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segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 58*

                                                   27 Noites 

O filme argentino 27 noites, Netflix 2025, com roteiro, direção e atuação de Daniel Hendler, com base no livro da escritora Natalia Zito, tem a duração de 1h47min. A obra se inspira em fatos reais, abordando a vida da personagem Martha Hoffman, colecionadora de arte rica, audaciosa, animada.   

Seu argumento se desenvolve com a internação involuntária de Martha (83 anos) por suas filhas em uma clínica psiquiátrica, onde permanece por vinte e sete noites. Com isso é indicado pela justiça um especialista (Casares) para avaliar a condição mental/existencial de Martha. A partir daí os dois mantém uma relação singular, com agendamentos do lado a lado da convivência.

A produção se junta a outras centenas de filmes, livros, peças de teatro, que abordam a vida incompreendida e o tratamento com a camisa de força da bíblia DSM. (questão de método).

Pode-se lembrar: Um estranho no ninho (1976), com Jack Nicholson e direção de Milos Forman, Shine – brilhante (1996), com Geoffrey Rush e direção de Scott Hicks Garota Interrompida (2002) com Winona Ryder e Angelina Jolie e direção de James Mangold, O Pescador de ilusões (2021) com Jeff Bridges e Robin Williams e direção de Terry Gilliam, e outros.

O comportamento fora da curva - a resistência de Marta em não renunciar a si mesma - experienciado pela personagem, descreve, em perspectiva, aquilo que muita gente vivencia em seu cotidiano, ou seja, a sensação de exílio na própria casa. Quando isso acontece, o mundo normalizado, ao ver seu modus operandi ameaçado, se socorre da Psiquiatria, a qual, a partir de um primeiro encontro, recheado de agendamentos familiares do candidato a louco, trata de iniciar a produção da loucura, com isso se estabelece aquilo conhecido como: doença mental.

Os hospitais psiquiátricos, bem como a sociedade que os mantém, são a verdadeira fábrica da loucura, estruturados e mantidos dentro da lei. Assim constituem uma sociedade produtora de desajustes existenciais, de quem não consegue se adaptar ao modo de vida injusto, desigual, onde todos devem querer ser objeto de consumo.

Nos dias de hoje as escolas e seus professores, tem treinamentos para identificar desvios de conduta, ou seja, localizar algum estágio de loucura nascente, através do registro de comportamentos estranhos por parte dos alunos. Nasce assim uma categorização de síndromes, espectros, transtornos, massivamente divulgados como verdade (lembra Joseph Goebbels? Ministro da propaganda de Hitler?) para conter as contradições com o espírito de rebanho.   

Antigamente essas práticas existiam, embora tímidas, nos anos 1960/70 a moda era caracterizar atitudes suspeitas como: disritmia, uma espécie de antessala para a esquizofrenia, outra invenção servindo ao contexto social alienado.

Friedrich Nietzsche alertou para a ilusão dos linguistas em querer dominar o fenômeno humano atribuindo um nome para cada evento. Noutras palavras, acredita-se – ainda hoje – que batizar determinadas atitudes, pode traduzir uma expressão singular.

Nesse sentido, o filme 27 noites atualiza a reflexão sobre o direito de ser expressivo, um tema caro a Filosofia Clínica, a qual possui uma abordagem em sintonia com a fenomenologia da singularidade.

Martha, ao ser desrespeitada por suas filhas e parcela significativa da sociedade, encontra refúgio numa comunidade periférica, num subúrbio de Buenos Aires, onde é acolhida como artista e sujeito de sua história. Nesse endereço existencial ela não é louca, excêntrica ou qualquer outra invenção tipológica, que não a Martha inspirando acolhimento, amor, carinho, características que influenciaram sua relação com o especialista.  

Interessante notar que Casares, designado para enquadrar sua paciente, se depara com um movimento intelectivo conhecido da Filosofia Clínica: a recíproca de inversão. Ao conviver com Martha, o especialista aprofunda sua relação e vivencia circunstâncias inéditas, ao regressar ao seu eixo existencial (inversão), reconhece a limitação de seu jeito de viver.   

A obra, pela limitação de tempo em um roteiro complexo, as necessárias edições para se adequar a realidade cinema, deixa nas entrelinhas conteúdos que poderiam ser abordados, como: a influência da sociedade na relação com pessoas consideradas descartáveis, sejam jovens, adultos, velhos, geralmente em desconformidade com um script previamente elaborado por uma hegemonia comportamental ideologizada (no sentido de Gramsci -como ocultação das verdadeiras intenções).

Assim é possível antever um convívio social com base na dissimulação, jogos de cena, inautenticidade. Quando aparece alguém contraditório com essa norma social, a ameaça surge no horizonte das estruturas de controle e submissão, algo que se inicia na família, escola, igrejas e contamina o eixo da sociedade, oferecendo como produto ótimo de suas intervenções um não-ser chancelado.   

Nos dias de hoje a produção literária, cinematográfica, clínica, e suas derivações, tem encontrado nas periferias e subúrbios uma matéria-prima para suas elaborações criativas, uma forma de resistência em meio a tanto faz de conta e dissimulação, representada pela hegemonia institucional.   

Aquele abraço,

*hs