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sábado, 5 de julho de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 53*

 

                                    Um sujeito extraordinário 

O filme: A vida extraordinária de Louis Wain, com direção de Will Sharpe, Reino Unido, 2021, com duração de 1h51min, encontrada no Prime, apresenta um esboço da vida do artista inglês, sua condição excepcional ao pintar gatos com agilidade e maestria.  

Sua estética se reveste de paixão dominante e expressividade, traduzindo o que acha de si mesmo, sua representação de mundo, também oferece outras percepções sobre sua singularidade.

As teorias de base Psi vão encontrar síndromes, transtornos, doença mental no personagem, uma vez que Louis não abre mão de ser quem é, numa sociedade (final do séc. 19 e início do séc. 20) impregnada de ranços interpretativos, onde se acreditava que ser feliz era ser aceito socialmente. Lembrando Aristóteles e Schopenhauer: todo mundo é ninguém!  

Hoje em dia quase nada mudou! Quando vejo ex-alunos em busca de aceitação, tentando oferecer uma mescla de Filosofia Clínica com Psicanálise ou Psicologia, percebo que ainda temos dificuldades com o ser sujeito em cada um. Me parece uma covardia epistemológica a tentativa de acochambrar metodologias excludentes, produzindo um Frankenstein em suas práticas.

Quando isso acontece e algo não dá certo, ainda se tem de ouvir coisas como: ‘essa Filosofia Clínica não funciona, carece de fundamentação...’, dentre outras preciosidades. Na base dessa problemática é possível encontrar estudos de formação frágeis, com escassez de teoria e prática, associados a um candidato apressado para acenar sua ignorância aos quatro ventos.  

Louis Wain pode ser entendido de muitas maneiras, tantas quantas as pessoas em busca de acessar seu jeito de ser, não-ser, em conflito com os princípios de verdade de seu tempo. A nomenclatura de surrealista, embora não o traduza por inteiro, parece ser adequada a sua condição pessoal. Sua expressividade é incabível nos apontamentos da crítica especializada.

Uma busca que se mantém, lado a lado com sua manifestação artística, é a tentativa de decifrar a eletricidade do mundo. Noutras palavras, identificar a motivação para a vida de cada um, uma espécie de mapa subjetivo para encontrar a singularidade.

Outro aspecto significativo na obra é o fato de Louis Wain viver com as irmãs, as quais não o entendem e acreditam que ele tenha alguma forma de loucura ou extravagância. O que ameniza essa situação é o fato do artista bancar economicamente a vida da família com seu trabalho. Aliás esse é um indicativo legal da psiquiatria, ou seja, para alguém ser considerado são, basta ter boas relações com a cadeia produtiva do capitalismo. 

Algo novo acontece quando suas irmãs resolvem contratar uma governanta para a casa. A chegada de Emily Richardson, uma pessoa que compreende seu jeito de ser, logo chama a atenção de Louis. Um amor se instala entre eles, desafiando, mais uma vez, as convenções da época, pois uma relação afetiva entre patrão e empregada era inconcebível.

Louis Wain é execrado pela família, apontado na rua por transgredir costumes. No entanto, nada disso o abala, assumindo sua relação e casando-se com Emily, mudando de casa para viver sua vida nova.  

Nesse período da biografia sua atividade criativa parece atingir seu ponto máximo. Mais tarde algo acontece para desagregar esses momentos, os quais retornam mais adiante, para firmar sua expressividade e paixão dominante na arte de desenhar gatos. Nesse ponto, já no final da vida, tem seu trabalho reconhecido, como uma espécie de prêmio de consolação.

A saga de distanciar pessoas de sua melhor expressão continua. Os dias de hoje (séc. 21) ainda se sustentam na hipocrisia social, recheada de boas intenções. A maioria se associa em rede para significar o fenômeno humano como algo comum. A emancipação de uma habilidade ou competência pessoal, pode custar caro ao sujeito, o qual nem sempre terá condições de superar os obstáculos de seu meio.

Talvez filmes, o teatro, literatura, música, as belas artes - terapia nem pensar, para quem acredita ter tudo o que precisa -, possam oferecer pistas a cada um, insinuando o extraordinário às margens da própria estrutura de pensamento.   

Aquele abraço,

*hs