Um sujeito extraordinário
O filme: A vida extraordinária
de Louis Wain, com direção de Will Sharpe, Reino Unido, 2021, com duração
de 1h51min, encontrada no Prime, apresenta um esboço da vida do artista inglês,
sua condição excepcional ao pintar gatos com agilidade e maestria.
Sua estética se reveste de paixão
dominante e expressividade, traduzindo o que acha de si mesmo, sua
representação de mundo, também oferece outras percepções sobre sua
singularidade.
As teorias de base Psi vão
encontrar síndromes, transtornos, doença mental no personagem, uma vez que
Louis não abre mão de ser quem é, numa sociedade (final do séc. 19 e início do
séc. 20) impregnada de ranços interpretativos, onde se acreditava que ser feliz
era ser aceito socialmente. Lembrando Aristóteles e Schopenhauer: todo mundo é
ninguém!
Hoje em dia quase nada mudou! Quando
vejo ex-alunos em busca de aceitação, tentando oferecer uma mescla de Filosofia
Clínica com Psicanálise ou Psicologia, percebo que ainda temos dificuldades com
o ser sujeito em cada um. Me parece uma covardia epistemológica a tentativa de
acochambrar metodologias excludentes, produzindo um Frankenstein em suas
práticas.
Quando isso acontece e algo não
dá certo, ainda se tem de ouvir coisas como: ‘essa Filosofia Clínica não
funciona, carece de fundamentação...’, dentre outras preciosidades. Na base
dessa problemática é possível encontrar estudos de formação frágeis, com escassez de teoria e prática, associados a um
candidato apressado para acenar sua ignorância aos quatro ventos.
Louis Wain pode ser entendido de
muitas maneiras, tantas quantas as pessoas em busca de acessar seu jeito de ser,
não-ser, em conflito com os princípios de verdade de seu tempo. A nomenclatura
de surrealista, embora não o traduza por inteiro, parece ser adequada a sua
condição pessoal. Sua expressividade é incabível nos apontamentos da crítica especializada.
Uma busca que se mantém, lado a
lado com sua manifestação artística, é a tentativa de decifrar a eletricidade
do mundo. Noutras palavras, identificar a motivação para a vida de cada um, uma
espécie de mapa subjetivo para encontrar a singularidade.
Outro aspecto significativo na
obra é o fato de Louis Wain viver com as irmãs, as quais não o entendem e
acreditam que ele tenha alguma forma de loucura ou extravagância. O que ameniza
essa situação é o fato do artista bancar economicamente a vida da família com
seu trabalho. Aliás esse é um indicativo legal da psiquiatria, ou seja, para
alguém ser considerado são, basta ter boas relações com a cadeia produtiva do
capitalismo.
Algo novo acontece quando suas
irmãs resolvem contratar uma governanta para a casa. A chegada de Emily
Richardson, uma pessoa que compreende seu jeito de ser, logo chama a atenção de
Louis. Um amor se instala entre eles, desafiando, mais uma vez, as convenções
da época, pois uma relação afetiva entre patrão e empregada era inconcebível.
Louis Wain é execrado pela
família, apontado na rua por transgredir costumes. No entanto, nada disso o abala,
assumindo sua relação e casando-se com Emily, mudando de casa para
viver sua vida nova.
Nesse período da biografia sua
atividade criativa parece atingir seu ponto máximo. Mais tarde algo acontece
para desagregar esses momentos, os quais retornam mais adiante, para firmar sua
expressividade e paixão dominante na arte de desenhar gatos. Nesse ponto, já no
final da vida, tem seu trabalho reconhecido, como uma espécie de prêmio de consolação.
A saga de distanciar pessoas de
sua melhor expressão continua. Os dias de hoje (séc. 21) ainda se sustentam na
hipocrisia social, recheada de boas intenções. A maioria se associa em rede
para significar o fenômeno humano como algo comum. A emancipação de uma habilidade
ou competência pessoal, pode custar caro ao sujeito, o qual nem sempre terá
condições de superar os obstáculos de seu meio.
Talvez filmes, o teatro, literatura, música, as belas artes - terapia nem pensar, para quem acredita
ter tudo o que precisa -, possam oferecer pistas a cada um, insinuando o extraordinário às margens da própria estrutura de pensamento.
Aquele abraço,
*hs
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