sobre a correria das pessoas a perseguir metas sem sentido. Colocando suas vidas como reféns da propaganda, do marketing, e suas indicações sobre como se preparar para correr mais depressa, comer rápido, dormir pouco, acreditar que leitura dinâmica é leitura, passar os olhos pelas redes sociais, acolher a lógica tik tok.

As lógicas da velocidade acenam com algo inalcançável, para isso reinventam metas, acenam riquezas materiais, multiplicam fórmulas sobre o que pensar, como viver. Talvez um dia se comece a suspeitar sobre essa forma de sobrevida, para reencontrar sabor e cor num cotidiano que não volta. Começar a sentir a vida de outros ângulos, em sintonia com a expressividade de um tempo com tempo para redigir sua própria história.   

Alberto Manguel indica: “(...) o pensamento requer tempo e profundidade, as duas qualidades essenciais do ato de ler.” (À mesa com o chapeleiro maluco, 2009. Pág. 48).

Para acessar o fenômeno leitura é preciso desacelerar, colocar a mente num estado de abertura e disponibilidade para conviver com os eventos do texto. As páginas de um livro costumam oferecer boas ideias, auxiliam a decifrar incógnitas, reinventar questões, saborear eventos surpreendentes a cada capítulo, desenvolver uma epistemologia aprendiz.   

Se, como afirma Manguel, o pensamento requer tempo e profundidade, como encontrar algo assim num cotidiano apressado, que insiste em se manter a qualquer preço? Pode ser importante lembrar quando foi a última vez que você visitou sua poltrona preferida para reencontrar aquela obra exilada na estante dos esquecidos? Ouvir suas músicas, saborear um café, encontrar alguém para conversar sem ter razão?  

Para ser humano é preciso exercitar uma condição humana, algo singular, inédito, irrepetível, cuja originalidade costuma se abrigar nas contradições de si para si mesmo.   

Com Manguel: “Nessas aberturas entre a borda do papel e a borda da tinta, o leitor pode gerar uma revolução silenciosa e estabelecer uma nova sociedade, na qual a tensão criativa já não se gera entre a página e o texto, mas entre o texto e o leitor.” (À mesa com o chapeleiro maluco, 2009. Pág. 81).

Uma interseção entre autor e leitor, pode significar algo mais ao instante leitura, de onde pode surgir - como passe de mágica - uma pluralidade de hipóteses e experimentações, até então refugiadas nas margens de sua própria estrutura de pensamento. Sua prática, como aliada para exercitar singularidades, pode localizar, com a mediação dos textos, os endereços subjetivos desconsiderados num cotidiano de dívidas existenciais intermináveis.

A criatividade, a invenção, os ensaios contidos num discurso existencial, reivindicam uma aproximação com as lógicas da diferença, para reencontrar - sem pressa - as páginas descartadas, onde se possa reescrever as leituras ainda sem tradução.

Aquele abraço,

hs