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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 48*

                                                  Enfermaria n. 6 

No inverno de 2006, em São Paulo, quando participava de um evento promovido pela APAFIC - Associação Paulista de Filosofia Clínica -, recebi um presente significativo, da colega e amiga Maria Luiza Nascimento, naquele tempo já uma das maiores filósofas clínicas deste país.

O presente foi o livro “O Beijo e outras histórias” de Anton P. Tchekhov, com uma especial recomendação: ler o conto “Enfermaria n. 6”, pois, segundo ela, tinha a ver comigo, com as coisas que eu acreditava, como e porque trabalhava. Um texto denso - como costumam ser os russos - distribuído em 66 páginas, numa tradução de Boris Schnaiderman.

A obra compartilha em suas páginas, múltiplos aspectos da condição humana, desde questões institucionais, burocráticas, as demarcações de território social, político, econômico, perpassando as relações entre médico e paciente em um asilo psiquiátrico, as segregações humanas em razão de crenças como: saúde e doença, normalidade e loucura. Bem assim, as atitudes, escolhas, simulacros de expressão em razão dos princípios de verdade.

Em outras palavras, descreve a normalidade como a adaptação das pessoas a uma realidade de cartas marcadas, a qualquer preço, refém de um saber-poder que se espraia por toda sociedade, como um tumor a impregnar ideias, pensamentos, atitudes, buscas. Embora o texto literário permita entrever as causas dos desajustes pessoais, ainda assim, quem determina os tratamentos - mesmo involuntários - é uma ideologia instituída por lei.     

Tchekhov indica: “(...) é o abobalhado judeu Moissieika, que perdeu a razão há uns vinte anos, quando se incendiou a sua oficina de chapeleiro.” (O beijo e outras histórias. Pág. 185).  

Esse fragmento sugere uma causa para o comportamento do personagem, ou seja, algo que poderia ser abordado e trabalhado de outra maneira, se existisse uma abordagem para tanto. Ao invés disso, a escolha recaiu numa internação para tratamento de sua saúde mental. A obra aborda uma questão de método em suas páginas, onde a lucidez reflexiva do autor descreve condições desumanas ao cuidado e atenção à vida.

Outro aspecto do texto de Tchekhov, é a forma como compartilha suas percepções sobre o mundo como representação, isto é, refere o louco como um humanista radical, por onde utiliza um vice conceito para traduzir sua visão das coisas, a forma como são tratadas as pessoas com devaneios, atitudes, formas de viver e conviver de natureza singular. 

No mesmo sentido, aponta a dificuldade em escrever sobre a fenomenologia do médico e sua interseção com os prisioneiros do hospício, algo, até então, incomum ao convívio com os internos. Andrei Iefímitch elabora vias de acesso as pessoas sob seus cuidados, acolhendo sua linguagem, costumes, as ações e seus significados, para compreender em reciprocidade. Assim reinventa a categoria lugar e a expressividade das sessões, dialogando com o sujeito e não mais o paciente.  

O autor transcreve: “Quando fala, você reconhece nele o louco e, ao mesmo tempo, a pessoa humana. É difícil transmitir no papel a sua fala demente. Ele trata da ignomínia dos homens, da coação, que oprime a verdade, da existência bela que, dentro de algum tempo, existirá sobre a terra, das grades nas janelas, que lhe recordam a todo momento o espírito embotado e as crueldades dos opressores.” (O beijo e outras histórias. Pág. 187)

Tchekhov se utiliza de um recurso conhecido como tradução, para realizar aproximações com o discurso existencial dos internos da enfermaria n. 6. Essa experiência de compartilhar instantes de escuta e conversação com pessoas desconsideradas socialmente, destituídas de quase tudo: incompreendidas, internadas, amarradas, desconstituídas de seu ser sujeito, ainda assim sobreviventes como pacientes psiquiátricos, a partir de então: doentes mentais, não raras vezes fabricados no laboratório alienista. A partir daí, refém de uma tipologia, restando uma forma peculiar de resistência, ou seja, a seleção de quando, com quem, o que compartilhar. Raramente essa escolha recai no médico psiquiatra, como no conto de Tchekov.  

O trecho recorda as grades na janela, representativa do espírito dos opressores, representados pela lei, pela psiquiatria e coadjuvantes, os princípios de verdade, a proposta por calar ou domesticar a inquietude existencial de uma expressão humana incompreendida.   

Tchekhov destaca: “Andrei Iefímitch senta-se sem tardança à mesa do escritório e começa a ler. Lê muitíssimo e sempre com grande prazer. Consome a metade do ordenado na compra de livros, e dos seis cômodos do seu apartamento três estão abarrotados de livros e revistas velhas.” (O beijo e outras histórias. Pág. 201)

A leitura, como um espaço de autocuidado e desenvolvimento pessoal, costuma acompanhar alguns terapeutas, os quais, encontram nas páginas de um livro, matéria-prima para compor a realidade de seu cotidiano. Andrei Iefímitch, utiliza sua relação com os livros e revistas, como um espaço de acolhimento, estudo, reflexão, em busca de um território subjetivo para seu devir. 

O contato com as obras oferece ao velho médico, uma medicação indisponível a quem não lê e não tem como saber do que se trata. A leitura e suas derivações, constituem um espaço de vida raras vezes traduzível pelas palavras conhecidas. Assim, Andrei Iefímitch, na medida em que associa suas leituras com as práticas de consultório, vai encontrando uma nova forma de se relacionar com as pessoas internadas, descobrindo singularidades em cada refém da enfermaria n. 6.

