27 Noites
O filme argentino 27 noites,
Netflix 2025, com roteiro, direção e atuação de Daniel Hendler, com base no
livro da escritora Natalia Zito, tem a duração de 1h47min. A obra se inspira em fatos reais, abordando a vida da personagem Martha Hoffman, colecionadora de arte
rica, audaciosa, animada.
Seu argumento se desenvolve com a
internação involuntária de Martha (83 anos) por suas filhas em uma clínica psiquiátrica, onde permanece por vinte e sete noites. Com isso é indicado pela
justiça um especialista (Casares) para avaliar a condição mental/existencial de
Martha. A partir daí os dois mantém uma relação singular, com agendamentos do
lado a lado da convivência.
A produção se junta a outras centenas
de filmes, livros, peças de teatro, que abordam a vida incompreendida e o
tratamento com a camisa de força da bíblia DSM. (questão de método).
Pode-se lembrar: Um estranho
no ninho (1976), com Jack Nicholson e direção de Milos Forman, Shine –
brilhante (1996), com Geoffrey Rush e direção de Scott Hicks Garota
Interrompida (2002) com Winona Ryder e Angelina Jolie e direção de James
Mangold, O Pescador de ilusões (2021) com Jeff Bridges e Robin Williams
e direção de Terry Gilliam, e outros.
O comportamento fora da curva - a
resistência de Marta em não renunciar a si mesma - experienciado pela personagem,
descreve, em perspectiva, aquilo que muita gente vivencia em seu cotidiano, ou
seja, a sensação de exílio na própria casa. Quando isso acontece, o mundo normalizado,
ao ver seu modus operandi ameaçado, se socorre da Psiquiatria, a qual, a
partir de um primeiro encontro, recheado de agendamentos familiares do
candidato a louco, trata de iniciar a produção da loucura, com
isso se estabelece aquilo conhecido como: doença mental.
Os hospitais psiquiátricos, bem
como a sociedade que os mantém, são a verdadeira fábrica da loucura,
estruturados e mantidos dentro da lei. Assim constituem uma sociedade produtora
de desajustes existenciais, de quem não consegue se adaptar ao modo de vida injusto,
desigual, onde todos devem querer ser objeto de consumo.
Nos dias de hoje as escolas e
seus professores, tem treinamentos para identificar desvios de conduta, ou
seja, localizar algum estágio de loucura nascente, através do registro
de comportamentos estranhos por parte dos alunos. Nasce assim uma categorização
de síndromes, espectros, transtornos, massivamente divulgados como verdade (lembra
Joseph Goebbels? Ministro da propaganda de Hitler?) para conter as contradições
com o espírito de rebanho.
Antigamente essas práticas existiam,
embora tímidas, nos anos 1960/70 a moda era caracterizar atitudes suspeitas
como: disritmia, uma espécie de antessala para a esquizofrenia,
outra invenção servindo ao contexto social alienado.
Friedrich Nietzsche alertou para
a ilusão dos linguistas em querer dominar o fenômeno humano atribuindo um nome
para cada evento. Noutras palavras, acredita-se – ainda hoje – que batizar determinadas
atitudes, pode traduzir uma expressão singular.
Nesse sentido, o filme 27
noites atualiza a reflexão sobre o direito de ser expressivo, um tema caro a
Filosofia Clínica, a qual possui uma abordagem em sintonia com a fenomenologia
da singularidade.
Martha, ao ser desrespeitada por
suas filhas e parcela significativa da sociedade, encontra refúgio numa
comunidade periférica, num subúrbio de Buenos Aires, onde é acolhida como
artista e sujeito de sua história. Nesse endereço existencial ela não é louca,
excêntrica ou qualquer outra invenção tipológica, que não a Martha inspirando acolhimento,
amor, carinho, características que influenciaram sua relação com o especialista.
Interessante notar que Casares, designado
para enquadrar sua paciente, se depara com um movimento intelectivo conhecido
da Filosofia Clínica: a recíproca de inversão. Ao conviver com Martha, o especialista
aprofunda sua relação e vivencia circunstâncias inéditas, ao
regressar ao seu eixo existencial (inversão), reconhece a limitação de seu
jeito de viver.
A obra, pela limitação de tempo em
um roteiro complexo, as necessárias edições para se adequar a realidade cinema,
deixa nas entrelinhas conteúdos que poderiam ser abordados, como: a influência
da sociedade na relação com pessoas consideradas descartáveis, sejam jovens,
adultos, velhos, geralmente em desconformidade com um script previamente
elaborado por uma hegemonia comportamental ideologizada (no sentido de Gramsci -como
ocultação das verdadeiras intenções).
Assim é possível antever um
convívio social com base na dissimulação, jogos de cena, inautenticidade.
Quando aparece alguém contraditório com essa norma social, a ameaça surge no
horizonte das estruturas de controle e submissão, algo que se inicia na
família, escola, igrejas e contamina o eixo da sociedade, oferecendo como
produto ótimo de suas intervenções um não-ser chancelado.
Nos dias de hoje a produção
literária, cinematográfica, clínica, e suas derivações, tem encontrado nas
periferias e subúrbios uma matéria-prima para suas elaborações criativas, uma
forma de resistência em meio a tanto faz de conta e dissimulação, representada
pela hegemonia institucional.
Aquele abraço,
*hs
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