Poéticas da desrazão
Um texto com base nas normas da
ABNT não pode ter sua narrativa em desacordo com sua métrica, menos ainda insinuar
uma contradição com o cristal acadêmico, mantenedor da ciência normal. Ainda
assim, pelas brechas e fissuras de suas definições, é possível entrever o barquinho
das coisas bem ajustadas fazendo água.
Uma singularidade genial como
Antonin Artaud, não poderia suportar viver muito mais - partiu aos 52 anos de
idade - em um mundo sem noção ou método para acolher e compreender seu viés de
ser extraordinário, incabível numa normalização psiquiátrica e seus
coadjuvantes (psicologias, famílias, igrejas, polícia, judiciário...), os quais
oferecem a camisa de força institucional para conter transgressões e deslizes existenciais.
Artaud ensina: “Há um ponto em
vocês que médico algum jamais entenderá e é este ponto, a meu ver, que os salva
e torna augustos, puros e maravilhosos: vocês estão além da vida, seus males
são desconhecidos pelo homem comum, vocês ultrapassaram o plano da normalidade
e daí a severidade demonstrada pelos homens, vocês envenenam sua tranquilidade,
corroem sua estabilidade.” (Escritos de Antonin Artaud, 2019. Pág. 29).
Pode não ser por acaso o
surgimento de uma abordagem terapêutica como a Filosofia Clínica em finais do
século XX e seu desenvolvimento no século XXI, em um país periférico, ou seja, mais
uma vez a invisibilidade das margens oferece contribuições significativas ao
fenômeno humano.
Alguns profissionais ainda buscam
(em quase desespero) sustentar suas generalizações, para isso encontram na proliferação
de síndromes, transtornos, uma resposta para suas dúvidas e limites metodológicos.
Impõe suas crenças e práticas por força de lei, por não conseguir superar (por
medo, insegurança, preguiça, zona de conforto, interesses econômicos) as lentes
vencidas do seu olhar. Enquanto essa realidade não mudar, a indústria de
psicofármacos, com seus lucros faraônicos e sua rede de sustentação, continuará
desconstruindo singularidades para fabricar alienados.
Antonin Artaud compartilha: “Há
em todo demente um gênio incompreendido em cuja mente brilha uma ideia
assustadora, e que só no delírio consegue encontrar uma saída para as coerções
que a vida lhe preparou.” (Van Gogh – o suicida da sociedade, 2007. Pág. 53).
É triste constatar o fato de muitas
universidades acolherem metodologias cristalizadas nalguma forma de ciência
normal, descartando a inquietude filosófica, reflexiva, crítica, analítica.
Raciocínios de cunho linear se assustam com a não-linearidade fora da curva.
Assim as ciências humanas, cada vez mais, se submetem ao gesso da tecnologia,
da vida robô.
Um acolhimento diferenciado, com
base em um discurso existencial singular, não tem espaço em um ambiente tóxico,
refém da camisa de força da ideologia psiquiátrica, seus cúmplices e os desavisados.
Por outro lado, a resistência
encontra na Filosofia Clínica uma aliada das abordagens não convencionais, numa
aproximação compreensiva e cuidadora com os desclassificados e incompreendidos socialmente,
sem voz e vez, reféns das lógicas do deus dinheiro, da miséria existencial juramentada.
Uma expressividade em vias de não-ser reivindica um olhar em sintonia com sua
realidade mutante, acolhendo e convivendo com uma singularidade inconformada
com uma normalização abaixo da linha da miséria.
Artaud ensina: “Para mim, as
ideias claras, no teatro como em qualquer outro lugar, são ideias mortas e
encerradas. (...) a descoberta de uma linguagem ativa, ativa e anárquica, onde
os limites usuais dos sentimentos e das palavras sejam abandonados.” (Escritos
de Antonin Artaud, 2019. Pág. 81).
A filosofia positivista de
Augusto Conte encontrou no RS e no Brasil, em figuras como: Borges de Medeiros
(1863-1961) e Júlio de Castilhos (1860-1903), uma base de sustentação institucional
que perdura, um terreno propício a sua forma de pensar. Sua lógica cartorial expandiu
seus tentáculos por todo lugar: família, escola, igreja, política, hospícios,
tratando de uniformizar condutas, enquadrar comportamentos, em flagrante
patologização da vida humana.
Pensar fora da curva, em uma
linguagem própria, pode ser considerado um crime de lesa pátria, ou seja, ao
não ser entendido ou significar uma ameaça a epistemologia de fundo da caverna de
Platão, a resposta costuma ser a clausura dos hospícios e seus coadjuvantes,
tudo dentro da lei.
Talvez por isso as belas artes, a
música, a literatura, o teatro - que encontra em Artaud um dos seus gênios -,
compartilhem uma forma de expressão singular, diferenciada, transgressora das propostas
de contenção da criatividade, imaginação, superação do lugar comum.
Em nossa cidade existe uma escola
recheada de boas intenções, que concede bolsas de estudo, e outras vantagens,
para adolescentes de periferia, para incentivar a livre iniciativa. Noutras
palavras, sua proposta acena com a ideia de que todos serão empresários, como
sinônimo de ser bem-sucedidos na vida.
Por outro lado, em contradição
com essa forma de pensar e existir, existem frestas sociais por onde a
genialidade sempre aparece, em uma ou outra forma de expressão, com linguagem
própria, preliminarmente irreconhecível, por tratar-se de uma expansão
territorial subjetiva com repercussões no espaço cotidiano.
Artaud descreve: “Van Gogh era
uma dessas naturezas de lucidez superior que lhes permite, em todas as
circunstâncias, enxergar mais longe infinita e perigosamente mais longe do que
o real imediato e aparente dos fatos.” (Van Gogh – o suicida da sociedade,
2007. Pág. 55).
Nesse sentido, se pode entender
as dificuldades de uma singularidade nascida para brilhar (todos deveriam
brilhar em território próprio), em meio a mesmice tagarela da vida normal, oferecendo
suas contas a pagar, filhos para criar, mão de obra escrava, ignorância e
desinformação para sustentar as estruturas de poder, e por aí vai. Bertolt Brecht tem um poema que vale a pena: se os tubarões fossem homens.
Em nosso país surgiu o fenômeno
Artur Bispo do Rosário, internado quase a vida inteira num hospício, ainda
assim produzindo sua arte. Quando algumas pessoas tentavam se aproximar de seu
espaço de trabalho, buscava sentir a energia da pessoa, para ler sua aura e
traduzir em linguagem própria se era alguém confiável para ingressar em sua
casa.
O caso Nise da Silveira, uma
louca diplomada, infelizmente também ela refém das tipologias psiquiátricas, ainda
assim encontrou formas para superar a classificação de seus estudos, oferecendo
a estética como expressividade aos seus pacientes. Ao receber os candidatos a
alunos em sua escola, tratava de enviar sua secretária para abrir a porta,
deixando os incautos sentados na sala de entrada, até a chegada de seus gatos,
os quais faziam a pré-seleção dos alunos, cheirando, pulando no colo,
interagindo com sua alma. Depois disso, se autorizados pelos felinos, Nise acolhia-os
para um chá e apresentação de seu espaço de trabalho.
E por aí seguem os dias, em rascunhos
pelas poéticas da desrazão, onde os eventos de consciência alterada (com base
na medicação da poesia, filosofia, literatura, música, belas artes), possam encontrar uma
fonte de inspiração para superar a camisa de força da vida normal.
Aquele abraço,
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