Esse ponto do texto oferece uma percepção sobre os rumos da história, ou seja, o médico oferece um acolhimento compreensivo a seus pacientes e, dessa forma, passa a ter a desconfiança dos demais integrantes da instituição, que consideram as pessoas internadas loucas, e o doutor deveria tratá-las com medicamentos, e não com diálogos, escuta, dando atenção aos seus delírios.     

O autor descreve: “Organizam-se espetáculos e bailes para os loucos, mas assim mesmo eles não são postos em liberdade. Quer dizer que tudo é tolice e vaidade, e, em essência, não há nenhuma diferença entre a melhor clínica vienense e o meu hospital.” (O beijo e outras histórias. Pág. 208)

Um aspecto desses asilos onde se acumulam pessoas, à guisa de tratamento psiquiátrico, são as atividades consideradas complementares, paliativas, para distrair, conforme as crenças da instituição. Por outro lado, se pode retirar alguns ensinamentos desses eventos, como: bailes, exercícios físicos, atividades de estética, num convívio onde costumam aflorar expressividades até então sufocadas.

Esse relato do autor sobre a relação da melhor clínica vienense e o hospital descrito em suas páginas, se assemelha, em nosso país, com a realidade do SUS (medicina pública) e os hospitais privados, os quais diferem - na maioria das vezes - pelas instalações, pois os profissionais estudam as mesmas coisas. Os atendimentos, muitas vezes, na esfera pública, costumam ser bem-sucedidos, oferecendo a população desassistida economicamente, um acolhimento diferenciado, enquanto naqueles outros, a preferência é pelo saldo do plano de saude. 

Um exemplo: uma pessoa em estágio terminal, num leito de hospital público, após as intervenções necessárias para conceder-lhe qualidade de vida, ao se constatar sua impossibilidade, a deixam partir em tempo próprio. As instituições privadas, no entanto, costumam ter outra postura, isto é, dependendo da disponibilidade financeira do paciente, a vida - ou que  resta dela - poderá ficar ligada a aparelhos (CTIs) por muito tempo, sugerindo uma cura que não vai chegar.  

Em um dos diálogos entre o velho médico e um de seus interlocutores na enfermaria n. 6, é possível perceber alguns apontamentos de natureza filosófica, distantes do olhar tecnicista do alienista.  

Anton Tchekov compartilha: “O senhor é um homem que pensa, que reflete. Em qualquer circunstância, pode encontrar em si mesmo um meio de se tranquilizar. O pensamento livre e profundo que procura compreender (...) a vida, e um desprezo absoluto às vaidades estúpidas do mundo – eis os dois bens mais elevados que o homem jamais conheceu. E o senhor pode possuí-los, ainda que viva atrás de três grades. Diógenes viveu num barril, embora fosse mais feliz que todos os reis da terra.”  (O beijo e outras histórias. Pág. 214)

Quando um terapeuta se coloca em reciprocidade com uma pessoa - internada ou não - não é raro, ao visitar sua singularidade, agregar uma matéria-prima resultante dessa interseção, bem como procedimentos para desenvolver uma vida de maior integridade com o outro e consigo mesmo.  

Um subproduto da sociedade contemporânea é a padronização de abordagens terapêuticas, as quais, encontram no hospício, um dos últimos redutos das torturas medievais, onde se encarceravam e submetiam pessoas com as quais não se conseguia manter uma relação clínica. Dessa forma ao desqualificar o sujeito, produziam - e seguem produzindo - doença mental para insinuar uma cura, em estreita conexão com uma sociedade cúmplice.  

Para acessar uma singularidade, é preciso bem mais do que fórmulas prontas, narrativas psiquiátricas, ou um conhecimento com base em experiências. É preciso uma aproximação com o outro para conhecê-lo em seu território existencial. As peculiaridades, lugar, tempo, relações, a linguagem, jeitos e trejeitos, valores, e o que mais aparecer. Como um bom livro, essa prática reivindica tempo, dedicação, paciência, acolhimento e estudo com o outro para compartilhar algo que lhe faça sentido.   

A questão ideológica aparece nos desdobramentos da obra de Tchekov da seguinte forma: “Saindo da prefeitura, Andréi Iefímitch (o velho médico) compreendeu que fora examinado por uma comissão, encarregada de verificar o seu estado mental. Lembrou-se das perguntas que lhe foram feitas, corou e por alguma razão, pela primeira vez na vida, teve uma pena profunda da medicina.” (O beijo e outras histórias. Pág. 227)

Mentes brilhantes como: Michel Foucault, Gilles Deleuze, Fritjof Capra, Franz Kafka, e outros, trabalham em suas obras a questão do controle, da manipulação social pelas ideologias estruturadas para conter expressividades. Em outras palavras, quando alguém insinua viver, conviver, trabalhar, de forma diferenciada, esse aspecto, por si só, pode determinar uma clausura existencial ou um banimento, muitas vezes traduzida numa internação involuntária, seja num manicômio ou numa salinha de 2x2, para carimbar papéis.

Existem muitas formas de exílio, talvez a mais festejada seja a exclusão de uma pessoa de sua profissão, por ter posturas de acolhimento as lógicas da diferença, ainda mais se tratar-se de um novo paradigma, aí então, irá mexer com as referências de saber-poder, seus rituais de ensino-aprendizagem, alienação disfarçada de boas intenções, e algo mais, distante de uma reflexão e análise crítica de seus pressupostos.

O crime de Andréi Iefímitch? Acolher e dialogar com os internos da enfermaria. A partir daí, seu comportamento é denunciado como cumplice da loucura, servindo para a substituição no cargo de diretor médico e sua própria internação na enfermaria n. 6.

Sorria! Você está sendo filmado!

Aquele abraço,

hs