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sábado, 4 de janeiro de 2025

Filosofia Clínica Agridoce 47*

 

                                        Poéticas da desrazão 

Um texto com base nas normas da ABNT não pode ter sua narrativa em desacordo com sua métrica, menos ainda insinuar uma contradição com o cristal acadêmico, mantenedor da ciência normal. Ainda assim, pelas brechas e fissuras de suas definições, é possível entrever o barquinho das coisas bem ajustadas fazendo água.   

Uma singularidade genial como Antonin Artaud, não poderia suportar viver muito mais - partiu aos 52 anos de idade - em um mundo sem noção ou método para acolher e compreender seu viés de ser extraordinário, incabível numa normalização psiquiátrica e seus coadjuvantes (psicologias, famílias, igrejas, polícia, judiciário...), os quais oferecem a camisa de força institucional para conter transgressões e deslizes existenciais.   

Artaud ensina: “Há um ponto em vocês que médico algum jamais entenderá e é este ponto, a meu ver, que os salva e torna augustos, puros e maravilhosos: vocês estão além da vida, seus males são desconhecidos pelo homem comum, vocês ultrapassaram o plano da normalidade e daí a severidade demonstrada pelos homens, vocês envenenam sua tranquilidade, corroem sua estabilidade.” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 29).

Pode não ser por acaso o surgimento de uma abordagem terapêutica como a Filosofia Clínica em finais do século XX e seu desenvolvimento no século XXI, em um país periférico, ou seja, mais uma vez a invisibilidade das margens oferece contribuições significativas ao fenômeno humano.

Alguns profissionais ainda buscam (em quase desespero) sustentar suas generalizações, para isso encontram na proliferação de síndromes, transtornos, uma resposta para suas dúvidas e limites metodológicos. Impõe suas crenças e práticas por força de lei, por não conseguir superar (por medo, insegurança, preguiça, zona de conforto, interesses econômicos) as lentes vencidas do seu olhar. Enquanto essa realidade não mudar, a indústria de psicofármacos, com seus lucros faraônicos e sua rede de sustentação, continuará desconstruindo singularidades para fabricar alienados.   

Antonin Artaud compartilha: “Há em todo demente um gênio incompreendido em cuja mente brilha uma ideia assustadora, e que só no delírio consegue encontrar uma saída para as coerções que a vida lhe preparou.” (Van Gogh – o suicida da sociedade, 2007. Pág. 53).

É triste constatar o fato de muitas universidades acolherem metodologias cristalizadas nalguma forma de ciência normal, descartando a inquietude filosófica, reflexiva, crítica, analítica. Raciocínios de cunho linear se assustam com a não-linearidade fora da curva. Assim as ciências humanas, cada vez mais, se submetem ao gesso da tecnologia, da vida robô.      

Um acolhimento diferenciado, com base em um discurso existencial singular, não tem espaço em um ambiente tóxico, refém da camisa de força da ideologia psiquiátrica, seus cúmplices e os desavisados.

Por outro lado, a resistência encontra na Filosofia Clínica uma aliada das abordagens não convencionais, numa aproximação compreensiva e cuidadora com os desclassificados e incompreendidos socialmente, sem voz e vez, reféns das lógicas do deus dinheiro, da miséria existencial juramentada. Uma expressividade em vias de não-ser reivindica um olhar em sintonia com sua realidade mutante, acolhendo e convivendo com uma singularidade inconformada com uma normalização abaixo da linha da miséria.

Artaud ensina: “Para mim, as ideias claras, no teatro como em qualquer outro lugar, são ideias mortas e encerradas. (...) a descoberta de uma linguagem ativa, ativa e anárquica, onde os limites usuais dos sentimentos e das palavras sejam abandonados.” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 81).

A filosofia positivista de Augusto Conte encontrou no RS e no Brasil, em figuras como: Borges de Medeiros (1863-1961) e Júlio de Castilhos (1860-1903), uma base de sustentação institucional que perdura, um terreno propício a sua forma de pensar. Sua lógica cartorial expandiu seus tentáculos por todo lugar: família, escola, igreja, política, hospícios, tratando de uniformizar condutas, enquadrar comportamentos, em flagrante patologização da vida humana.  

Pensar fora da curva, em uma linguagem própria, pode ser considerado um crime de lesa pátria, ou seja, ao não ser entendido ou significar uma ameaça a epistemologia de fundo da caverna de Platão, a resposta costuma ser a clausura dos hospícios e seus coadjuvantes, tudo dentro da lei.  

Talvez por isso as belas artes, a música, a literatura, o teatro - que encontra em Artaud um dos seus gênios -, compartilhem uma forma de expressão singular, diferenciada, transgressora das propostas de contenção da criatividade, imaginação, superação do lugar comum.   

Em nossa cidade existe uma escola recheada de boas intenções, que concede bolsas de estudo, e outras vantagens, para adolescentes de periferia, para incentivar a livre iniciativa. Noutras palavras, sua proposta acena com a ideia de que todos serão empresários, como sinônimo de ser bem-sucedidos na vida.

Por outro lado, em contradição com essa forma de pensar e existir, existem frestas sociais por onde a genialidade sempre aparece, em uma ou outra forma de expressão, com linguagem própria, preliminarmente irreconhecível, por tratar-se de uma expansão territorial subjetiva com repercussões no espaço cotidiano.

Artaud descreve: “Van Gogh era uma dessas naturezas de lucidez superior que lhes permite, em todas as circunstâncias, enxergar mais longe infinita e perigosamente mais longe do que o real imediato e aparente dos fatos.” (Van Gogh – o suicida da sociedade, 2007. Pág. 55).

Nesse sentido, se pode entender as dificuldades de uma singularidade nascida para brilhar (todos deveriam brilhar em território próprio), em meio a mesmice tagarela da vida normal, oferecendo suas contas a pagar, filhos para criar, mão de obra escrava, ignorância e desinformação para sustentar as estruturas de poder, e por aí vai. Bertolt Brecht tem um poema que vale a pena: se os tubarões fossem homens.   

Em nosso país surgiu o fenômeno Artur Bispo do Rosário, internado quase a vida inteira num hospício, ainda assim produzindo sua arte. Quando algumas pessoas tentavam se aproximar de seu espaço de trabalho, buscava sentir a energia da pessoa, para ler sua aura e traduzir em linguagem própria se era alguém confiável para ingressar em sua casa.

O caso Nise da Silveira, uma louca diplomada, infelizmente também ela refém das tipologias psiquiátricas, ainda assim encontrou formas para superar a classificação de seus estudos, oferecendo a estética como expressividade aos seus pacientes. Ao receber os candidatos a alunos em sua escola, tratava de enviar sua secretária para abrir a porta, deixando os incautos sentados na sala de entrada, até a chegada de seus gatos, os quais faziam a pré-seleção dos alunos, cheirando, pulando no colo, interagindo com sua alma. Depois disso, se autorizados pelos felinos, Nise acolhia-os para um chá e apresentação de seu espaço de trabalho.

E por aí seguem os dias, em rascunhos pelas poéticas da desrazão, onde os eventos de consciência alterada (com base na medicação da poesia, filosofia, literatura, música, belas artes), possam encontrar uma fonte de inspiração para superar a camisa de força da vida normal.

Aquele abraço,

hs