Autogenia e expressividade
Em Filosofia Clínica, distante do
senso comum intelectual de nossa época, onde ainda se mantém igrejas
terapêuticas festejadas pela tradição, o novo paradigma encontra sua interseção
com as pessoas da rua, desprezadas, invisíveis, cuja singularidade se vê
reconhecida em processos de autogenia transformadora.
Nos dias de hoje (2025), ainda
tem quem não entenda a nova mensagem cuidadora, muitas vezes tentando estabelecer
similaridades com aquilo que já existe, desconstruindo as possibilidades de
compreender a natureza e o alcance da nova mensagem. Questão de método!
Deleuze aponta: “ (...) é através das
palavras, entre as palavras, que se vê e se ouve”. (Crítica e clínica,
2004. Pág. 9).
Talvez a dificuldade em
visualizar a novidade em seus dias de novidade, resida no fato de se interpretar sempre a mesma coisa diante de si, ainda quando esta coisa
é outra coisa. Assim trata-se de enquadrar um discurso existencial precursor em
definições pré-estabelecidas.
O conceito de autogenia, em Filosofia Clínica, tem a ver com o processo da terapia onde o partilhante, em tempo próprio, elabora sua expressividade em uma dialética singular, onde dentro e fora se integram em múltiplos ensaios de ser, não-ser, vir-a-ser, quase sempre em desacordo com a lógica de suas anterioridades.
Um devir surpreendente costuma
acompanhar as buscas da hora-sessão. Desde o acolhimento preliminar, exames
categoriais, estrutura de pensamento e demais procedimentos clínicos, o
filósofo se coloca numa disposição aventureira em comum acordo com as
possibilidades da interseção.
Com Gilles Deleuze: “(...)
explorar os meios, por trajetos dinâmicos, e traçar o mapa correspondente. Os
mapas dos trajetos são essenciais à atividade psíquica.” (Crítica e clínica,
2004. Pág. 73).
A busca por se traçar um
mapa correspondente a cada malha intelectiva, tendo como referência a
subjetividade partilhante, descreve uma abertura as lógicas do improvável, onde
se pode localizar a fenomenologia das construções compartilhadas.
São tantas as possibilidades
interditas nas ações e interações da autogenia, que é possível até tentar
classificar seus deslocamentos, contrariando a fonte de inspiração do novo
paradigma: a singularidade. Nesse sentido, se destaca a equivocidade da oferta para cristalizar
o ser singular, condicionando-o a um gesso interpretativo, como proposta de
controle, manipulação, adequação.
Assim a autogenia contida num cotidiano de atendimentos, tem a ver com os ensaios realizados pela via
da interseção terapêutica, onde eventos de múltiplas faces buscam caminhos de
integridade ao sujeito partilhante.
Deleuze ensina: “É como se alguns
caminhos virtuais se colassem ao caminho real, que assim recebe deles novos
traçados, novas trajetórias. Um mapa de virtualidades, traçado pela arte, se
superpõe ao mapa real cujos percursos ela transforma.” (Crítica e clínica,
2004. Pág. 79).
As vivências de consultório - em
Filosofia Clínica - tem o privilégio de conviver com expressividades em estado
nascente, por onde a pessoa desenvolve características a partir de seu próprio
território subjetivo, ou seja, ao conviver com outras possibilidades existenciais,
pode ressignificar-se de acordo consigo mesma sendo outra.
Em clínica não há que se falar em
situações irreais nas dinâmicas de consultório, o que acontece são interações (roteiros,
deslocamentos, reciprocidades, esteticidades, e algo mais) para investigar o
ângulo de possíveis da pessoa consigo mesma, com a vida lá fora.
Em Deleuze: “(...) não é a
sintaxe formal ou superficial que regula os equilíbrios da língua, porém uma
sintaxe em devir, uma criação de sintaxe que faz nascer a língua estrangeira na
língua, uma gramática do desequilíbrio.” (Crítica e Clínica, 2004. Pág. 127).
Então fica definido que não
haverá definição, ok? Sei das dificuldades para se navegar em alto mar com as
próprias forças, no entanto, quando se aprende tal coisa, mar aberto pode
significar novos horizontes, superando as âncoras do velho cais. Trata-se de recolocar as
coisas em outra perspectiva, desconstruindo a mordaça institucional, a
qual chega atrasada para legalizar novos territórios existenciais.
Com essa estética de acolher o
imprevisível em cada um, se apresentam novos tempos, identificados
pela multidão de pessoas distante dos holofotes, com uma percepção intuitiva
diferenciada, para enxergar na Filosofia Clínica, algo novo em um oásis de
acolhimento até então desconhecidos.
Aquele abraço,
hs
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